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REGGAE DO APAGÃO

Que este triste episódio de escuridão possa nos trazer algum tipo de iluminação

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Na noite de domingo para segunda, vi a lua nascendo amarela, da janela de um avião. Como estava sozinho, num avião cheio, era inevitável pegar fragmentos de conversas nos quatro pontos cardeais, ao redor do meu lugar.

As conversas seguiam aceleradas, empolgadas, algumas ansiosas e nervosas, alternando assuntos, mas não o tom.

Falando sobre compras feitas e não feitas, sobre compromissos que os esperavam na volta, conquistas amorosas, qualidade de vinhos e os mais variados e inúteis temas, os passageiros pareciam disputar uma importante prova do que Bob Marley chamou de ‘rat race’, uma desenfreada carreira de ratos correndo atrás das próprias caudas.

Quando a lua apareceu e a luz do final de tarde deu a vaga para a noite, o comandante alterou o protocolo, tomou o microfone e, numa atitude pouco previsível (comum aos ônibus de excursões ou aos carros de famílias em viagens, quando geralmente cabe às mães o alerta), chamou a atenção dos passageiros para o luar, ao mesmo tempo em que apagou 95% das luzes da cabine da aeronave.

Em que pese o fato de que parte significativa das dezenas de passageiros que da minha poltrona era capaz de enxergar, poderiam estar sob efeito de dramins, dormonides, uísques e vinhos, alguns até desfrutando da mistura de tudo isso, ficou muito claro que a vibração (para abusar dos termos que Bob Marley tornou populares) se transformou imediatamente.

Homem não chora

O escuro, melhorado pelas pinceladas da lua, fez os assuntos mergulharem da superfície rasa e sem graça para as águas de baixo, onde nadam as emoções e as coisas que fazem diferença.

Uma dupla de amigos que viajava na fileira de trás, para minha surpresa, e sem nenhum viés homossexual visível, pôs-se a conversar sem filtros, sobre como era bom e importante poder estar ali ao lado de alguém por quem se sente uma forte amizade, e reparei que os dois brindaram felizes ao fato de estarem ali. Não haveria nada demais se se tratasse de dois namorados do mesmo sexo, mas a cena me chamou a atenção exatamente porque nós, pobres heterossexuais masculinos sul-americanos, somos treinados com técnicas de Rezbolah para não deixar este tipo de diálogo tornar-se realidade antes do leito de morte, custe o que custar.

Noto que neste período de absurda ameaça de corte de energia, algo nessa linha pode estar acontecendo em São Paulo.

Fui, semana passada, ao Itaim Bibi, bairro que particularmente evito, pelo estrangulamento natural que assola aquelas ruazinhas invadidas por gente atrás de diversão. Não gosto da vibração que toma conta do bairro à noite. Sinto que a qualquer momento a tensão pode sair do controle.

Para minha surpresa, as luzes apagadas, o natural menor movimento na área, transportavam quem por ali passasse, ao tempo em que este era um dos melhores bairros para se morar na cidade.

Pensei que talvez naqueles prédios todos muita gente estivesse celebrando amizades ou outros tipos de relações humanas à meia luz.

Que este triste episódio de escuridão possa nos trazer algum tipo de iluminação.

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