por Camila Hessel
Trip #254

Um programa experimental de autoconhecimento tenta quebrar os mitos do “faça o que você ama” para quem se sente meio perdido, meio perdedor – só não vale chamar de coaching

De um lado, rotinas longas, pouco edificantes, cheias de pressão. Do outro, histórias edulcoradas de quem largou tudo e foi viver (feliz) de pegar jacaré pelo mundo. No meio, uma fila enorme de pessoas frustradas. Foi esse cenário a inspiração para o Rabbit Hole, programa criado este ano dentro da escola de atividades criativas Perestroika e que ajuda a explorar novas possibilidades para a vida profissional e pessoal, tentando desconstruir o mito de que fazer o que se ama é fácil.

A partir de uma série de 12 encontros, desenhados individualmente para cada participante, o Rabbit Hole traça uma viagem de autoconhecimento e de conexão com pessoas e histórias que podem ajudar a "sair do buraco". Nataly Simon, que concebeu o programa, queria construir algo para ajudar efetivamente as pessoas, mas sem generalizar soluções. "A vida pessoal e a profissional estão mais entrelaçadas do que gostaríamos de admitir", diz ela. "E isso faz com que os caminhos sejam individuais, não existe uma pílula mágica que vá resolver a vida."

A primeira rodada, em fase experimental, rolou com apenas quatro pessoas, entre fevereiro e abril, selecionadas a partir de um questionário on-line que buscava mapear personalidades e trajetórias. Involuntariamente, Nataly acabou por emular a rotina de um terapeuta, alocando um dia da semana para cada participante. Além de cafés, bares e restaurantes, as reuniões se deram em galerias de arte e até percorrendo a cidade de São Paulo madrugada adentro, encontrando moradores de rua em uma das edições do projeto Entrega por São Paulo.

Nos três primeiros encontros, Nataly e o participante mapeiam a história de vida e os anseios de cada um, usando matrizes, questionários e conversas. O próximo capítulo é dedicado a abrir a cabeça e expandir possibilidades. Apelidado de "mostra o seu que eu mostro o meu", dura no mínimo outras quatro semanas, em que as reuniões passam a ser a três: Nataly convida alguém que atue na mesma área de interesse do participante, que tenha uma trajetória pessoal ou profissional parecida, os mesmos pontos fortes (ou fracos), ou mesmo que tenha aprendido com um erro gigante ou superado um medo em comum. A proposta é trocar ideias e experiências e se deixar inspirar por outras histórias, mas sem extrair delas uma receita ou passo a passo.

Os encontros restantes são dedicados a "sujar as mãos". Três vivências, não necessariamente individuais, para chacoalhar certezas. Ir sozinho a uma balada, fazer uma oficina de arte, fazer um trabalho como voluntário. E, antes de seguir carreira solo, uma sessão final para montar um plano de ação, mas, como diz Nataly, sem pressão para ter uma ideia genial e com as definições de sucesso atualizadas. O preço do programa é de R$ 7.500 e todos os custos estão incluídos, das atividades à conta do restaurante.

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