Logo Trip

QUEQUEADIANTA.COM.BR

A Internet e suas incubadoras continuam valorizando não só idéias, mas de forma especial profissionais de arte, texto e imagens, até outro dia tratados e remunerados como os serventes de pedreiro da construção do País

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

Fiz nesta segunda o que é para mim, e imagino que seja para a maioria dos habitantes desta cidade, algo cada vez mais difícil. Uma leitura calma e demorada de três jornais, sendo um deles especializado em negócios de comunicação.
Não que houvesse nada de realmente novo ou um fato de relevância fora do normal que justificasse o mergulho nos noticiários. Apenas a indulgência de se permitir fazer uso exagerado deste item tão escasso quanto precioso que é o tempo livre.
O saldo de tal leitura é curioso. Lado a lado, coabitam notícias de um contraste que grita. Inflação baixa a níveis impensáveis até bem pouco tempo atrás. Investimentos anunciados diariamente inundam o mercado brasileiro de dinheiro de investidores estrangeiros.
A Internet e suas incubadoras continuam valorizando não só idéias, mas de forma especial profissionais de arte, texto e imagens, até outro dia tratados e remunerados como os serventes de pedreiro da construção do País.
Uma segunda e uma terceira emissoras de televisão aberta fustigando de forma insistente e sistemática a líder de audiência acenando com um esboço de divisão de poder, ainda que restrita às mesmas cinco ou seis famílias. Em resumo, com maior ou menor intensidade, notícias animadoras, sinais concretos de passos à frente para um país caranguejo.
Viram-se as páginas e nos afrontam notícias de outra cor. O garoto se atira do sétimo andar de um condomínio de luxo da zona sul. Os vizinhos não estranham. É o terceiro caso apenas naquele prédio. Um soldado da PM é morto por um sujeito que, alucinado, abre fogo com a própria arma do policial, depois de ser detido por sair pelas ruas esmurrando carros e ameaçando pessoas.
Em economia, uma página com o título ‘Como evitar a falência pessoal’. Logo depois, uma página dedicada às ‘chacinas do final de semana’, já quase uma editoria fixa nos principais jornais. O banqueiro Simonsen, quinto homem mais rico do país e um dos 400 mais abastados do planeta, é denunciado como possível megassonegador. A moça que dava carona a um médico é morta com um tiro no peito. Um por cento da população ganha mais que cinqüenta por cento do resto da turma.

Fuga em massa
Por paradoxal que possa ser, é no jornal de negócios que parece estar a notícia mais esclarecedora e que faz liga entre todas as outras.
Uma das maiores empresas de consultoria em gestão empresarial do mundo perdeu nos últimos meses uma parte enorme dos contingentes de profissionais consultores de sua filial brasileira. Mais uma vez, contrariando as expectativas menos elaboradas, nem todos os dissidentes estão deixando a empresa para vôos solo nas asas tentadoras da Internet. Parte significativa do grupo, formada por jovens adultos, preparados pela melhores escolas nacionais e internacionais, afirma estar deixando o sólido grupo, com a intenção de repensar a existência. Haja ou não influência do alinhamento dos tais astros em touro, aumenta a cada dia, o número de pessoas que questiona, e através deste questionamento, reforma a noção de sucesso, de ser vencedor no sistema que até há pouco tanto seduzia.

Me deixem
Fecha a reflexão uma entrevista dada num dos canais norte-americanos pelo pai do indefectível garoto Elián. Perguntado por um entrevistador sisudo e austero, no mais puro estilo sessenta minutos, se não concordava que seu filho tivesse o direito de optar pela liberdade e pelo conforto dos Estados Unidos, o cubano respondeu sem rodear: Que liberdade? A de ir trabalhar depois de deixar seu filho na escola e tremer a cada dez minutos diante do risco de ele ser metralhado no pátio? A liberdade de ser espancado pela polícia ou por algum vizinho por causa da cor de sua pele? O conforto de viver enfiado num cubículo, trabalhando para alguém que rouba e polui para se pegar ansioso e infeliz por não ter o último modelo de DVD ou não ter dinheiro para uma operação plástica moderna? Me deixem criar meu filho.

PALAVRAS-CHAVE
COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon