Quem fez arte?
Há sinais animadores de que os esforços no sentido de oferecer arte como opção de lazer vêm surtindo efeitos imediatos
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
No domingo Dia dos Pais, havia uma fila grande dando a volta no pátio da Pinacoteca do Estado. A lotada exposição de arte espanhola, num dia tradicionalmente dedicado a almoços e reuniões em família, indicava sinal animador de que os esforços públicos e privados no sentido de oferecer arte como opção de lazer vêm surtindo efeitos imediatos.
Na Faap, a exposição de Anita Malfatti, se não estava tão lotada, não deixou de atrair ótimo público, com seus inteligentes recursos lúdicos, bem sucedidos no objetivo de quebrar a chatice que pode tomar conta de museus e outros ambientes voltados à conservação e exibição de arte consagrada. Atire a primeira pedra quem nunca se sentiu encalorado de tédio, em salas acarpetadas e cheias de seguranças em volta de quadros e esculturas.
A exposição de Anita lembrou de permitir que a imaginação voasse em todas as direções, com uma sala em que um dos quadros se transforma em cenário por entre o qual se pode andar, uma outra em que adultos e crianças recebem telas para pintar, uma reprodução (esta um pouco pobre) do ateliê da pintora, pontuando salas de cores diferentes por entre as quais se expõem os quadros, algumas fotos antigas de São Paulo e pranchas onde se pode ler a biografia da artista. Estímulo em todos os sentidos.
A idéia é que um espaço dedicado à arte possa ser tão curioso, vivo e surpreendente quanto a rua e a vida.
Galinhas
É engraçado que os espaços da arte estejam se moldando à emoção da rua e os espaços da rua estejam cada vez mais esquecidos.
Malfatti, por exemplo, no auge de seus dias, deixou a São Paulo de pretensões européias e cosmopolitas e mudou-se para Diadema, então uma calma cidadezinha de interior, em busca de retratar as coisinhas simples, as pequenas festas populares que celebram o que realmente merece ser comemorado…
Raduan Nassar por seu turno, uma quase unanimidade quando se fala em literatura brasileira contemporânea, foi criar galinhas em 1984. É dele a frase: ‘Quem não sabe ver se tem ovo na galinha não pode fazer literatura, só teoria’.
Em Buri, no interior do Estado, diz que ‘a fazenda é outra forma de escrever’. De outra geração, mas não menos criativo e talentoso, Vik Muniz disse em entrevista que ‘arte é olhar para uma coisa e ver outra’.
Um pouco de luz
Se os grandes artistas conseguem nos dar permanentemente a lição de que arte está por toda a parte, resta torcer para que as mesmas forças que têm posto energia e recursos a favor da arte mais consagrada voltem o foco para as expressões contemporâneas que pipocam em cada buraco da cidade. Falando em energia, que tal a Prefeitura restituir a luz para a feirinha de automóveis antigos que os próprios colecionadores trataram de criar em frente ao estádio do Pacaembu nas noites de terças-feiras?
São milhares de pessoas que vão até lá para admirar a engenharia, entender história, reciclagem, mecânica, design, aprender a valorizar o passado, sem falar nos empregos gerados pelo comércio de vendas e trocas.
No escuro absoluto, e dependendo de lampiões, aos poucos a feira vai perdendo seu encanto e os visitantes vão minguando, uma parte, possivelmente, de volta para os balcões dos botecos, sabidamente entre as únicas opções de lazer da periferia paulistana.
Enquanto isso, os jornais, toda semana, exibem provas cabais do desperdício de energia em outros locais públicos. Um pouco de ‘iluminismo’ cairia bem.
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