por Roberta Salomone
Trip #164

Vivemos numa época em que cada um escolhe seu físico como quem vai ao mercado

 

Na adolescência, Beatriz Tavares – a mulher que você vê acima, pendurada numa barra – era uma bailarina magrela. Mas, aos 19 anos, sua vida começou a mudar radicalmente quando ela se matriculou numa academia de ginástica. Pegou pesado na malhação, mas achou que tomando bomba o resultado poderia ser mais rápido. E foi. O corpo cresceu com velocidade fora do comum. A pele e o cabelo mudaram, a voz engrossou. Como muitas outras meninas do Rio, Beatriz faz parte de uma geração que sonhava em ter o corpo da Feiticeira. Não aquela que balançava o inocente narizinho na antiga série de TV. E sim a que se chacoalhava inteira apenas com um véu no rosto, um minúsculo biquíni e músculos que pareciam saltar do corpo. Hoje, aos 32 anos, Beatriz acha que exagerou na dose e quer mudar mais uma vez seu corpo, dessa vez sem aditivos. "Sequei um pouco, mas meus braços ainda estão grandes, mesmo sem trabalhar essa região faz tempo."

 

 

Roberto Werneck já está mais adiantado nesse processo de afinamento. Por quase duas décadas, ele fez jiu-jítsu e exibiu o corpo bombado comum entre os lutadores. Há cinco anos descobriu a ioga e entrou de cabeça nesse novo mundo. Perdeu 10 kg e virou professor. Da época do jiu-jítsu, restaram apenas uma certa dificuldade no alongamento e as indefectíveis orelhas em forma de couve-flor.

Beatriz e Roberto freqüentam a mesma praia, a velha e ainda boa Ipanema – laboratório privilegiado e ao ar livre da diversidade do corpo. Foi pra lá que Trip rumou quando quis observar as recentes transformações do shape humano. E descobriu que, embora todas as formas coexistam em relativa paz nas areias e no calçadão, um novo modelo de corpo está emergindo. As mudanças que Roberto – e, em menor grau até aqui, Beatriz – adotou em seu estilo de vida são fortes indicativos dessa evolução. O físico agora é mais atlético e menos estético; mais longilíneo, porém longe da magreza anoréxica de certas modelos; com músculos esculpidos delicadamente, sem sobrecarga de exercícios. Até os ícones de saúde mudaram. Em vez da malhada Joana Prado, a enxuta Cynthia Howlett.

 

 

Exagero contra o excesso
"No meio de tantos que já conhecemos, esse é mais um tipo de beleza que começa a ser copiado e tem tudo para virar referência de uma geração. Exatamente como a rechonchuda Monalisa de Leonardo da Vinci, que foi padrão de uma época", afirma Claudio Gil Soares de Araújo, diretor da Clínica de Medicina do Exercício, do Rio de Janeiro. Esse novo modelo, claro, não surge do nada: é um sintoma dos tempos em que vivemos. Tem tudo a ver, por exemplo, com a popularização de atividades como a ioga e o pilates – que, além de fortalecer os músculos, aumentam a flexibilidade, a concentração e o controle da respiração. Ou seja, privilegiam mais o bem-estar que a forma. Além dos exercícios, a alimentação é ponto fundamental nessa transformação. A mudança no corpo também é buscada por meio de uma nova dieta, sem suplementação alimentar e com a preferência por comida orgânica.

Muitas vezes, a busca pela boa forma leva a atitudes estóicas. Robenildo Alves, conhecido como o "Pelé da praia", passa o dia todo em sua barraca na areia e não bebe nem um gole de cerveja. "Não dou mole por causa da obesidade", diz Pelé, sarado no ponto aos 41 anos. Velhos sinais de saúde – como corpos extremamente bronzeados – hoje são vistos por muitos como uma espécie de ostentação cafona, numa época em que a preocupação com a saúde estende-se à exposição excessiva aos raios solares.

Há quem enxergue um certo exagero no combate aos antigos excessos. No livro Os segredos da alimentação saudável – Tudo o que você sabe sobre comida está errado, recém-lançado no Brasil,

 

 

O triste fim das Barbies
Das areias de praias badaladas de Miami e Ibiza às do Posto 8 de Ipanema, o mundo conheceu, nos anos 90, uma turma de rapazes de corpo musculoso, fã de baladas house e um tanto quanto exibicionista. Batizados de Barbies, esses meninos – que gostam, e muito, de outros meninos – foram imitados e se proliferaram rapidamente. Mas, depois de tanto barulho, não é que "a cultura Barbie" parece estar com os dias contados? "Não tem nada mais cafona hoje do que aqueles fortões usando roupas superapertadas", atesta o empresário francês Gilles Lascar, dono da boate Le Boy e considerado o rei da noite gay no Rio de Janeiro. "Nem os go-go boys que contrato têm esse estilo mais. A bola agora está com os que têm o corpo esculpido sem exageros."

Segundo o produtor cultural (e gay) Cabbet Araújo, há quem justifique o aparecimento das vaidosíssimas Barbies como uma resposta ao corpo esquálido dos gays que se contaminaram com o vírus da aids, na década de 80. Mas ele tem uma teoria mais simples: as Barbies simplesmente ficaram datadas. “Boneco inflável e afetado já era”, decreta o sociólogo americano Barry Glassner afirma que o ato de comer está virando uma religião, em que chefs são tratados como gurus, restaurantes são freqüentados como templos, e alimentos são consumidos como poções mágicas de saúde.

 

 

Já o filósofo francês Gilles Lipovetsky, autor de Felicidade paradoxal, vê nessas novas tendências não uma alternativa ao consumismo, e sim um sintoma de hiperconsumismo. O consumidor é cada vez mais individualista e ciente de suas escolhas – seja a ioga, a bomba ou a comida orgânica –, e conceitos como bem-estar e qualidade de vida se transformam em mercadorias para atingir a felicidade e são regidos pela mesma lógica da moda. Um sintoma desse hedonismo hiperconsumista é que, diante de todas as possibilidades abertas, é comum surgir uma insatisfação constante. Em meio à diversidade de formas e pensamentos, nas areias ou fora delas, os adeptos da boa forma têm ao menos uma coisa em comum: o desejo de mudar tudo ou ao menos um detalhe.

"A sociedade elege modelos quase utópicos que incentivam a obsessão pelo corpo perfeito", diz a psicóloga carioca Aline Sardinha. Já o especialista em medicina do esporte Cláudio Gil aponta outro problema relacionado à obsessão da forma: a vigorexia ou overtraining. Os viciados em exercícios físicos costumam ter momentos únicos de bem-estar graças à liberação da endorfina, mas podem ter lesões musculares e depressão por causa da falta de limites e orientação correta. Mas nada impede que surjam exceções em qualquer grupo.

Ex-pintor de paredes (magro), o hoje fisiculturista (gigante) Eduardo Zoeg, o Tatuí, 46 anos, passa os dias na academia em treinos ou como personal trainer e não pretende pegar leve na malhação nem parar de competir. "O corpo que quero é este. Sou feliz assim."

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