por Décio Galina

Há mais de um ano ninguém pisava no cume dos 8.848 metros do Monte Everest

Há mais de um ano sem receber a visita de um ser humano em seu cume (avalanche em 2014 na Face Sul e terremoto em 2015), o Monte Everest acaba de assistir ao recorde de brasileiros no topo do mundo, na mesma temporada: quatro. Com eles, agora são 16 os heróis nacionais que encararam o imponderável e enfiaram na cabeça que, sim, um dia chegariam a 8.848 metros de altura – mesmo que o preço para isso muitas vezes seja a própria vida. Essa temporada já são quatro mortes e dois desaparecidos (nenhum brasileiro) para 576 alpinistas que fizeram o cume.

Carlos Santalena, de Campinas (SP), e Thaís Pegoraro, de Bauru (SP), alcançaram o topo pela Face Sul (Nepal) no dia 19 de maio (foi o segundo êxito de Santalena no local; o primeiro aconteceu em 2011). No dia 21, foi a vez de Rosier Alexandre, de Monsenhor Tabosa (CE), pela Face Norte (Tibet); e Cristiano Müller, de Pelotas (RS), pela Face Sul, entrarem para a história da montanha mais desejada do planeta. Todos já desceram são e salvos aos acampamentos base do Everest e devem retornar ao Brasil nos próximos dias (muitas vezes as tragédias fatais acontecem na descida, como na fatídica temporada de 1996, quando oito alpinistas, inclusive os guias Rob Hall e Scott Fischer, morreram na saga narrada por Jon Krakauer em No ar rarefeito).

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A conquista de Rosier não se resume ao “simples” fato de finalmente chegar ao cume da Terra: a escalada de sucesso no Everest (pico que ele tentava pela terceira vez) completou um desafio maior: ele se transformou no sexto brasileiro a alcançar o cume dos sete continentes. Tal façanha também está na mira de Thaís Pegoraro. Com o Everest devidamente carimbado, agora só falta um cume, o Monte Carstensz (4.884 metros), em Papua, na Indonésia (Oceania). Ela planeja completar essa coleção de montanhas agora em julho. Caso alcance mais esse êxito, Thaís vai se destacar entre os outros seis brasileiros que têm os sete cumes. Ela completará o circuito de gigantes em tempo recorde: um ano. Rosier, por exemplo, levou mais de 10 anos.

Já o gaúcho Cristiano Müller começou sua carreira de montanhista em 2012 quando entrou em uma expedição ao Monte Elbrus (5.642 metros, cume da Europa, na Rússia) liderada pelo experiente Manoel Morgado (brasileiro mais velho a atingir o topo do Everest – em 2010, aos 53 anos – e um dos seis a fazer os sete cumes). “Enfrentamos um dos piores ventos da minha vida no Elbrus”, recorda Morgado. “Foi ali que percebi que o Cristiano tinha potencial para um dia fazer o Everest. Não só pela parte física, mas pelo controle mental de manter a calma em condições muito adversas. Foi ele, inclusive, quem achou o caminho de volta quando decidimos retornar.” Motivado por Morgado, Cristiano passou a se preparar para o tête-à-tête com o Everest. “Pensei: essa montanha é sonho de muita gente. Por que não tentar então?”. Para tanto, conseguiu um ano sabático na empresa onde é gerente de projetos de energia e reuniu os US$ 60 mil de patrocínio para entrar na expedição da norte-americana IMG (International Mountain Guides).

Encontrei com Cristiano na recepção do hotel Radisson, em Kathmandu, quando ele acabara de chegar ao Nepal no fim de março – eu estava lá para fazer o trekking de 16 dias até o acampamento base do Everest, talvez a caminhada mais linda disponível nesse planeta, guiado por Manoel Morgado (foi a 60a expedição de Morgado até o acampamento base). Questionado sobre o que dá mais medo em uma expedição como essa, Cristiano parou para pensar e ficou em silêncio por um tempo. “A questão não é o medo em si, mas a possibilidade de as coisas realmente não darem certo: trata-se de uma experiência onde o ser humano não tem controle de tudo – independente de estar bem preparado ou não. Encaro o medo como algo positivo – ele me deixa vivo e mais atento, sem permitir que eu trave nos momentos mais agudos.”

Confesso que fiquei emocionado de papear com alguém prestes a colocar a vida em risco para chegar ao topo de uma montanha. Reparei também que, enquanto falava com Cristiano, seu olhar às vezes se perdia – talvez seguisse focado no cume mesmo durante uma conversa rápida no lobby do hotel. Algo como se já estivesse desligado do universo das pessoas, digamos, normais para se conectar a uma atmosfera quase mágica que contamina aqueles que decidem um dia pisar sobre o Everest.

Créditos

Imagem principal: Décio Galina

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