por Flávia Durante

Resgatando a música colombiana, DJ e produtor britânico Will Holland toca no Rio e em SP

De tempos em tempos, algum lugar “exótico” vira o foco de pesquisadores musicais do hemisfério Norte e sua música acaba conquistando todo o mundo. Foi assim com o tango argentino, o funk carioca e o kuduro angolano, por exemplo. O sucesso crescente de bandas como Bomba Estéreo e a sua irresistível cumbia digital faz agora os ouvidos se voltarem para a nossa vizinha Colômbia. Um dos primeiros a captar essa nova onda tropical foi o produtor, multiinstrumentista e DJ britânico Will Holland, conhecido como Quantic.

Um dos nomes mais talentosos de sua geração, Quantic já foi chamado de “Quincy Jones do século 21”. Exagero ou não, esse inglês de 32 anos trabalha duro pra honrar tal apelido. Grava e produz também sob as alcunhas de The Quantic Soul Orchestra, Quantic and His Combo Bárbaro, The Limp Twins e Flowering Inferno e passeia com maestria do soul ao dub, da salsa à cumbia de raiz, passando pelo hip hop e pelo afrobeat.

Em 2007 Holland mudou para Cali, a terceira maior cidade colombiana, criou um estúdio totalmente analógico e mergulhou com intensidade na pesquisa na sonoridade latina jogando luz sobre músicos locais de gerações passadas. Com a cantora Alice Russell, sua conterrânea, lançou no início ano o elogiado álbum “Look around the corner”, com o qual deu uma roupagem tropical à soul music. Também em 2012 lançou o projeto Ondatropica no qual, ao lado do parceiro Mario Galeano, reuniu artistas veteranos e da nova geração do país caribenho. O grupo recebeu ótimas críticas do Guardian e do New York Times e foi ovacionado em um show em julho em Nova York.

Quantic se apresenta pela primeira vez no Brasil neste final de semana, sexta em São Paulo e sábado no Rio, na festa do blog Só Pedrada Musical. Ainda na Colômbia, o produtor falou com a Trip de música colombiana e brasileira e sobre como consegue conciliar projetos tão diversos e brilhantes:

Trip - Como surgiu o encantamento pela Colômbia e por sua música?
Quantic-
Diria que veio de morar aqui. Nunca havia lido muito sobre a Colômbia antes de vir morar aqui. Assim que tomei conhecimento do país todas as músicas começaram a inundar a minha vida. Demorou uns bons anos até eu conseguir processar tudo. Se tivesse aprendido tudo de uma vez, acho que não teria ficado na Colômbia esse tempo todos [risos]. Estou aqui há  seis anos e acho que o melhor da música colombiana é que ela é muito variada. Fora daqui você só consegue ouvir uma certa quantidade de salsa colombiana, Kaniche, Guayacán Orquestra, talvez alguma coisa de cumbia colombiana e algumas músicas clássicas como “La Pollera Colora” ou “La Perra Congona”. De fora, você não consegue achar coisas que vão além disso, então viver aqui tem sido uma grande experiência, onde você consegue conhecer esse tipo raro de música, que não toca comercialmente e que é mais folclórica. Assim como no Brasil, cada região tem uma vasta quantidade de folclore diferente. Então é ótimo estar aqui e poder curtir isso. Estive em Bogotá nos últimos seis meses e há uma cena muito forte aqui, que é bem diferente de Cali, onde eu vivia antes e que tem um cenário mais voltado para a salsa.

Como foi sua adaptação à vida em um país latino?
Minha adaptação foi como a de qualquer outra pessoa em um país estrangeiro. Às vezes você sente falta do seu país e você tem que enfrentar uma série de desafios. A língua foi uma parte difícil pra mim, não tenho facilidade nenhuma em aprender idiomas. Mas minha estada aqui foi muito melhorada pelo fato de que os colombianos são demais, ótimas pessoas e normalmente muito amistosas. Fui realmente invadido pela cultura colombiana, então creio que não tenha sido muito difícil de me adaptar. Musicalmente eu sempre me liguei no som caribenho e a música daqui é bastante centrada no som do Caribe. Tem aquela pegada polar da Jamaica, Guadalupe e Haiti, das quais você consegue sentir a influência por aqui, assim como em Cuba e Porto Rico. É sensacional e eu adoro!

Aqui no Brasil costumamos dizer que é preciso um "gringo" pra fazer os jovens valorizarem nossa própria música. Foi assim com David Byrne e Tom Zé, Diplo e o funk carioca, etc... Na Colômbia também acontece isso ou os colombianos são orgulhosos de sua música?
Nunca tentei ser o gringo que chega para converter os locais à sua própria música. Meu negócio sempre foi fazer música com a minha cara. Nunca quis chegar e só tocar salsa ou só tocar cumbia. O que eu quero é colocar minha cara no som e mostrar uma ideia diferente baseada naquilo. Eu diria que a música colombiana não é negligenciada por aqui e há muitos estilos que são celebrados no país. Penso que parte do “problema”, que também deve ocorrer no Brasil, é que há música demais. Em todo lugar que você olha há talento: as pessoas cantam muito e são capazes de contar grandes histórias com sua música. É muita coisa para processar. Talvez os canais de mídia daqui também estejam ficando muito comerciais. Houve uma imensa janela de possibilidades nos anos 60 e 70, quando muita música nova apareceu. Tinha gente muito criativa como a Tropicália e a bossa nova. Aqui havia a tropica, a salsa e muito folk colombiano cruzando para o mainstream, coisa que jamais aconteceria nos dias de hoje. Tudo mudou por aqui e tudo que toca no rádio é bem mais comercial do que antes.

Pensa em realizar mais trabalhos no Brasil, além do que já fez com Arthur Verocai?
Adoraria trabalhar mais no Brasil. Tenho sido engolido pela Colômbia mas penso em vir mais para o Brasil e colaborar com outros artistas daí. Trabalhar com Arthur foi incrível - sou um fã de sua música e arranjos. Meu bom amigo B+, um fotógrafo irlandês residente na Califórnia, me apresentou a Arthur e depois fizemos alguns arranjos para o meu disco Tradition in Transition, que foi bem sucedido. Mas eu gostaria de trabalhar com mais cantores brasileiros e explorar a sonoridade do Nordeste do seu país. Também sou fã de xaxado, forró e todas essas coisas. Seria ótimo!

 

"Nunca tentei ser o gringo que chega para converter os locais à sua própria música. O que eu quero é colocar minha cara no som e mostrar uma ideia diferente baseada naquilo"



Como você consegue conciliar tantos projetos?
Às vezes sou muito hiperativo no que diz respeito à música. Fico entediado com as coisas muito rápido e sempre quero mudar de direção. Projetos diferentes me trazem expressões diferentes. Especialmente agora que estou trabalhando com o Ondatropica e com tantas pessoas envolvidas - são 40 pessoas gravando, mais os doze integrantes da banda. Então às vezes é difícil conciliar tudo isso ao mesmo tempo, mas vale a pena. O que me interessa é fazer música de boa qualidade e manter o nível alto, o que não é nada fácil. É preciso continuar trabalhando e é isso que venho fazendo, então tá tudo certo.

O disco Ondatropica recebeu ótimas críticas e chegou a ser chamado de "O Buena Vista Social Club da Colômbia". O que você acha dessa comparação? E como foi reunir esses músicos brilhantes pra esse trabalho?
Sim, o Ondatropica tem sido muito bem sucedido e temos sido muito felizes com a resposta. Às vezes não ajuda ser comparado ao Buena Vista Social Club. Não que seja uma coisa ruim, mas não tivemos o sucesso desse trabalho e estamos em um clima muito diferente nos dias de hoje -  a indústria fonográfica está em um lugar muito diferente hoje em dia. De certa forma, não é uma comparação boa porque estávamos querendo nos concentrar num formato mais moderno. Não queremos rotular a geração mais velha como este tipo clássico de "músico descontraído de hotel". Eles são pessoas que seguem tocando música incrível e que não são apenas fotografias estilosas de velhos músicos. Eles ainda são ótimos instrumentistas e sei que essa comparação com o Buena Vista é inevitável. Foi um projeto muito difícil de construir mas felizmente tivemos financiamento do Conselho Britânico, que pagou as gravações e permitiu que reuníssemos todas essas pessoas diferentes de lugares diferentes, então o investimento compensou. Só espero que seja possível realizar um outro projeto como esse. Foi um momento raro para mim e para Mario Galeano, que é o outro diretor do grupo. Tivemos a chance de passar três semanas juntos sem ser perturbados, nos concentrando na música e sem termos que nos preocupar com nada. Isso foi incrível! Então adoraria repetir a dose, talvez até no Brasil, quem sabe?

Fale um pouco sobre a cantora Alice Russell. Essa parceria de vocês é praticamente um encontro de almas, não? Não há planos de turnê mundial de Look Around the Corner ou um DVD ao vivo?
Nós somos amigos e já trabalhamos muito juntos - começamos juntos nossas carreiras musicais. Ela é incrível, adoro trabalhar com ela. Infelizmente agora vivemos em países diferentes e está difícil mantermos o contato. Eu realmente entendo sua voz e ela entende o som que eu quero para ela - ela é ótima. Fizemos uma turnê e agora ela está trabalhando em seu novo álbum solo, então não vamos fazer uma outra turnê por um tempo. Há uma possibilidade de uma nova tour no ano que vem e também acho que vamos gravar algo juntos novamente. Na verdade, eu gostaria de tentar gravar um novo disco com ela no Brasil - nós vamos ver isso, mas eu acho que seria uma boa ideia.

Quais os seus próximos projetos, pode adiantar alguma coisa pra gente com exclusividade?
O próximo projeto é o quarto álbum de estúdio do Quantic. Está ficando muito legal. Espero que até o final do ano eu o esteja mixando pra que ele seja lançado no próximo verão [do hemisfério norte]. Também estou trabalhando em um álbum com Nidia Góngora, cantora afro-colombiana da cidade de Timbiqui que faz parte do Combo Barbaro. Também estou ansioso por esse disco, ele está ficando muito bom e tem vários sons de marimba [instrumento semelhante ao xilofone] e sons do Pacífico. Espero que ele saia logo também.

Quais novos artistas da Colômbia você acha que devemos prestar atenção?
Vocês com certeza deveriam ouvir Systema Solar, Frente Cumbiero, Cero Treinta Y Nueve, Grupo Canalón, Mucho Indio e também Herencia de Timbiqui.  

Como vão ser os seus sets no Rio e em São Paulo?
Nunca toquei no Brasil antes. Já estive duas vezes aí a trabalho então agora estou louco pra chegar aí e tocar. Vamos ver quanto ao público, mas eu espero fazer um set versátil, acho que as pessoas estão intrigadas pra ouvir novo material do Quantic. Espero também que as pessoas gostem de ouvir algum som colombiano, vamos ver como vai rolar. Estou definitivamente com a cabeça aberta pra tocar para o público brasileiro, espero que sejam muito enérgicos e fãs de música, estou bem animado! 

Veja alguns vídeos de Quantic em momentos diferentes:

Quantic e Alice Russell

Com o Ondatropica

Com o Combo Barbaro

 

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