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Quando o correto vira exemplo

Ética, honestidade, independência, transparência. Quanto custa bancar esses valores?

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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ilustração Beto Shibata

Li em algum lugar que falar o que se pensa é um luxo, um luxo que, às vezes, custa caro. Mas, felizmente, para algumas pessoas neste país isso não importa. O que importa para elas é agir e falar de acordo com o que sua consciência lhes aconselha. Nas últimas semanas, acompanhando os noticiários, me chamaram a atenção três exemplos de atitudes tomadas por pessoas com trajetórias distintas. São trajetórias de vida diferentes mas que se tangenciam no momento em que estas três pessoas decidem fazer o que acham que deve ser feito [independentemente do que os outros falem ou possam pensar, e com risco do próprio prejuízo]. Acostumado a presenciar reações pusilânimes quase que diariamente, estas três atitudes me fazem acreditar que, de vez em quando, é possível se deparar com gente coerente e corajosa.

A força da ética
O senador Eduardo Suplicy, por exemplo. Quando estourou o escândalo dos Correios, com direito a vídeo, propina e tudo o mais, o governo achou que uma Comissão Parlamentar de Inquérito não seria conveniente e alguém, lá em Brasília, decidiu apostar todas a fichas na obstrução da comissão. O porquê só eles poderiam imaginar. O partido do governo decidiu dar total apoio a essa determinação quase suicida. Política é assim mesmo. Na última hora o senador Suplicy resolveu que não. Que não iria apoiar a obstrução de uma CPI coisa nenhuma. Que achava que o melhor a ser feito naquele momento era averiguar as denúncias [o que para mim faz sentido] e que, mesmo arriscando a sua candidatura nas próximas eleições [por ir contra as diretrizes do partido ele corria o perigo de ser rifado], ele votaria de acordo com as suas convicções. Subiu ao plenário e em um discurso carregado de emoção, como sempre, comunicou sua decisão. O senador Eduardo Suplicy tem sido eleito durante toda a sua trajetória política por um volume constante de votos de eleitores que estão acostumados com suas atitudes aparentemente polêmicas mas sempre coe-rentes e corajosas.

A professora Anita Leocádia Prestes. Ela é filha do lendário líder comunista Luiz Carlos Prestes. A Comissão de Anistia a fez depositária de uma indenização de R$ 100 mil. Apesar de ter tido de fugir do Brasil, durante os anos da ditadura [esse é o motivo da indenização], a professora Anita Leocádia acha que como ela não foi nem presa, nem torturada, não tem por que receber esse dinheiro. Fez um cheque, no mesmíssimo valor da indenização, e o entregou para a Fundação Ary Frauzino para a Pesquisa e Controle do Câncer, do Rio de Janeiro.

O escritor e autor de telenovelas Aguinaldo Silva. Ele colocou, admiravelmente, os pingos sobre os is nas últimas entrevistas que deu para o jornal O Estado de S. Paulo, para o site nominimo.com.br e para a revista Cult [edição #91]. Mesmo com o sucesso espetacular de Senhora do Destino, a sua última telenovela, Aguinaldo sempre fala o que pensa e com uma coerência demolidora e inigualável. Seja sobre a Globo [ele trabalha para a Globo], homossexuais [ele é assumido], a juventude brasileira, sexualidade, o que seja. Aguinaldo, como se dizia no meu tempo, não tem ?pelos en la lingua?.

Para eles, se eu fosse ao programa do Raul Gil, tiraria o chapéu. Soltaria rojões se eu fosse fogueteiro. Como isso não vai acontecer mando, desde aqui, o meu abraço caloroso e verdadeiro. Que a força esteja com vocês.

*J. R. Duran, 52, fotógrafo e escritor, acredita no luxo de ser ético e honesto nestes tempos de cólera.
Seu e-mail é: studio@jrduran.com.br

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