Punk groselha
O vocalista do Millencolin fala sobre os shows no Brasil em março, conta qual é o futuro do punk rock e passa por uma sabatina
Por Redação
em 24 de fevereiro de 2006
Por Edmundo Clairefont
No próximo dia 9 de março, os paulistas terão a chance de suar em coro e conferir a apresentação única dos suecos do Millencolin na cidade. Show com a abertura dos capixabas do Dead Fish, no Credicard Hall, às 21h30. Porque as aulas voltaram, o punk rock de hoje veste pijama e não vai dormir muito depois da meia-noite.
A banda, formada em 1992 por Nikola Sarcevic (vocal e baixo), Mathias Färm (guitarra), Erik Ohlsson (guitarra) e Fredrik Larzon (bateria), traz nas malas o disco mais recente, Kingwood (2005). Em seguida, voam para o Rio de Janeiro, Vitória e Curitiba.
Expoentes de um tipo de som acelerado, melódico (numa acepção contestável) e sem grandes exigências técnicas, conhecido por hardcore, o Millencolin integra um balaio de bandas que hoje doma as rádios rock e o shuffle dos iPods dos adolescentes (vide Green Day, Good Charlotte, Blink-182, Offspring, My Chemical Romance…).
Sem a mesma projeção na Billboard (revista especializada na indústria musical) que seus colegas norte-americanos, o grupo sueco engrossa o movimento que requentou o caixão do punk e o tornou, numa embalagem palatável, a menina dos olhos da juventude mundo afora. Como a vocação do Brasil de ser exceção cultural é um pastel de vento, não somos exceção.
A Trip conversou com o vocalista Nikola, de 32 anos. Na entrevista a seguir, ele conta o que acha do Brasil; fala como foi a primeira turnê no país, em 1998; aposta no craque da Copa do Mundo – não é um brasileiro; e leva ao limite a discussão: o punk tornou-se apenas uma máquina de fazer dinheiro?
Em 1998 o Millencolin veio pela primeira vez ao Brasil. O que lembram da época? Os shows foram ótimos, uma beleza. A moçada foi… hã… doida e cheia de energia [durante a apresentação em São Paulo, alguns fãs invadiram o palco. O saldo da traquinagem foi a queda de um amplificador sobre a guitarra estepe da banda]. Ir ao Brasil foi uma grande coisa pra gente: ótimos shows, bons momentos. E ainda tivemos dois dias de folga no Rio de Janeiro…
Tem a história de que vocês foram ver um jogo no Maracanã. Verdade! Fomos ver um jogo do Flamengo contra um time de que não me recordo o nome. Mas o Romário jogou, e foi ótimo vê-lo. Para mim, pelo menos, foi muito importante, mesmo! Sou um grande fã de futebol, e ver um jogo no Maracanã, o maior estádio do mundo, foi bem legal. Vimos partidas também em Belo Horizonte e em Londrina – ou foi em Porto Alegre? Não lembro. Foram três jogos. Vocês têm times muito bons [risos]…
Vocês são da Suécia, que nos últimos anos trouxe bandas como Hives, Hellacopters, Backyard Babies. Qual o contato de vocês com essas bandas? Bem, o Hives é de uma cidade muito próxima da nossa [Hives é de Fagersta, Millencolin é de Örebro], e foi do cast da nossa gravadora, a Burning Heart. Eles costumavam a ir aos nossos shows, quando começamos a tocar aqui na Suécia, e, é claro, nós nos conhecemos. Eu tenho um novo projeto, aliás, com o baterista do Hives, o Chris Dangerous, e com um cara do No Fun At All. Enfim, somos fãs dos Hives, assim como dos Hellacopters, dos Backyard Babies. A Suécia é um país muito pequeno, as pessoas, as bandas geralmente acabam se conhecendo. E rola um clima bom, tipos diferentes de música coexistindo.
O nome da banda é uma corruptela do nome de uma manobra de skate, o melancholy. O que vocês escutavam do skate rock clássico dos anos 80? Ah, temos uma ligação ainda maior que essa com o esporte… Nós, Erik, Mathias e eu, começamos andando de skate antes mesmo de montarmos a banda. E foi andando de skate que encontramos as pessoas da nossa cidade, aquelas que gostavam de música. Foi aí que começamos a tocar. A razão de termos uma banda é porque a molecada do skate costuma ter bandas. Foi por culpa do skate que tivemos contato com os vídeos norte-americanos, as trilhas desses filmes, os skatistas profissionais. E aí passamos a entrar em contato com bandas como Descendents, Bad Religion, NOFX, Operation Ivy… O bacana é que tocamos com todas essas bandas, anos depois, à exceção do Operation Ivy, que acabou antes da gente começar.
Como é tocar com as bandas que inventaram o estilo que vocês fazem? Foi uma grande coisa tocar a primeira vez com o Descendents e com o NOFX. Quando nos encontramos com o Fat Mike, baixista e vocalista do NOFX, foi incrível. E me lembro bem do dia em que conheci o Mr. Brett, do Bad Religion. Foi, é claro, outro grande momento.
Vocês têm toda essa ligação com o skate. Conseguem acompanhar os skatistas brasileiros? Temos uma geração que faz um barulho danado no exterior – Bob Burnquist, Sandro Dias… Não, não acompanho. Os nomes até me soam familiares, mas eu não sigo nenhum esporte, exceto o futebol [risos].
Vai assistir à Copa do Mundo? A Alemanha é bem perto da Suécia… Vai ser interessante acompanhar a Copa. Acho que vocês têm grandes chances de ganhar. Mas não sei se vou conseguir ir. Está quase impossível arrumar ingressos… Todo mundo quer um.
Qual é o seu jogador predileto? O sueco Ibrahimovic, da Juventus. Estava vendo um jogo dia desses e ele marcou um gol contra a Inter de Milão, do Adriano [risos]…
Vocês já rodaram o mundo inteiro. Qual o melhor show que já viu? Uau! Hum… Talvez a primeira vez em que eu vi o Bad Religion… Foi num grande festival, o Roskilde, na Dinamarca. Acho que em 1993. Fiquei bem na fila do gargarejo, na grade, e foi uma maravilha.
O som de vocês tem uma dose menor de ska no último disco, Kingwood. As músicas estão bem mais rock. Por que a mudança? Não sei te dizer. Escutamos diferentes tipos de música, nossas vidas estão diferentes. Não sei. É natural, sabe? Encaro isso como uma progressão da nossa música. Eu tento fazer uma coisa nova, que seja interessante para nós. É natural tentar essa evolução. E tem essa coisa do ska… Quando começamos, acho que só tocamos ska porque o NOFX e o Operation Ivy o fizeram [risos]. Não sei. Acho que mudamos o todo tempo, assim como mudamos em nossas vidas.
Quais são as tuas bandas preferidas? Hum… Tem um monte…
Uma por década, então… Certo. Dos anos 50, Hank Williams é o meu favorito. Nos anos 60, os Beatles; nos anos 70, Bob Dylan, embora também goste do que ele fez na década anterior; nos anos 80, The Smiths; nos anos 90, o Bad Religion.
E nos anos 2000? Hum… Ryan Adams.
O Green Day voltou a ter força e o emocore, estilo caracterizado pelo chororô das letras, é a nova onda da música consumida pelos adolescentes. O que acha dessa coisa de chamarem o mais recente disco do Geen Day, American Idiot, de “ópera punk”? O Green Day é uma banda excelente que teve grande influência no som do Millencolin. Não sei se o emocore pode ser chamado assim, se é um gênero, mas há bandas que geralmente são associadas a esse rótulo de que todos os membros do Millencolin gostam.
Por exemplo? Jimmy Eat World. É uma influência.
Mas o que você achou do American Idiot? Gostou? Achei bom. Mas não o escutei tanto assim. As músicas são bem-feitas e acho muito positivo que eles tenham feito um álbum que não soa como os outros discos do Green Day. Foi interessante terem assumido esse compromisso, esse grande desafio.
Dá para notar que houve pouca evolução no som das bandas que surgiram nessa época. É tudo mais ou menos nos moldes do que o Bad Religion, o Pennywise e o Operation Ivy fizeram. Você mesmo lançou um disco solo que é só gaita, voz e violão, o Lock Sport Krock, previsto para sair no Brasil em março. Não acha que a fórmula do punk esgotou? Talvez [risos]. Não foi por essa razão que eu fiz o meu disco solo. Houve outros motivos, mas é possível que o punk rock esteja… [hesita] huuum, não sei. Você vê uma banda como o Green Day, e hoje ela está maior do que nunca… Então… Eu não sei se…
Mas você consegue ver um futuro musical no punk rock, ou a fórmula já deu? Eu nunca pensei muito a respeito disso. Tudo o que sei é que o Millencolin fará novos discos enquanto sentirmos que eles são interessantes, enquanto sentirmos que podemos compor e enquanto pudermos lidar com essa fórmula e levá-la um pouco além, para fazer algo novo.
Aqui no Brasil, pelo menos, o público de vocês, e da maior parte dessa nova turma que toca punk rock, é basicamente de adolescentes. As pessoas crescem e mudam para, sei lá, rap, jazz… E bossa nova.
… e bossa nova. Isso não é um sintoma de que esse punk rock estagnou? Como é essa coisa de o público não envelhecer com a banda? Eu não penso nesses termos. Essa coisa de que certo tipo de música é feito para um certo tipo de gente. Não acho que seja assim, sabe? Meu pai, por exemplo, é um grande fã do Millencolin. E ele tem mais de 60 anos. Mas talvez ele goste porque estou na banda, e não por causa da música.
=================================================================
SABATINA PUNK
Confira abaixo o que o vocalista e baixista do Millencolin tem a dizer sobre alguns dos principais nomes do punk rock e sobre… o ABBA
Ramones: Grande banda. Escutei muito o som deles enquanto estava no ginásio e começava a andar de skate. É uma pena que a maioria dos caras já esteja morta. Foram grandes compositores.
Bad Religion: A banda mais importante para o Millencolin.
Descendents: Também muito importantes. Quando penso nos Descendents me vem à cabeça o tempo em que andava de skate e assistia aos vídeos de skate com todas essas bandas…
Bad Brains: Nunca tive muita familiaridade ou interesse por eles. Escutei muito pouco.
Black Flag: A mesma coisa do Bad Brains.
NOFX: Além do Bad Religion, o NOFX foi uma grande influência para o Millencolin.
Operation Ivy: Eles tinham um dos melhores compositores, o Tim Armstrong, que depois formou o grupo Rancid.
Good Charlotte: Acho que hoje eles estão mais na minha TV [risos] do que no meu aparelho de som.
Hellacopters: Uma das melhores bandas suecas. Os últimos três álbuns deles são excelentes.
Offspring: O vocalista, Dexter Holland, nos deu carona, uma vez, em seu jato particular. Voamos em seu avião, então ele é um cara legal.
ABBA: Grande banda. Tenho todos os discos. Os compositores são geniais.
=================================================================
Vai lá
O quê: Millencolin e Dead Fish
Quando: quinta, 9, a partir das 21h30
Onde: Credicard Hall (av. Nações Unidas, 17955, tel.: 11 6846-6000, São Paulo)
Quanto: de R$ 60 a R$ 160
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip
Bruce Springsteen “mata o pai” e vai ao cinema
-
Trip
O que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer?
-
Trip
Entrevista com Rodrigo Pimentel nas Páginas Negras
-
Trip
5 artistas que o brasileiro ama odiar
-
Trip
Um dedo de discórdia
-
Trip
A ressurreição de Grilo
-
Trip
A primeira entrevista do traficante Marcinho VP em Bangu