por André Maleronka
Trip #187

O músico paulistano Dada Yute é o primeiro brasileiro ordenado profeta Bobo Shanti

O músico paulistano Dada Yute, alcunha de Cauê Granello, 23 anos e quatro filhos, conheceu o rastafarianismo através das mensagens de Bob Marley sobre Haile Selassie, ex-imperador da Etiópia. Agora, acaba de tornar-se o primeiro brasileiro ordenado profeta Bobo Shanti, a mais ortodoxa vertente do rastafarianismo jamaicano. “Lá, a repressão é pior que aqui, mas o rastaman é respeitado até pelo policial, ainda mais se for Bobo Shanti. A maconha, fumada três vezes por dia, é o incenso do templo”, conta.

“Bem-vindos ao Monte Sião.” Essa foi a saudação que o cantor Dada Yute, o produtor musical e DJ Gusta e o fotógrafo Fábio Bitão receberam. Eles não estavam em Jerusalém, muito menos na cidade mineira conhecida por suas malhas, mas na Jamaica. Bobo Hill fica em uma pequena cadeia de montanhas a 16 km da capital Kingston, é onde se concentra uma comunidade rastafári que vive sobre os preceitos Bobo Shanti, um dos mais ortodoxos da religião africana. Rastafári, ao menos no Brasil, virou sinônimo de dreadlocks. E de maconheiros. Mas a religião, ainda que abarque essas coisas, vai muito além do visual e do mero consumo do entorpecente. “A ordem Bobo Shanti é parte da minha vida, da minha escolha pessoal. Minhas respostas eu venho encontrando através de Jah Rastafari”, conta Dada Yute, alcunha de Cauê Granello, músico paulistano que tem 23 anos e quatro filhos.

“Lá, o rastaman é respeitado até pelo policial, ainda mais se for Bobo Shanti. E a maconha é o incenso do templo”

Nessa, que foi sua terceira viagem à ilha caribenha, Dada foi ordenado profeta na comunidade. “Participando da ordem, você é profeta por natureza, todos do Bobo Shanti são profetas, porque você proclama. As pessoas têm muitos tabus em relação aos nomes, mas é só falar a palavra de Deus. A gente tá conversando aqui e as respostas já vêm com profecias”, conta.

Seu interesse pela religião e suas idas à Jamaica vieram através da música. “Venho de uma família de músicos. Conheci [o rastafarianismo] através do reggae, das mensagens de Bob Marley sobre Haile Selassie, o pai, até chegar a Emanuel, que é o Cristo encarnado”, diz Dada. Selassie foi regente e imperador da Etiópia entre 1916 e 1974, e também foi conhecido como Ras Tafari. E Emmanuel a quem ele se refere é Emmanuel Charles Edwards VII (1915–1994), que também tinha o apelido de Dada e fundou a EABIC (Ethiopia Africa Black International Congress) e a comunidade Bobo Shanti.

“Jah se manifesta em três distintas personalidades: profeta, rei e sacerdote. Marcus Garvey [militante nacionalista jamaicano do começo do século passad], Haile Selassie e Emmanuel”, diz Dada (Yute), para então reconstituir a sua trajetória: “Comecei musicalmente na banda Leões de Israel, e abrimos muitos shows do Gregory Issacs. A primeira vez que fui pra Jamaica foi em 2006, participar do festival Rebel Salute. Em 2009 voltei porque meu trabalho é a musica e minha espiritualidade é Bobo Shanti, as duas coisas estão lá. Eu já sabia da existência do local e falei pro irmão que me recebeu na Jamaica pra me levar até lá. Fui muito bem recebido e quando resolvi voltar convidei o Gusta e o Bitão. Voltei pra gravar, lá já é minha casa. Nós três ficamos lá uma tarde. Depois fiquei mais cinco dias sozinho e fui ordenado”. Gusta, produtor do disco de estreia solo de Dada, aproveitou para masterizar o álbum no mítico estúdio Tuff Gong, um dos maiores do Caribe, onde foram masterizados vários sucessos de Bob Marley, como “Stir It Up”, “Redemption Song” e “Buffalo Soldier”.

Maconha três vezes ao dia
No portão da comunidade, há um processo para a entrada. “O cara sente seu clima, você tira tudo de dentro do bolso, coloca a camisa pra dentro, faz uma oração olhando para o Leste e aí ele te deixa entrar”. O morro é quase autossuficiente, produz vassouras que são vendidas na cidade e também alimentos, livros, sucos e artefatos africanos. A maconha – ou ganja – não é plantada lá. “Isso é uma questão individual. Na roda cada um fuma o seu. Quando você vai almoçar com seu amigo, ele come no seu prato ou você dá um prato pra ele?” Ou seja, nada de passar a bola na hora do baseado. “Lá tem repressão pior que aqui, mas o rastaman é respeitado até pelo policial, ainda mais se for Bobo Shanti. A maconha é o incenso do templo. Temos que abrir a cabeça, meditar sobre isso. Todos os cargos da sociedade usam a ganja. Todos sabem que é só uma erva”, diz Dada.

Lá o consumo é realizado em conjunto três vezes ao dia, às 6 da manhã, meio-dia e às 6 da tarde, com cânticos acompanhados de tambores, vertente musical chamada niyabinghi. “Não bebemos álcool nem consumimos tabaco, mas isso é algo que vem naturalmente, não é obrigatório. É pra se tornar mais limpo, se apartar mais das coisas mundanas. E mesmo a ganja não é o eixo central, ela é só uma erva, e a encaramos assim.”

Um Bobo Shanti não ostenta os dreads em público, e sim turbantes. “Bobo Shanti é uma disciplina dentro do rastáfari. O turbante significa a coroa de Cristo, é a proteção. E usar a camisa pra dentro da calça também é ser ordenado”, explica. Tudo funciona no convívio. Os praticantes brasileiros, por exemplo, vivem em uma casa alugada em conjunto em Jundiaí, no interior paulista. “Hoje, como fui coroado, passo esses ensinamentos e lá seguimos os princípios. O Brasil é a maior diáspora africana, então precisamos trazer nossa consciência. O espírito do profeta Marcus Garvey se manifesta em nós. Somos africanos em terras estrangeiras, aqui é como o Egito pra nós. O principio de rastafári é liberdade, redenção e repatriação internacional. Muita gente fala 'Jah rastafári', mas são palavras vazias. Fomos buscar o sentido por trás disso.”

Vai lá: http://www.myspace.com/dadayute

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