Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Caro Paulo,
Parabéns pela TRIP 100, um belo número apesar de o fato não ter a menor importância, na minha opinião. Poderia parabenizá-lo pela TRIP 98 ou 34 ou 107, e a admiração e o carinho que tenho por você e o valor que vejo na sua revista não iriam ser nem um pouco diferentes. Acredito que ‘the journey is the destination’, ou, para colocar em faixa de comemoração, ‘the trip is the destination’.
Vamos celebrar, porque comemorar é preciso, mas o bom mesmo é estar caminhando juntos, sonhando juntos e dedicar algum tempo desta vida para falar disso e dividir esses sonhos. É assim que me sinto quando sento para fazer a coluna da TRIP. Principalmente quando, na corrida contra o tempo, estou atrasado com o prazo e penso em desistir para não prejudicar o processo da revista.
Não. Não vou desistir. Ainda mais depois que li uma carta de um escritor também atrasado com a entrega de seus textos para seu editor. Ele podia ser eu, apesar de estar vivendo no início do século XVI . Faltava quase nada para terminar o livro, mas ele não conseguia chegar ao fim:
‘. porque para terminar esse nada, minhas ocupações me deixam, como tempo livre, menos que nada. Tenho de advogar, ouvir os clientes, pronunciar pareceres e julgamentos, receber alguns por conta da minha profissão e outros por conta dos cargos que tenho. Passo todo o dia na rua, ocupado com os outros. Dou aos familiares o resto do meu tempo. O que sobra para mim é pouco mais que nada. Ao retornar para casa, devo conversar com minha mulher, conversar com os filhos e me entender com os empregados. Incluo essas coisas como ocupações porque elas devem ser feitas, se não quisermos ser um estranho em nossa própria casa, e porque é preciso manter um relacionamento o mais agradável possível com os companheiros de vida que a natureza ou o acaso nos deram, ou que nós mesmos escolhemos. Tudo isso consome os dias, os meses, o ano. Quando escrever? O que sobra é para dormir e comer, que por sua vez tomam mais da metade da vida. O pouco tempo que consigo reservar para mim eu subtraio ao sono e às refeições. Como isso é pouco, avanço lentamente.’
Esse não sou eu explicando para você e para o Giuliano por que a coluna não está pronta. É Thomas Morus em 1500 justificando a Pierre Gilles, seu editor, por que ainda não tinha terminado A Utopia. E você achava que essa sensação de não dar conta de tudo que tem que ser feito, que essa corrida contra o relógio era da nossa época de tecnologia que acelerou o tempo? Eu também achava. Tive que rever meus critérios e conclusões. Como, em 1500, numa época em que horse power significava exatamente a força animal que era a ‘tecnologia’ mais avançada de transporte além do barco a vela, um homem não tinha tempo sobrando para escrever um texto?
Encontrei a resposta no próprio livro que ele não conseguia terminar e que sintetiza a homenagem que eu queria te fazer nesta edição de número tão redondo. Esse homem tinha um sonho, ele tinha uma utopia, assim como você e todos os que teimam em fazer a vida acontecer no seu melhor.
Paulo, que a TRIP cresça muito turbinada pelos sonhos, pelas loucuras e pelas utopias que a trouxeram até aqui. Nosso mundo nunca precisou tanto de utopia para animar as pessoas na construção de uma sociedade mais justa e bela. Utopia tem que deixar de ser um termo pejorativo que se refere a uma coisa absurda para significar um sonho, um desejo precioso que não se concretiza, mas nos orienta na jornada. Porque, no fim das contas, é só isso que existe – the trip is the destination. Não tem porto. Colombo, Vespucci, contemporâneos de Thomas Morus acreditavam num Mundo Novo e foi só por isso que a viagem aconteceu. Nenhum barco seria colocado no mar se não houvesse a crença e o sonho. Quando nossa vida é comandada por um sonho e não por uma agenda de tarefas, todo tempo é pouco. Trabalho e diversão não se diferem, missão e profissão se misturam e o prazer acontece. Lembro de você na porta da TRIP, vizinha da Guima na Alameda Ribeirão Preto na década de 80 do século passado. Lembro de você e do Califa, meus vizinhos de mesa no bandejão do Maksoud, subtraindo tempo das refeições para correr atrás do sonho. Estamos indo, meu querido amigo. A gente pode não chegar lá, mas a viagem está valendo a pena. Um beijo carinhoso,
Ricardo.
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