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Preconceito contra a Arte e a Inteligência

Por Luiz Alberto Mendes

em 1 de julho de 2010

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Preconceito

 

Quando me perguntavam se havia sofrido algum tipo de preconceito por haver estado preso, respondia que, por incrível parecesse, eu quase não havia sido alvo desse tipo de violência. Em of eu dizia de um preconceito que me feria demasiadamente. Eram as pessoas que se diziam minhas amigas, mas não tinham coragem de me levar na casa delas. Isso sempre foi um espinho cravado fundo. Não podia condená-los. Afinal de contas, que sabiam elas de minhas lutas pessoais?

Mas hoje fiquei sabendo de um preconceito que não posso deixar calada a voz aqui no peito, senão vai me sufocar. No meu trabalho, não. Não aceito que pessoas que sequer lêem o que escrevo, desqualifiquem meu texto. Já haviam enquadrado a literatura que produzo como “literatura marginal”. Não gostei. Marginal por que; sempre questionei e nunca me encararam para responder. Da vontade de falar: marginal é a…

Na USP, um dos mais importantes centros de estudos da América Latina, sustentado pelos impostos caríssimos que eu também pago como todo cidadão, meus livros são rotulados como “literatura de cárcere”. Isso não é uma classificação bibliotecária (e pior ainda se fosse) apenas; é uma desqualificação literária. Como se as pessoas aprisionadas fossem destituídas da capacidade humana de produzir arte, então fizessem uma literatura menor.

Isso é parte do incomensurável atraso cultural que vivemos neste país. Nos Estados Unidos, que detêm um quarto da população presa no planeta, 7% da literatura ali produzida sai de dentro das prisões. Um dos seus cronistas mais reproduzidos, Múmia Abu-Jamal, esta no Corredor da Morte. Caril Chessmann, o verdadeiro bandido da luz vermelha, nos anos 50, viveu por 6 anos na cela 4.555, a cela da morte, até ser morto pelo Estado na câmara de gás. Nesse tempo escreveu vários livros e ensaios empolgantes, traduzidos para todas as línguas conhecidas do planeta. Seus textos fizeram momento na literatura universal e são até hoje livros de consulta para todo aquele que quer saber sobre pena de morte e prisão.

Quando consegui ser o primeiro preso do Estado de São Paulo a consegui o direito de prestar exames vestibulares de classificação na PUC/SP, foi um fato surpreendente. Mas quando saiu o resultado, foi um escândalo. Eu havia sido o primeiro colocado. Não queriam acreditar. Não era possível que um presidiário pudesse disputar com a rapaziada dos colégios mais caros e famosos de Estado e estar à frente deles. Alguma coisa estava errada. Nem minha mãe acreditou.

Então me examinaram sob vários ângulos. Fui entrevistado por psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e submetido a muitos testes. Quando chegaram ao de quociente de inteligência, o famoso teste de QI, algo misterioso ocorreu e não quiseram me contar. Fizeram outro e outro ainda, e guardaram silêncio pesado a respeito.

20 anos depois, uma psicóloga da Penitenciária quis me entrevistar. Estava com meu prontuário nas mãos. Eram dois calhamaços de um palmo de altura cada. Ali constavam quase 30 anos de registros sobre minha pessoa na prisão. Quando ela desfolhava, entrevi papéis referentes ao teste de QI. Lá estava o resultado de dois dos testes. Ambos indicavam quociente de inteligência de nível acima do médio. Ela arregalou os olhos quando entendeu. Comentei satisfeito. Quem não ficaria ao ver um resultado desses? Ela respondeu peremptória, como se aquele resultado fosse uma agressão pessoal a ela:

_ Acima do nível médio dos presos.

Como se houvessem testes específicos de QI para presos (mais fácil, dada nossa estupidez) e outro para as pessoas (mais exigente e difícil) não-presas.

Reformulando o dito a princípio: não tenho sido alvo de preconceito depois que sai da prisão. Mas meus livros e produção literária sim. As coisas estão ficando mais claras agora. Posso ir até o capítulo X ou Y, mas não posso passar daí, parece.     

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Luiz Mendes

14/06/2010.

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