por Barry Miles
Trip #210

Barry Miles, biógrafo de Paul McCartney, conta como o beatle aprendeu a lidar com o estrelato

O jornalista Barry Miles, biógrafo e amigo de Paul McCartney desde os anos 1960, conta como um menino da classe operária se transforma no ser humano mais conhecido do planeta sem perder a cabeça pelo caminho

Quando a trajetória dos Beatles é analisada, o período que eles passaram em Hamburgo, antes da fama, entre agosto de 1960 e dezembro de 1962, é sempre citado como fundamental para que a banda apurasse sua técnica no palco e seu estilo musical. Mas ninguém nota que foi lá também que eles aprenderam a lidar com o estrelato. Claro que nenhum deles imaginava se tornar ícone global, mas foi com aqueles quatro meses de shows quase diários em bares barra-pesada, que John, Paul, George e Ringo ganharam maturidade como homens. Estavam longe de casa e trabalhavam feito loucos, além de precisarem estar de olhos abertos para o perigo de viver na Zona da Luz Vermelha. Hamburgo ensinou os Beatles a criar um sistema de socialização que veio a florescer mais adiante na carreira dos quatro. Como dizemos em inglês, eles sabiam “work a room” [fazer sala, ser diplomáticos] como ninguém.

Convivi com os Beatles em situações tão diferentes quanto sessões de estúdio ou recepções em hotéis, e essa habilidade foi algo que pude testemunhar diversas vezes. Eles conseguiam sorrir para alguém ao mesmo tempo em que acenavam para outro e cumprimentavam um terceiro. Tudo de uma maneira que, quando o interlocutor imaginava ter captado a atenção de John, Paul, George ou Ringo, eles já tinham passado. Não era possível que fosse algo ensinado pelo [empresário da banda] Brian Epstein. Ele pode até tê-los vestido com ternos e insistido naquelas mesuras que acabaram contribuindo para a imagem bem-comportada do grupo no início de carreira, mas a maneira de enfrentar o assédio foi algo que a escola da vida ensinou a eles. E, digamos, não é um feito trivial. Basta vermos como contemporâneos dos Beatles sofreram com a transformação em ídolos. Houve quem literalmente enlouquecesse, como foi o caso de Syd Barret [líder original do Pink Floyd], por mais que possamos dizer que drogas e uma propensão a esquizofrenia tiveram seu papel. Outros tomaram o caminho do isolamento. Bob Dylan, por exemplo, precisou se tornar algo próximo de um ermitão em meados dos anos 1960, desaparecendo por meses e meses em sua casa de campo em Woodstock. Há quem até hoje duvide do acidente de moto que ele sofreu e que o levou a esse retiro, porque era óbvio que Dylan nunca havia se sentido à vontade com o endeusamento.

É claro que, mesmo com todo esse preparo, o assédio deixaria suas cicatrizes sobre os Beatles. John Lennon e George Harrison falaram abertamente sobre como a fama teve efeitos restritivos em suas vidas particulares e como o furor dos fãs os incomodava. 

Só que o caso de Paul McCartney foi diferente. Ele vem de uma família em que pai, tios e primos gostavam de música e adoravam fazer saraus, ao passo que Lennon foi criado por uma tia rigorosa depois que sua mãe casou-se pela segunda vez. Isso criou um ressentimento muito grande em John que, por sua vez, traduziu-se em desconfiança. Ele era assim, ríspido e agressivo, com as pessoas que o cercavam. Fazia parte de um processo de aceitação que chegava a assustar. Paul me contou que, mesmo durante os piores quebra-paus na época da separação, John sempre dava um jeito de enfiar uma piada. Era seu mecanismo de defesa. Assim como Dylan, John nunca pareceu à vontade com o assédio e a adulação mais generalizada e tinha problemas para lidar com tudo isso, o que ajuda a explicar episódios como comparar a popularidade dos Beatles com a de Jesus Cristo. Ali foi um momento em que ele percebeu o quão perigoso o jogo da fama poderia ser, além de meramente claustrofóbico.

Diplomático

De um modo geral, os Beatles eram totalmente insulares na maneira como lidavam com o interesse que despertavam. Seu pessoal mais imediato era gente que conheciam desde os tempos de Liverpool e fazia parte de uma bolha, de uma pequena família. Isso os ajudou muito a manter a cabeça no lugar. John podia ser extremamente ácido, ao passo que Paul era mais diplomático, ainda que muitas vezes fosse capaz de socializar quase de forma profissional, assinando um autógrafo ao mesmo tempo em que jogava conversa fora ou mesmo caminhava pela rua. Ele aperfeiçoou um método genial de criar empatia: como tem uma boa memória, decora detalhes mínimos sobre cada pessoa que encontra, para depois poder usá-los como rápidas interações em recepções e festas. Assim, ele pode não lembrar o nome de uma pessoa, mas é capaz de mencionar, por exemplo, que a mãe do sujeito faz sanduíches deliciosos ou algo do gênero.

No auge da beatlemania, Paul insistia em andar de ônibus e de metrô. Certa vez, foi perseguido no Soho por 150 fãs americanos que o viram caminhando pelo West End

Eu o vi utilizar esse expediente tantas vezes e nunca deixei de ficar fascinado com a diferença entre ele e John. A explosão dos Beatles levantou ainda mais a guarda de Lennon. Já Paul sempre fez questão de tentar criar o máximo possível de normalidade a seu redor. Mesmo no auge da beatlemania, andava pelas ruas de Londres e muitas vezes era visto no ônibus ou no metrô – ainda que tivesse um chofer particular como todos os outros. Ele não queria correr o risco de isolar-se ou transformar-se em um aristocrata. Lembro de quando, por volta de 1966, ele entrou na Indica [uma livraria e galeria de artes que Miles montou no SoHo londrino], completamente esbaforido, porque tinha sido perseguido por 150 fãs americanos que estavam passeando pelo West End.

Nos anos 1970, colocou os filhos em escolas particulares, até que um dia percebeu o quanto estava apenas cercando suas crianças de outras crianças privilegiadas. Matriculou-os numa escola pública. Era sua forma de tentar preservá-los de toda a loucura. Numa das muitas entrevistas que fiz com ele, Paul me contou que um dia estava andando a cavalo com sua segunda filha, Stella [a atual estilista], que na época ainda era uma garotinha, e ela de repente lhe perguntou: “Pai, você é o Paul McCartney, não?’’.

As coisas mudaram muito, no entanto. Paul é hoje uma das pessoas mais conhecidas em todo o mundo por várias gerações, e já não acredito que ele consiga passar despercebido como antes. Ainda mais nessa era em que o culto à celebridade ficou mais exacerbado e que a mídia é bem mais invasiva, algo que o próprio Paul experimentou recentemente no que diz respeito a sua vida particular por conta da separação de sua segunda esposa, Heather Mills, um processo totalmente escrutinado pelos tabloides. Nos anos 1960, os jornalistas conviviam mais de perto com músicos e atores, participavam das mesmas festas e embalos, e ninguém tinha interesse em perder a bocada escarafunchando a vida dos astros. O próprio “Paul is dead” [famoso boato de que McCartney haveria morrido no auge da fama, e de que a banda haveria espalhado “pistas” disso em suas capas e músicas] foi algo grande apenas nos Estados Unidos, e nunca chegou a ser levado a sério pela banda.

“Paulditz”

Paul sabe que, por mais que tente levar uma vida normal, a normalidade não é mais algo possível. O assassinato de John Lennon, em 1980, teve um impacto profundo sobre ele, que ficou impressionado o suficiente para ter passado 13 anos sem se apresentar ao vivo. Quando estava entrevistando-o para escrever sua biografia [Many Years From Now, lançada em 1998], Paul admitiu que tinha crises de pânico e medo de ser alvejado por um atirador durante um show. Refletiu seriamente sobre os perigos que sua fama trazia junto com a adoração universal. Sua residência principal, nos arredores de Londres, ganhou tanto reforço na segurança que recebeu o apelido de “Paulditz”, numa alusão a Colditz, a prisão militar alemã da Segunda Guerra Mundial. E quem vai culpá-lo por se sentir ameaçado? Veja como Ringo recentemente teve rompantes de impaciência, dizendo que não mais assinaria autógrafos ou responderia cartas de fãs. 

É compreensível. Paul voltou à estrada depois, mas George Harrison foi atacado por um lunático em sua casa em 1999 e o episódio também deixou marcas profundas nos ex-beatle. Mas Paul nunca se ressentiu da fama que alcançou. Sua busca deliberada pelo anonimato foi muito mais uma terapia para superar o trauma da separação dos Beatles – o festival de brigas jurídicas e a dor de ver uma família se desintegrando fizeram com que ele se escondesse em sua fazenda na Escócia. Mas mesmo lá ele trabalhou em discos solo.

"Hoje em dia a imprensa é muito mais invasiva. Nos anos 1960, os jornalistas participavam das mesmas festas e ninguém tinha interesse em perder a bocada devassando a vida dos artistas"

O mesmo se pode dizer dos Wings, a banda que ele montou em 1971. Seus primeiros shows foram em DCEs de universidades britânicas, quando podiam, perfeitamente, ter escolhido tocar em palcos mais famosos. Paul estava buscando um recomeço e uma ruptura com o passado. Mas não acho que ele quisesse deixar de ser um ícone. A diferença é seu entusiasmo que sempre se renova. Eu me lembro bem da noite em que Paul me ligou do Rio de Janeiro, pouco depois de encerrar aquele famoso show de 1990 no Maracanã. Ele estava eufórico ao telefone, nem parecia um super star com a bagagem que tem.

Paul não é mais tão acessível quanto antes, até porque ele vive a maior parte do tempo nos Estados Unidos. Faz anos que não sento para tomar um chá com ele, por mais que tenhamos nos esbarrado rapidamente em alguns locais de Londres. Nunca o senti amargurado pela fama. Paul sempre se sentiu bastante confortável com seu papel fenomenal na história cultural do século XX.

Barry Miles, 69 anos, é um dos principais jornalistas e escritores ingleses surgidos no underground dos anos 1960. Foi fundador do jornal International Times e da galeria Indica, onde John Lennon conheceu Yoko Ono. Tornou-se amigo de Paul McCartney em 1965, quando presenteou o beatle com bolinhos caseiros de haxixe. Juntos, os dois escreveram em 1998 a autobiografia Many Years from Now, publicada no brasil pela editora dba. Seu último livro é In the seventies: adventures in the counterculture (serpent’s tail books, 2011).

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