por Sabrina Duran

Quantas vidas cabem numa pessoa? Não respondo pelo mundo. Quanto a mim, estou plural.

Quantas vidas cabem num dia? Nos meus dias colombianos couberam tantas que não pude escrever sobre todas. Foram registradas neste blog apenas aquelas que respondiam à questão: esta vida alheia, de alguma forma, imiscuiu-se na minha? Então, quando deixavam de ser alheias, as vidas entravam na lista das trinta histórias que fui buscar em Bogotá. Essa perspectiva auto-referente que o projeto me exigia me fez, contraditoriamente, suspender meus gostos, preconceitos e preferências para ser capaz de ouvir e registrar as vidas como os personagens, consciente ou inconscientemente, queriam que eu fizesse. Eles repetiam palavras e idéias, faziam fincapé em verdades nas quais acreditavam, gesticulavam mais em determinadas partes do relato e não raro me pediam para não dizer tal ou qual coisa. Por meio desses sinais enfáticos, fui entendendo onde eles se enxergavam como mais autênticos. E foi assim que os retratei, afinal, as vidas eram deles, não minhas. As histórias tinham que me tocar, sim, de alguma maneira, mas não necessariamente do jeito que gosto de ser tocada. Essa abertura à história que viesse, fosse o que fosse, deixava-me exposta às dores e alegrias dos outros. No fim, assimilei os sentimentos contraditórios e deixei Bogotá um pouco mais feliz e um pouco mais triste, porque assim é a natureza humana: ninguém sai tábula rasa de nenhuma experiência afetiva, boa ou má. E agora a pergunta é: quantas vidas cabem numa pessoa? Responder pelo mundo não posso. No meu caso, digo que voltei plural.

Plural

¿Cuántas vidas caben un día? En mis días colombianos cupieron tantas que no pude escribir sobre todas. Fueron registradas en este blog solo aquellas que respondían a la cuestión: ¿esta vida ajena, de alguna forma, se inmiscuyo en la mía? Entonces, cuando dejaban de ser ajenas, las vidas entraban en la lista de las treinta historias que fui a buscar a Bogotá. Esa perspectiva autorreferente que el proyecto me exigía me hizo, contradictoriamente, suspender mis gustos, prejuicios y preferencias para ser capaz de oír y registrar las vidas como los personajes, consciente o inconscientemente, querían que yo lo hiciera. Ellos repetían palabras e ideas, hacían hincapié en verdades en las cuales creían, gesticulaban más en determinadas partes del relato y no raramente me pedían para no decir tal o cual cosa. Por medio de esas señales enfáticas, fui entendiendo dónde ellos se distinguían como más auténticos. Y fue así que los retrate, al final, las vidas eran de ellos, no mías. Las historias tenían que tocarme, sí, de alguna manera, pero no necesariamente de la manera en que me gusta ser tocada. Esa apertura a la historia que viniera, fuera lo que fuera, me dejaba expuesta a los dolores y alegrías de los otros. Al final, asimilé los sentimientos contradictorios y dejé Bogotá un poco más feliz y un poco más triste, porque así es la naturaleza humana: nadie sale tabula rasa de ninguna experiencia afectiva, buena o mala. Y ahora la pregunta es: ¿cuántas vidas caben en una persona? No puedo responder por el mundo. En mi caso, digo que volví plural.

Tradução: Carlos Paz

matérias relacionadas