PERIGOS DA PRAIA
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Quando se pensa nos perigos da praia, o máximo que vem à cabeça são as micoses, os borrachudos, a desidratação e outros problemas miúdos. O que pouca gente sabe, e quase ninguém comenta, são os resquícios de violência urbana que descem a Serra. Uma pesquisa sobre a quantidade de armas de fogo que viajam para o litoral todos os fins de semana certamente produziria números assustadores.
Em outros tempos, um ou outro freqüentador das praias, especialmente aqueles que ficavam nas áreas mais afastadas, mantinham escondido no telhado ou em algum canto do armário um velho revólver ou a espingarda trazida do sítio. Hoje, é relativamente comum ver nas cinturas ou sob os bancos dos automóveis que circulam no litoral verdadeiros arsenais bélicos, dignos de um experiente mercenário a serviço do IRA.
Motivos existem. O caminho que leva às praias de São Paulo cruza áreas de periculosidade notória. Não é preciso ir muito longe. Logo na saída de São Paulo, no início da Imigrantes, nas inocentes barracas de frutas, uma das primeiras dicas que se recebe não fala da qualidade e do sabor das melâncias ‘sangue de boi’. A orientação dada pelos comerciantes vem rápida e objetiva: tranque o carro e entre logo para fazer suas compras. Mesmo assim, são relativamente comuns assaltos a mão armada ou furtos vitimando os fregueses menos atentos.
Um pouco mais adiante, perto do quilômetro 23, outra região quente. Se o seu pneu furar ali, nem pense e parar. Mais vale uma câmara de ar rasgada do que alguma parte do corpo.
Que vai para os lados de Santos e Guarujá, tem nas regiões próximas a Cubatão ou Itapema áreas no mínimo delicadas. A nova rota para quem vai para as praias da Enseada, Pernambuco, etc, passa literalmente por dentro de um morro cuja freqüencia lembra muito a da Baixada Fluminense. Há casos de todos os tipos. Pessoas que pedem socorro para, na verdade, assaltar; pedras atiradas do alto das passarelas obrigando os carros a pararem facilitando a abordagem, ou, o que é pior, provocando tragédias absurdas.
Os perigos reais são tantos que fazem os motoristas se sentirem diante de um video-game de quinta geração, e que ao invés de se desviar de cogumelos venenosos ou monstrinhos voadores, os obstáculos são pedras, tiros e outras ‘coisinhas’ bem reais.
Enquanto isso, infelizmente, a maioria dos policiais envolvidos no policiamento das estradas está preocupada demais, criando novas formas de suborno nos acostamentos, achando cabelo em casca de ovo. Na semana que passou, no Rio de Janeiro, três patrulheiros rodoviários foram denunciados por um traficante surpreendido com farta quantidade de cocaína em seu automóvel. Depois de negociarem por algum tempo, os patrulheiros permitiram que o traficante fosse buscar alguns milhares de reais para comprar a sua liberdade. Mesmo tendo de assumir o crime do tráfico, o elemento (como dizem os policiais) teve mais dignidade que os policiais e denunciou a extorsão.
Claro que há os policiais rodoviários honestos e dedicados (aliás, é incrível como 90% dos policiais rodoviários têm bigodes e usam óculos do tipo Ray Ban), mas esses lutam com os salários ridículos e a precariedade dos equipamentos, a despeito dos impostos, pedágios, multas e taxas que os motoristas são obrigados a recolher.
Mesmo considerando tudo isso, é complicado pensar que a solução para essa falta de segurança sela portar uma arma pesada. É desnecessário dizer o que pode acontecer com as pessoas menos controladas quando estão de posse de uma arma. Uma simples fechada pode se transformar e tragédia. Já vi, por exemplo, um jovem pai, preocupado com a segurança do casal de filhos pequenos, descer do carro para comprar pão e, na volta, encontrar os pequenos brincando alegremente com um 38 Taurus de cinco tiros completamente carregado.
A polêmica é complicada e dá o que pensar. Para as pessoas equilibradas, a resposta pode estar em portar a arma com consciência critério. Para outros, uma boa imagem de São Cristovão, uma folha de arruda, reza braba e coisas do gênero são mais eficazes e menos arriscadas. A verdade é que, enquanto isso, nove entre dez playboys, ‘yuppies’ e até cidadãos pacatos, estão armados até os dentes e, o que é pior, levando a tensão e a iminência do faroeste caboclo para beira-mar.
Remexendo nos meus guardados, durante os dois dias da epopéia da minha mudança, achei este texto, que escrevi em 25/02/91, muito antes de quatro garotos armados até os dentes seqüestrarem em plena Maresias, uma inocente gata, filha de bacana. Assim caminha a humanidade.
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