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Perigo em Angra

Morro e ilha: todos por flash e festa

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Distribuir dinheiro e outras formas de riqueza entre quem não tem nada é a única arma realmente eficaz que os ricos do Brasil têm, para se proteger da violência. Não há outra fórmula mágica, blindagem ou sistema de segurança que resolva. Até o intelectualmente menos dotado dos marajás já deveria ter se dado conta dessa tão óbvia tese.
Tudo indica porém que não se tocaram.
Não conhecia Angra dos Reis. Nunca havia tido oportunidade de ir a um dos mais belos recortes de natureza do planeta. Estive lá no fim de semana passado. É fácil constatar que os milionários brasileiros ainda nutrem a ilusão de que possam ser intocáveis, protegidos por redomas sobre rodas, voadoras, ou até em forma de ilhas inexpugnáveis.

VOYAGES FLUTUANTES
Mais de 300 ilhas formam Angra.Todas lindas, merecem atenção dos turistas. Boa parte delas dadas por contrato para que marajás construíssem seus refúgios atlânticos. Lá, lanchas de 300 mil dólares substituem carros blindados.
Há uma praia numa das ilhas, onde é possível contar mais de cinqüenta delas estacionadas lado a lado, como se fossem Voyages abarrotando o estacionamento de um campinho de periferia. Não há quase nenhuma diferença. Até o tipo de música alta, já é muito parecido. O funk carioca e o samba de Zeca Pagodinho, por exemplo, já disputam lugar com a música eletrônica e as versões do chamado ‘lounge music’, com seus Café Del Mar e assemelhados. Nas lanchas, como nos carros da periferia, também empilham-se popozudas e garotões sarados. Se as de Angra são um pouco mais bem cuidadas, têm cada vez menos diferenças, se comparadas às popozudas de periferia, provando que a democratização da malhação e da plástica, tende a transformar todas as mulheres fúteis, ricas ou pobres, em carcaças torneadas muito semelhantes.
Em vez de ambulantes oferecendo cachorros-quentes em Fiorinos, ou bandejas de cocadas, um barquinho munido de rádio e motor de popa, navega por entre as lanchas, servindo porções de Lulas (sem qualquer filiação partidária, é bom frisar), taças de ProSeccos e camarões. Assim, passam as tardes os marajás e seus herdeiros e acompanhantes, numa confraternização que deve ter muito em comum com as festas de que volta e meia se ouve falar, quando algum crime revela a intimidade das lideranças do submundo do tráfico nos morros cariocas. Em vez de churrascos, lagostas, em vez de cocaína, lança-perfume, em vez de calças Gang, biquínis Salinas, em vez de metralhadoras, iates…Quase tudo é muito parecido.

REGA BOFE
Fala-se por lá que um novo milionário prepara para breve uma festa, na qual estaria prestes a gastar R$ 1.200.000. É o assunto do mês. Os convites já começam a ser disputados entre os ricos desse naipe em todo o Brasil. A imprensa de ‘celebridades’ já se alvoroça… Afinal, além de ser um novo marajá, até pouco tempo atrás, o anfitrião era visto ao lado de uma loira famosa… Prato cheio e completo.
O que há de diferente entre essas elites brasileiras? O poder paralelo não é um negativo da mesma foto do poder constituído? Nossos festeiros de Angra, não seriam versões light de Elias Maluco? Ambas as castas não se alimentam umas às outras? Explorando, às suas maneiras, uma realidade desgraçada, cuja mudança não lhes interessa?
Há gente boa e ruim entre os ricos de Angra. Há gente boa e ruim entre os pobres do morro.
Que será de nós?
Oremos todos…

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