PERFEIÇÃO
'Sabe qual é a maior diferença entre o deficiente físico e nós, seres normais? É que nossa deficiência não é visível'
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Como tenho feito algumas vezes, reproduzo abaixo carta enviada por Ricardo Guimarães, cujo conteúdo me inspirou a vontade de dividir com o maior número de leitores possível. Aí vai:
Caro Paulo,
Sabe qual é a maior diferença entre o deficiente físico e nós, seres normais? É que nossa deficiência não é visível. Nossa deficiência é emocional, intelectual ou mesmo moral. Só entrando em nosso coração e na nossa mente para ver essas limitações e saber o quanto elas são obstáculos para a nossa felicidade. Não importa qual é a mais grave porque a dor de cada um é a maior dor que lhe cabe. Mas importa muito descobrir por que temos tanta dificuldade de lidar com o deficiente físico. É muito difícil, sim.
Pelo menos para mim. Tive uma experiência que me mostrou toda a dificuldade que tenho com esses seres fora do padrão, semana passada num evento onde fui fazer uma palestra. Era um evento grande, num hotel grande. Assim que entrei no saguão do hotel, fui cumprimentado por um anão.
Achei estranhíssimo porque nao conheço nenhum anão, mas respondi assim mesmo. Muito simpático, ele perguntou meu nome. Estranhando mais ainda, respondi a pergunta meio automaticamente porque queria ganhar tempo para me entender melhor naquela situação.
Entre essas frases, um mundo de hipóteses e perguntas passou pela minha cabeça: é uma brincadeira do pessoal do evento para descontrair a reunião? É um artista hóspede do hotel? Como reajo? Acho graça? Continuo olhando assim de cima para baixo ou me curvo para ficar mais simpático? O que esse cara está fazendo aqui? Não me ocorreu que ele pudesse estar trabalhando na organização do evento! Mas, então, ele me acordou com esta informação: Ricardo, sua credencial está naquela mesa.
Agradeci e saí rapidamente daquela cena que me deixou tão desconfortável. Vi a tal mesa com algumas moças normais de pé e outras sentadas, mas, quando cheguei perto da que cuidava das credenciais, percebi que era uma linda anãzinha; linda, mas bem menor do que o pequeno senhor que me recebeu na entrada. Aquilo não era brincadeira. Eles estavam trabalhando normalmente no evento. Todo mundo se relacionava com eles como se fossem normais. Minha sensação era de que só eu estranhava.
No caminho entre a mocinha da credencial e a sala das palestras, cruzei com um rapaz todo torto, arrastando uma perna e com alguma atrofia nas mãos. Achei que a caridade do Instituto Ethos, que promovia o evento, estava passando dos limites, mas, antes que comecasse a duvidar da eficiência de um evento apoiado por esses deficientes, fui interrompido por uma linda morena de cadeira de rodas que me trazia o microfone.
Não, isso não é normal! Não vai funcionar! Indignado, sentindo a minha eficiência ameaçada, concluí que o Ethos tinha passado dos limites e que isso era pura demagogia. Resolvi que ia reclamar e decidi dobrar a atenção para que nada saísse errado, pelo menos com a minha palestra.
Fui vendo que nada saía errado. Pelo contrário, essas pessoas tinham uma boa vontade e um senso de humor também anormais. Eles eram atentos, atenciosos, experientes, inteligentes – e eficientes!
Pobres normais
Comecei a me envergonhar da minha pequenez interior e a me identificar com eles, com a diferença de que eu estava me achando um lixo, um ignorante. Na mesma hora, senti meu coração alargar, crescer fisicamente.
Parecia que aumentava de tamanho, que empurrava suas paredes para fora quanto mais eu enfrentava minha dificuldade de gostar daqueles seres, de achá-los admiráveis dentro do meu padrão de belo, bom e eficiente. Tive de rever todas as minhas referências, perdi o eixo, perdi o controle e procurei um banheiro para me emocionar à vontade.
Refeito, fiz a palestra feliz com a lição que tinha aprendido. Nem estranhei quando um rapaz de um braço só veio me trazer o Pointer. Pensei: sorte a dele que estou vendo que não tem um braço e, portanto, posso me ajustar à sua realidade sem cobrar algo que não tem. E azar o meu que ele não pode ver que me falta coração para entender a condição humana.
Só agora entendi por que a Camila, uma limítrofe do Instituto Cisne, se refere a nós dizendo: vocês, seres ditos normais…
É isso, querido Paulo, fique com o abraço emocionado de um ser dito normal, seu amigo, Ricardo.
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