Outras Palavras – Vende-se esta propriedade
Estou em Itamambuca. (Aliás, acabei de chegar lá do ‘canto das ondas’ onde vi uma homenagem ao Scatena que foi descansar dessa. Bonito.) Tenho estado em Itamambuca nos últimos 25 anos. Adoro este lugar. Você conhece a história: Lili e eu, recém-casados, na década de 70, com grana curta para ter uma casa em São Paulo onde coubesse filhos e cachorros, decidimos que o sonho da nossa ‘casa própria’ seria realizado em Itamambuca.
Aqui, construímos um dos lugares mais gostosos deste planeta e criamos nossos quatro filhos, rodeados por uma galera enorme de amigos queridos, como você. É um lugar precioso para nós. Cultivo vínculos históricos e afetivos com os locais, em particular com meu afilhado Gui e sua família.
Vivo também aqui grande parte das minhas contradições como indivíduo, cidadão, profissonal e empresário. Aqui, no fim de semana, descansando, relaxado, junto com a família, de pé no chão e mão na terra, eu não queria lembrar destas contradições. Mas não tem jeito. E, enquanto as coisas não têm jeito, só posso me pôr a pensar e a trocar idéias, como estava fazendo agora com a Eliane, mãe do Gui e depois com o Dr. Miguel, colga da SAI – Sociedade Amigos da Itamambuca.
O DILEMA ALBERTINA
Vou te introduzir aos dramas da Itamambuca através da personagem Dona Albertina, avó do Gui, que chegou aqui antes de nós, em 1967, quando montou sua barraca lá no canto direito, onde o surfe é melhor. (A TRIP até já falou dela.) Pois é. Minha amiga Dona Albertina, agora com 74 anos de idade, teve sua barraca proibida, fechada e lacrada pela Justiça. E advinha quem é um dos ‘vilões’ que está por trás disso? Eu, um residente-proprietário de uma casa de frente para o mar que quer sossego e justo descanso – e não quer uma barraca vendendo cerveja, caipirinha, sanduíches e bolos de chocolate (mesmo que maravilhosos, como os de Dona Albertina), atraindo turistas animados e barulhentos, com suas vozes e violões, que pisoteiam e mijam no jundu que é praticamente o jardim da minha casa.
Como foi que a barraca da Dona Albertina, parte da identidade de Itamambuca, que já quebrou o galho de todos nós com seus comes e bebes, e até enfeitava o canto das ondas, virou problema para a comunidade? Porque, depois dela, quando Itamambuca começou a atrair mais gente, chegou mais uma barraca e outra e depois outra. E aí, Dona Albertina, que era solução, virou problema. Ou todas as barracas ou nenhuma!
A questão é a seguinte: só a barraca da Dona Albertina pode e enriquece a comunidade. Uma barraca a cada X metros, mesmo no padrão da prefeitura, é transformar Itamambuca naquela triste devastação que é a Praia Grande. Veja que os problemas se agravam à medida em que eles crescem e começam a mostrar a complexidade da situação e a nossa dificuldade em resolvê-los. Não bastando a dificuldade, ainda temos que enfrentar a má fé, a ignorância e a truculência de alguns gananciosos e inconseqüentes empresários que, para fazer lotes, já secaram lagoas, desviaram rios e destruíram pedreiras em nosso bairro. Mas não vou gastar tempo com eles, porque para isso temos a Justiça e a Polícia, se Deus quiser. Queria mesmo era saber o que posso fazer para resolver o meu problema e o problema da avó do Gui.
Agora em agosto começamos a veicular a campanha do Instituto Ethos – Empresas e Responsabilidade Social, que mostra aquelas fotos dramáticas do Sebastião Salgado e tem um título que diz ‘Filho, um dia isso tudo será seu’ e que assina: ‘Responsabilidade Social: sua pessoa física em paz com sua pessoa jurídica’. Acredito nisso. Nenhuma empresa, nenhuma instituição tem consciência. Só gente tem consciência. E é a consciência que tem fome de evolução e move o mundo na melhor direção. Daí eu preferir, num primeiro momento, colocar a questão no nível pessoal e não no institucional.
Será que minha casa de praia já cumpriu sua missão e eu devo abrir mão dela por um lugar que me deixe descansar? Ou devo fincar pé aqui e lutar pela sustentabilidade social, ambiental e econômica da Itamambuca, contra a aliança fortuita e perversa entre exploradores gananciosos, turistas inconscientes e locais carentes? Será que devo transformar minhas horas de descanso em tribuna de uma causa nobre ou sair de perto para não doer tanto quando abro os olhos?
Ninguém é do bem
Tenho uma certeza: se Dona Albertina não encontrar um trabalho integrado ao sistema social e ambiental da nossa região, ela vai dar um jeito de sobreviver e sustentar sua família. E ninguém poderá culpá-la. É capaz até de se ‘vender’aos gananciosos – como a face humana e injustiçada do problema -, para eles encobrirem seus interesses inconfessáveis e impedirem que a sociedade se organize, porque isso dificulta seus saques contra a natureza e contra os cidadãos de bem.
Sei que ninguém, começando pelo amigo aqui, é totalmente do bem, graças a Deus. E é exatamente isso que faz dessa jornada uma coisa emocionante: a possibilidade da gente não dar certo. Não acredito em mocinhos e bandidos mas estou determinado ‘a ser feliz mesmo que para isso tenha que fazer todo mundo feliz’, como dizia Cavalieri algum tempo atrás. É um sentimento meio babaca, concordo. Mas domingo na Itamambuca me deixa assim, mais humano, mais indignado e mais preocupado com a minha felicidade.
E pensar que eu vim aqui para descansar! O que fazer com Dona Albertina, Paulo? Podemos conversar sobre isso no nosso sushi depois que você voltar do Chile. Estou com saudades.
RICARDO GUIMARÃES é diretor da agência Guimarães Profissionals, que cuida da comunicação de marcas como Natura, Webmotors, Disney, Yázigi, OESP, Dzarm e Tilibra. Seu e-mail é ricardo@guimaraes.com.br
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip
Bruce Springsteen “mata o pai” e vai ao cinema
-
Trip
O que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer?
-
Trip
Não deixe a noite morrer
-
Trip
Entrevista com Rodrigo Pimentel nas Páginas Negras
-
Trip
5 artistas que o brasileiro ama odiar
-
Trip
Um dedo de discórdia
-
Trip
A primeira entrevista do traficante Marcinho VP em Bangu