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Outras Palavras – Trip global

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Caro Paulo,
Acho que estou encerrando um ciclo na minha vida. De repente tenho sentido uma leveza estranha. Estranha e boa. Coisas que eram difíceis e pesadas de fazer passam a acontecer com uma facilidade surpreendente. Fatos e pessoas que me aborreciam não têm mais esse
poder, e eu passo por eles sem nenhum arranhão. Perdas e fardos, que doíam encarar, entram e saem de cena sem mais. Muito estranho. Só falta atravessar paredes!Para passar a limpo essa sensação de turning point me retirei para uma praia perto de Natal, onde uma amiga tem uma pousada que se chama Spa da Alma. Isso mesmo. Não é Spa das Almas como os locais chamam. É da Alma. Para tratar do intangível. Aliás, você conhece essa amiga, é a Amarilis, aquela que criou o Instituto Cisne aqui em São Paulo para cuidar de pessoas limítrofes. O spa de fato fica num outro mundo. Você, que viaja muito, sabe que tem lugares que são pontos de energia mais concentrada e que por isso favorecem um tipo de trabalho que está mais para coisas da alma do que do corpo.
Esse lugar é o suficiente de outro mundo para te levar para longe deste mundo. Lá você vive a experiência da Lua, do Sol, do Vento, do Horizonte, do Planeta, do Maior, do Menor, do Corpo e da Alma com tanta intensidade que não sobra muito para o periférico da vida. E aí você descobre o que importa. Se você estiver a fim, é claro. Senão tudo não passa de um turismo lindíssimo pelo norte selvagem brasileiro.
ONDA ONG
Como na volta eu teria que participar de um workshop superimportante sobre Globalização, levei livros e material sobre o tema, principalmente as revistas que cobriram as manifestações de Praga contra o FMI. Tenho um prazer quase imoral de ver as manifestações das ONGs. Não sei se é porque sou da geração das Barricadas de Maio de 68, mas me encantam a ética e a estética desses movimentos. Me encanta ver a polícia desnorteada e os executivos surpresos e constrangidos. Acho que no fundo me dá saudade de um futuro imaginado. Ou será de uma memória adormecida? Memória de algo que sempre existiu na humanidade e que a gente nunca se deu conta.
Como se a humanidade estivesse acordando de um ritmo sonolento, orquestrado e conduzido, e tendo que buscar mais fundo respostas para entender esse caos atordoante e desconfortável de ONGs & Nasdaqs. Perplexos, os líderes não estão sabendo administrar a nova dinâmica da sociedade. Até o bem-intencionado tcheco Vaclav Havel posou de ingênuo ao se oferecer como interlocutor entre o presidente do FMI e o ‘presidente’ das ONGs. Ele ficou falando sozinho porque não existe presidente de ONGs! Não existe uma hierarquia, um controle, um comando! O que existe é uma dinâmica riquíssima, diversíssima, velocíssima, caotiquíssima, surpreendentissíssima,
como se fosse uma dança de improviso inspirada por uma música que se compõe ao vivo. Sem partituras nem maestros. Um jazz total e permanente.

Uma dinâmica tão poderosa que está além de qualquer gerenciamento e previsão. Ela remete a cada um de seus participantes um papel e uma responsabilidade pela parte que lhe cabe – como o próprio nome diz: como participantes -, e quem não é parte dessa humanidade? ‘Faça a sua parte que o resto lhe será dado.’ Se não foi Jesus quem falou isso, deve ter sido seu dito Pai.

REDE ZEN CONTROLE
Acho que essa estranha sensação de leveza que tenho sentido deve vir desta experiência de fazer parte de algo maior que te sustenta, não importando o resultado do teu esforço, desde que seja o máximo, toda a parte que te cabe. Acho que tem a ver com o processo de globalização, essa coisa de rede, essa conectividade, esse fluxo permanente de gente e de informação. E de riqueza, se os governos deixarem (vide editorial do The Economist – The case for Globalisation, 23.09.2000 – www.economist.com). Existe de fato uma rede e um fluxo que independem de alguém, de presidentes, diretores ou gerentes.
Na verdade, não sei se é um ciclo de vida que se encerra. Acho que viajei nas sensações positivas e perdi a noção. Hoje é domingo, são oito da noite e acabei de lembrar que tinha que estar às oito na agência para ver uma campanha que vai ser apresentada amanhã de manhã ao cliente. E eu estou muito contrariado, nada zen, porque preferia continuar terminando a coluna com calma! Não vai dar nem para trocar o começo do texto agora que caí na real. Mas você entendeu. Tem algo de novo no ar. A gente ainda não entende a letra, mas a música é muito boa. A gente chega lá. Meu abraço.

Ricardo.

E.T. Sugestão de trilha para leitura da coluna: ‘Amor I love you’, de Carlinhos Brown e Marisa Monte, com especial atenção ao trecho de Eça de Queiroz que fala da existência ‘superiormente interessante’, na voz do Arnaldo Antunes.

PALAVRAS-CHAVE
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