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Outras Palavras – REAL TEME/REAL TIME/TIME REAL

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Por Ricardo Guimarães ILUSTRAÇÃO: IURY BUENO Caro Paulo, Estou em NY e estou triste. Não sei se a palavra é triste mesmo ou se é inseguro ou apreensivo. O sentimento é de perda. Isto é, não se trata de sentimento apenas. São perdas concretas como o nosso dinheiro que perdeu valor e como o meu pai que morreu há exatamente um ano. Ontem, aniversário de morte do seu Guimarães, passei o dia meio que pensando sobre estes processos que acabam exigindo uma mudança grande na vida. Eu queria de alguma forma homenagear meu pai e, já que eu não estaria com minha mãe e meus irmãos na missa que teria em São Paulo, fui até a Catedral de St. John The Divine fazer uma oração e acender uma vela. No caminho, Lili quis ver uma exposição de borboletas no Museu de História Natural. As borboletas eram simples, nada que supreendesse nossos olhos brasileiros cansados de ver estas pequenas maravilhas da natureza. Mas a idéia da exposição era genial porque você entra num viveiro com temperatura tropical, úmido, cheio de borboletas vivas que pousam no seu cabelo, nas roupas, nas mãos das crianças, é uma experiência! Se estivesse numa galeria ou numa bienal seria considerada obra de arte da melhor qualidade. Na saída, na lojinha do museu, li uma camiseta com o seguinte texto: What the carterpillar calls the end the rest of the world calls butterfly. Parei para pensar no processo de perda da rastejante, ignorante e terminal taturana que pensava que seu fim tinha chegado quando na verdade ela estava se preparando para seu grande momento de amadurecimento. Ela perderia todas aquelas patas e ganharia duas lindíssimas asas. Ela perderia peso e ganharia leveza. Ela só tinha a ganhar e a coitada se lamentava iludida e sofrida com a passagem. Entendi. Era o velho e bom jogo do ‘quem perde, ganha’. Do menos é mais. Claro que não é a primeira vez que passo por um processo desses, mas parece que a vida não dá folga: é como no videogame que cria maiores dificuldades quanto mais você vai vencendo. O que me deixa mais confuso e sem vontade de entender o que está acontecendo é que nenhuma das perdas que estão me acontecendo são consequências de coisas que eu fiz ou deixei de fazer (?!). Meu pai e meu dinheiro se foram sem que eu pudesse fazer qualquer coisa para impedir. É um sentimento de impotência desanimador. Dá vontade de aceitar o absurdo da vida e desistir de buscar sentido no sofrimento e nas dificuldades. Mas também isso eu não consigo. Já fui longe demais para me fazer de tonto. Ou de taturana. A morte do meu pai eu entendo e aceito porque a morte é condição da vida. É uma coisa certa que a gente passa a vida esperando por ela. Mas a desvalorização do nosso dinheiro não. Ela traz outras lições. A desvalorização do real destruiu nossa perspectiva, nossa capacidade de ver o futuro com um mínimo de segurança. Não pela desvalorização em si; mas pelo repentino, pelo súbito, pelo inesperado do seu acontecimento. Foi tão inesperado que passamos a esperar tudo. O que mais vai acontecer? Quais são os planos? Quem garante? O FMI? O presidente? O lamentável governador de Minas? Meu pai? Em quem ou no quê confiar? Acho que a lição é aprender a viver sem depender de nada nem ninguém mas ao mesmo tempo dependendo de tudo e de todos. Em palavras mais simples, a solução é confiar em si mesmo e no processo que estamos passando. Confiar em si; seja um indivíduo, uma empresa, um país; e confiar no processo, isto é, não existe mais alguém que manda no mundo e no mercado. O que existe é um processo com milhões, bilhões de protagonistas onde cada um pode muito ainda que alguns possam mais. Até quem pode muito como o megaespeculador George Soros está pedindo para se criar um órgão controlador do mercado financeiro internacional porque segundo ele, -‘Assim não dá!’ Ele está pedindo um paizão que impeça o efeito nefasto de sua ganância especulativa, como ele mesmo diz, with no mercy. Nesta sociedade maluca e incontrolável, a única saída é ficar sobre os próprios pés, apoiado na certeza de sua vocação e talentos pessoais e não nas circunstâncias externas. Temos que crescer com as próprias bases, sem crédito nem financiamentos. Julgo ingênuo e perigoso olhar para o mercado para decidir uma profissão, um lançamento de produto, um investimento, a abertura de uma empresa. Se sua contemporaneidade pessoal, se sua antena pessoal, se o seu talento pessoal não lhe dão uma resposta que acabe com sua insegurança, não será o mercado quem dará. Isto é, ele pode até dar mas será uma resposta tão precária quanto a estabilidade do nosso real. Do outro lado, confiar no processo significa acreditar que apesar de parecer o caos e o fim, estamos evoluindo sim e os números provam isso. O que está faltando é mudar a atitude. Amadurecer. Tomar o destino com as próprias mãos com a consciência de que neste mundo tão leve e sensível como o bater de asas da borboleta, decretar moratória é dar um tiro nos próprios pés. Pode parecer antigo mas precisamos reconhecer que o mundo é redondo e que um tiro para frente acerta suas costas. Sacaneou? O castigo vem a cavalo, isto é, via satélite, real time. Nesta zona toda, achando ou não que é evolução, só nos resta ir em frente. Neste exato momento estou fazendo isso. Estou abrindo uma nova empresa e investindo na Guimarães. Estou indo em frente. Estou confiante, triste, com saudades do meu pai e morrendo de medo de não sei o quê. A campainha tocou. Deve ser o táxi para me levar ao aeroporto. Voltar para o Brasil tem uma vantagem: pelo menos a gente não precisa mais dividir nosso dinheiro por dois para saber como a gente ficou pobre. Paulo, desculpe o desabafo, mas amigo é para essas coisas. Ricardo Guimarães é diretor da agência Guimarães Profissionais, que cuida da comunicação de marcas como Natura, Reebok, Tilibra e Yázigi, entre outras. Seu e-mail é: ricardo@guimaraes.com.br

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