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Outras Palavras – Prazer em morrer

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Caro Paulo,

Gostei da reunião de pauta com a
redação. Foram três horas que passaram
como cinco minutos.

Ainda bem que a abençoada Iara existe e
sabe me tirar de reuniões, senão eu me
perdia para sempre no prazer destas
conversas. Curioso, Paulo: por que a
gente perde a noção do tempo
quando se tem prazer?
Acho que existe uma estreita relação entre
o prazer e o perder o controle, o soltar, o
deixar ir, o deixar rolar, o fluir. Já imaginou
passar a vida perdendo a noção do
tempo? A vida ia passar num minuto!
Genial! Eu sei que tem gente que preferia
que a vida demorasse uns 100 anos para
passar.

Dizem gostar tanto da vida que queriam
que ela passasse bem devagar. Eu não
entendo isso. Minha experiência diz que a
vida passa devagar quando ela é chata e
aborrecida.(!!!) É como se não desse para
conciliar prazer com viver mas prazer com
morrer. (!!!) Sim, meu amigo. Vou cometer
esta afirmação mesmo que eu perca
metade dos nossos leitores nesta altura do
texto: prazer, morrer e perder – está tudo
ligado. E é bom. Vou explicar melhor:
morrer no sentido de gastar seu
equipamento, de queimar sua energia, de
dar destino a este corpo e essa cabeça,
de cumprir sua missão neste planeta é
uma coisa muito gratificante. Eu não
quero viver sem gastar a minha vida
totalmente. Não quero levar nem uma
possibilidade de experiência não
executada para a sepultura. Quero cumprir
todas as possibilidades que o Ricardo
Guimarães tem para ser. E é aí que entra
o prazer. Quando eu atendo essa
possibilidade de cumprir o meu destino,
eu tenho prazer, orgasmo mesmo, entro
em transe, perco o controle; mesmo
porque não se precisa mais de controle
quando se achou a sua onda, daí pra
frente é só soltar o corpo e se divertir até
chegar na praia. Às vezes eu me
pergunto se eu gosto de viver ou de
morrer. E eu acho que eu gosto mesmo é
de morrer. A vida aqui é um grande prazer
é verdade, mas também é muito precária,
muito frágil e muito trabalhosa.

Acho nosso corpo uma máquina
maravilhosa mas muito imperfeita. Essa
história de ter que matar fome, sede, xixi,
dormir, tudo isso é muito cansativo. Ter que
trabalhar para se alimentar e se vestir é um
lamentável equívoco: devíamos trabalhar
para nos realizar. Nossa carência afetiva é
um tormento: precisar do outro para ser feliz
é um pé no saco. A pobreza, a violência, a
corrupção, o medo do futuro são
fenômenos prosaicos quando sabemos que
poderia ser muito mais fácil e melhor sem
isso. Fico impaciente mas não me traio.
Nessas horas lembro de um amigo balinês
que no dia em que perguntei porque o povo
dele era tão correto, simpático e fazia tanta
oferenda aos deuses, ele me respondeu:
‘Nós fazemos tudo direito porque nós
acreditamos na reencarnação e nós não
queremos ter que voltar para cá’. Simples
assim. Eu não sei se eu acredito em
reencarnação, mas fez o maior sentido
para mim, além do que, achei o povo
daquela ilha mais feliz e pacífico que os
outros, o que lhes dava a maior autoridade
como conselheiro de estilo de vida. Olha
Paulo, eu acho mesmo que a gente
tem que desmistificar a morte. Temos
que ter mais intimidade com ela para que
se tenha mais apreço pela vida. E mais
urgência também. Estou vendo muita gente
com medo de entrar pra valer na vida e, no
lugar de entregas totais mais
comprometedoras e tesudas, fica se
testando em limites aparentemente mais
radicais e emocionantes mas muito menos
comprometedores e gratificantes como
esportes violentos, lutas violentas e drogas
violentas. São êxtases precários que não
se somam e não preenchem, mas êxtases
que cavam mais fundo o vazio da
insatisfação e da não realização. Essas
coisas radicais na verdade são um jeito
infantil de enfrentar a morte, a vida como
ela é. Fica tudo de corpo duro e bunda
mole. Um desperdício. Uma pena. Puxa
Paulo, comecei nossa conversa de um jeito
tão leve e acabou pesando demais. Mas
em compensação parece que estou
escrevendo há apenas dois minutos. Valeu.
Foi um prazer passar mais essas duas
horas com o amigo.

Ricardo
maio 99

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