Outras Palavras: O país do presente
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Caro Paulo,
Quero falar sobre sucesso, sobre ganhar dinheiro e sobre esse nosso querido país no mercado internacional globalizado. Mas antes preciso te contar de um dos momentos mais íntimos e estratégicos da minha carreira profissional empresarial.
Eu ainda era sócio do meu amigo Dennis Giacometti. A agência ia muito bem, principalmente considerando que íamos na contramão dos hábitos e costumes do mercado publicitário. A Exame até fez uma matéria dizendo que éramos rebeldes de sucesso. E o problema era esse: nós éramos rebeldes e tínhamos crescido ouvindo um discurso contra os hábitos e costumes da época.
Para continuar a crescer, era preciso ser a favor de alguma coisa, mudar nosso comportamento. Essa era a hipótese e, para nos ajudar a decidir, contratamos um consultor. Ele era o consultor da hora e estava envolvido nas grandes jogadas das novas agências de sucesso. Depois de entrevistas, estudos e análises, ele nos comunicou o veredicto e a orientação: nós devíamos nos adequar mais às regras do mercado. E eu, Ricardo, deveria me aproximar mais da imprensa especializada, passar a inscrever nossos materiais para receber prêmios e freqüentar mais os eventos do setor. Respondi que isso mudaria muito meu estilo de vida e que eu não seguiria essa recomendação.
Convicto de sua orientação, ele disse que eu estava escolhendo o caminho mais difícil e argumentou. Apresentou os casos de rápido sucesso de dois profissionais clientes dele, afirmando que deram certo porque haviam agido assim. Respondi que caminho difícil para mim era esse que ele apontava, embora o mesmo caminho fosse fácil para os outros.
AGORA É COM VOCÊ
Naquele momento, decidi que teria de seguir a mim mesmo. Providências: aprofundar mais a visão do negócio publicitário e encontrar um modelo de operação e relacionamento que atendesse as minhas limitações e intuições, já que o meu jeito não era o jeito do mercado. Lembro que nessa época meu amigo Enio Mainardi me perguntava em que lugar do ranking minha agência estava. Eu respondia que a gente não corria na mesma raia.
Isso foi há doze anos. Não sei se minhas empresas são sucesso na opinião do mercado, mas me divirto muito com o que faço, tenho clientes e funcionários que são meus amigos de dividir o caminho da vida – e, melhor que tudo, tenho um orgulho absurdo do nosso trabalho, embora tenha certeza de que não é nada perto do que somos capazes e do que é possível e necessário para os clientes. Nunca prospectamos uma conta na vida e nunca entramos num banco para pedir dinheiro.
Não sei se tudo isso nos coloca no mainstream. Mas sei que, quando nos vejo discutindo a essência e a estratégia de empresas como Real ABN AMRO, Banco do Brasil, Natura, Instituto Ethos, HP, Organizações Globo ou Cia. Suzano, não me sinto nada marginal. E aí me pergunto: mudei eu ou foi o mundo que mudou?
E, se mudou, o que mudou? Como sei que não mudei, meu palpite é que o mundo não é mais aquele. Se antes fazer-o-que-o-mercado-manda era suficiente para acertar na decisão, hoje conhecer o mercado é necessário, mas não é suficiente. Se você não tiver uma visão própria, uma reflexão crítica de como o mercado deveria ser, sua empresa ou sua carreira estará sempre chegando atrasada para o jogo, isso se não chegar depois do jogo. A reflexão crítica e a imaginação são a base da inovação e da liderança. O mundo está mudando. Atuar conforme a moral vigente num mercado em transição é atitude de alto risco porque a qualquer momento o que era costume pode virar crime e o que era visto como babaquice ou frescura pode virar diferencial competitivo.
Quando vejo a iminência da privatização eliminar o olhar social da gestão das estatais, em busca de resultado, percebo que essa estratégia se espelha no modelo decadente de empresas privadas e não no modelo emergente, que estrategicamente privilegia tanto o aspecto social e ambiental de suas operações quanto seu resultado financeiro. Isso está acontecendo também com muitos jovens, que entram no mercado de trabalho olhando para modelos que deram certo e que hoje são figuras conservadoras, repetitivas e decadentes.
Acredito na redefinição de sucesso. Pessoal, profissional e empresarial. Aliás, por isso acredito na TRIP, na sua ideologia. É por isso que estamos juntos e é por isso que a gente se diverte tanto quando se encontra. E, quanto ao Brasil, pode apostar: enquanto tivermos essa postura de nos orgulhar em ser tão bons quanto o Primeiro Mundo, seremos no máximo um ‘me too’ atrasado e não teremos nosso real valor reconhecido. O Brasil não é melhor nem pior. É único, como toda nação, ou empresa, ou pessoa é única, com uma contribuição única a dar ao mundo. Esse é um bom começo de conversa para inspirar um Plano de Ações para a marca Brasil no mundo globalizado. Aliás, ia servir também para nossas elites sociais e intelectuais desistirem desse jeito ‘wanna be’ que só atrasa nosso país. Mas isso fica para a próxima. O espaço que sobra não é suficiente nem para abrir o assunto. Quem sabe uma matéria sobre o Brasil S/A, denunciando os provincianismos e os estereótipos que são usados para nos vender lá fora? Me avisa se colar.
Abraço.
Ricardo
E.T.: Estou me sentindo muito honrado de vocês terem confiado a conta da TRIP à Guima.
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