Outras Palavras: O outro
Quanto mais eu convivo com gente inteligente, mais me convenço de que a trava que impede a evolução do homem é emocional.
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Quanto mais eu convivo com gente inteligente, preparada com PhDs e MBAs, poliglotas viajados, cientistas bem-intencionados, humanistas encorajados, jovens espertos ou velhos sábios, mais me convenço de que a trava que impede a evolução do homem é emocional.
Outro dia, participei de um workshop em uma empresa com dezenas de pessoas brilhantes que deviam chegar a uma visão comum sobre o futuro. Havia muito debate, apesar de todos estarem de acordo com o que diziam. Havia acordo, mas o grupo não conseguia reconhecer que estava de acordo. Parecia que, ao concordar, estaria criado um compromisso, um pacto que faria daquelas pessoas um grupo com uma identidade ameaçadora à liberdade individual dos membros desse grupo.
Claro, pessoas brilhantes que estudam muito, investem em si, se sacrificam e se têm em altíssima conta precisam se preservar distintos dos outros para garantir o justo reconhecimento de seu valor. É assim mesmo. É justo: que vença o melhor. E, ao vencedor, os louros da vitória.
Eu também pensava assim até que comecei a questionar essas minhas convicções sobre mérito, vencer, ser o melhor; já que, pensando assim, não estávamos conseguindo nos organizar numa sociedade mais humana, solidária e segura. Confesso que ainda não consigo organizar direito minhas idéias. Mas posso mapear alguns impactos que minhas referências têm sofrido e, quem sabe, o velho amigo pode me ajudar a esclarecer meus pensamentos.
SEM METROS RASOS
Um desses impactos veio de um novo amigo, o Antônio Carlos Barqueiro, a propósito da última coluna sobre deficientes. Era o relato de um fato ocorrido nas Olimpíadas Especiais de Seattle, no ano passado: uma
corrida de 100 metros para deficientes. Dada a largada, os atletas saíram correndo. Um deles tropeçou logo no começo. Os outros, na frente, diminuíram a velocidade e chamaram pelo companheiro que estava no chão, chorando. Como não se levantava, uma menina parou de correr e voltou até ele. Seu movimento foi imitado pelos outros que também voltaram e ajudaram a levantar o acidentado. Retomaram a corrida e, juntos, de mãos dadas, atravessaram a linha de chegada. O estádio inteiro aplaudiu de pé os atletas durante dez minutos.
Eu me emociono demais com essa história e fico me perguntando se a vida não devia ser assim. Sem medo de ser babaca, já aviso que não acredito que qualquer proposta de organização em rede funcione se não for com esse espírito das paraolimpíadas. Por acidente ou incompetência, sempre vai ter alguém precisando de ajuda para o grupo cruzar a linha de chegada.
E não dá para expulsar o ineficiente para fora porque estamos chegando à conclusão de que não existe esse lugar chamado ‘fora’. Fora da empresa? Fora da Rede? Fora do time, da turma, do bairro? Fora da cidade? Fora da sociedade? Fora do bloco? Do planeta? A atitude de exclusão – e não de inclusão – tem o sentimento de separação – e não de integração -, não importa em que nível você pare de discriminar. A atitude é de selecionar: você sim, você não. É cruel e desumano. Melhor, é não humano.
HUMANOTERAPIA
Confesso que não faço diferente, mas isso precisa mudar! É só uma questão de tempo para que o tiro que se deu no outro pegue a sua própria nuca, repito. Não existem balas perdidas. O que existe é gente perdida. Gente que ficou à margem da estrada, que sobrou do trem dos virtuosos, dos talentosos, dos belos, dos eficientes e dos vitoriosos. Não quero entrar numas de falso discurso de palanque, mas o tom é meio revolucionário, sim.
O poder que a ciência e a tecnologia estão nos dando pode fazer desse lugar um paraíso não imaginado. Mas, para isso, precisamos mudar radicalmente nossa atitude. Precisamos nos emocionar mais com o nosso destino compartilhado e reconhecer que não tem ‘o outro’, assim como não tem ‘um fora’. É difícil. Não sei como se faz. Mas saber que não se sabe é um bom começo, não é?
Meu abraço,
Ricardo.
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