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Outras Palavras – Múltipla Escolha

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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MULTIPLA ESCOLHA
Caro Paulo,
Sei que a revista está parada esperando a minha coluna mas não deu para ser diferente. Tive que fazer algumas escolhas na semana passada e uma delas era a de não entregar a minha querida coluna no prazo combinado. A outra, que na verdade é razão do meu atraso, foi ir com o Tiago para Amsterdã participar de um workshop com mais duas consultorias norte-americanas e um grupo de consultores da Europa, com o objetivo de formar uma operação global para atender a empresas no cenário da Nova Economia. A pauta era boa, mas o que me fez viabilizar três dias inteiros, na minha agenda, em que não se acha sequer horas inteiras foi a oportunidade de estar esse tempo todo, 24 horas, convivendo com um filho, no caso, o Tiago. Meus sócios, clientes e companheiros, me perdoem mas eu menti. O que me levou a Amsterdã foram razões do coração. O projeto global é estratégico, muito interessante e entusiasmante mas não é nada perto da oportunidade de viajar com meu filho, curtir Amsterdã, além, é claro, de compartilhar com ele essa experiência.

Foi inclusive durante a viagem, quando eu explicava a razão-emoção dela, que o Tiago me sugeriu fazer a coluna com esse tema. ‘Que tema é esse?’, perguntei. Ele me esclareceu que é o tema da falta de tempo, da dificuldade de administrar tudo o que se quer fazer na vida e não conseguir: trabalho, esporte, mulher, filhos, amigos, balada, enfim, a vida como a gente sonhou um dia.
Acho que um bom jeito de abrir o tema é lembrar o comentário que o sábio ‘doutor’ Massanobo fez quando quis explicar um dos meus vários estresses. No lugar da obviedade ‘você-está-trabalhando-muito’, que um médico normal e desagradável diria, ele disse com aquele sorriso búdico-japonês: ‘Não tá dando tempo de fazer tudo, né? Vida muito animada e tempo muito pouco, né?’. É por isso que eu me despenco até o outro lado da cidade para falar com o Massanobo – ele sempre me dá uma perspectiva melhor da vida (?!). Ele não quis me dizer que eu estava me matando de trabalhar, jogando em cima de mim um sentimento de culpa e de incompetência para administrar minha saúde. Quis dizer que eu gosto muito do que faço. Só isso. E é aí que a vida começa a deixar de ser simples. Porque administrar o prazer não é fácil, particularmente o prazer no trabalho. É por isso que o agradável comentário do Massanobo veio acompanhado daquele sorriso sádico-amoroso de quem sabe que eu não estou sabendo escolher.

Quanto melhor, pior
É o seguinte: toda escolha implica em eu me aprofundar no meu autoconhecimento para saber o que me serve. A sacanagem é que quanto mais melhora a minha vida, mais difícil fica escolher, porque implica abrir mão de coisas boas. Escolher entre o bom e o ruim é bico, porque as próprias opções se definem. Não dói, a realidade justifica minha dor ou meu prazer e a-gente-vai-levando.
Escolher entre coisas boas implica em saber o que é melhor para você, as opções não se definem e a responsabilidade é sua. Exige um certo grau de maestria em si mesmo, um certo Phd em crescimento pessoal. Tem que saber jogar boas coisas fora para ficar mais leve e poder voar. Por exemplo, até eu descobrir a verdadeira razão da viagem para Amsterdã, minha agenda ficou pendente, tudo se arrastava, porque eu não conseguia decidir. Você mesmo, Paulo, ficou aguardando confirmação minha se íamos conseguir nos reunir na terça, lembra? Você e o Califa devem ter reparado que eu estava meio estranho no almoço. Pois é, quando saquei que não podia perder a oportunidade de estar com o Tiago naquelas circunstâncias tudo se clareou: o mundo começou a conspirar a favor, os problemas desapareceram e a agenda começou a fluir. Se a razão é de alma, o mundo conspira a favor, acredito nisso.

É assim: a decisão de ir para Amsterdã com o meu filho veio de um nível tão íntimo e essencial da minha história pessoal que os obstáculos desapareceram. E, se houver qualquer preço a ser cobrado, por mais alto que seja, será tão baixo que nem importa. É o tal negócio: a razão é de alma. E quando isso acontece, não há no mundo físico nada que justifique contrariar.

A conversa acabou ficando meio abstrata para um tema tão concreto quanto a falta de tempo. Mas é justamente o pouco tempo que sobrou para escrever essa coluna que me fez ir tão direto ao ponto. Em síntese: a saída não é para fora. O único jeito de sair é entrar. Qualquer dúvida, sugiro rever Matrix. ‘Eu libertei o mundo de Matrix. Entrego-lhes um mundo livre, sem controles, em que tudo é possível. Agora a escolha é sua.’ Para quem não lembra, o mocinho voa no final.

Abraço, Paulo. A gente se vê na sexta que vem.

RICARDO GUIMARÃES é diretor da agência Guimarães Profissionals, que cuida da comunicação de marcas como Natura, Webmotors, Disney, Yázigi, OESP, Dzarm e Tilibra. Seu e-mail é ricardo@guimaraes.com.br

TRIP #82

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