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Outras Palavras: Mudamos

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Amanhã tenho que entregar a coluna e ainda não encontrei um fio de meada que me ponha a escrever com a naturalidade com que normalmente escrevo para o amigo. Será que o formato ‘Caro Paulo’ chegou ao seu fim? Nunca tive dificuldade de escrever este texto porque meu compromisso era, de verdade, falar com você e nossa amizade é rica e inspiradora o suficiente para me motivar. Algo mudou.
Como era de se esperar, com o tempo criei uma relação com os leitores. Você sabe, tenho algumas centenas de leitores da TRIP que curtiram a coluna e me escreveram, alguns deles até se correspondem comigo de vez em quando. O problema é que agora, quando escrevo a coluna, não penso mais no amigo mas numa quantidade enorme de pessoas, conhecidas e não conhecidas. Hoje, eu olho para além da tela em branco do meu laptop e vejo uma multidão de pessoas esperando eu decidir o tema da conversa. Está ficando cada vez mais difícil escolher. Como se eu não quisesse decepcionar ninguém. Por via das dúvidas, atendo ao meu público mais chato: eu mesmo. Apesar disso, é impressionante como a gente fica escravo da expectativa do outro.

A ARMADILHA NO ELOGIO
O elogio é mesmo paralisante. Um dia elogiaram o meu estilo de vestir dizendo que era minimalista, que eu sabia o significado de ‘less is more’. Corta: estou nu depois do banho, na frente do meu guarda-roupa, parado e me perguntando: O que é mesmo que é ser minimalista no vestir? O elogio me desestruturou, tirou minha naturalidade, fiquei comprometido com a fórmula que fez sucesso. Pensando bem, todo produto editorial que vira uma fórmula faz seus autores perderem o tesão de editá-lo. Porque entra no automático, perde a surpresa, não se vive mais a relação redator/leitor. Alguns até manualizam a relação com uma lista enorme de ‘dos e dont’s’ para facilitar que outros aprendam a maldita fórmula. Trabalhei como consultor em muitos projetos editoriais que nasceram superquentes, criativos e corajosos e que foram virando fórmula, esfriando, perdendo contato com o leitor até transformar o emocionante ofício de jornalista num entediante emprego das 9 às 5. E sempre foi necessário que o diretor de redação revisitasse, reinventasse o compromisso da redação com o leitor para resgatar os jornalistas prisioneiros do elogio do passado.
Parece que estou enfrentando um problema dessa natureza, Paulo. ‘Caro Paulo’ virou uma ficção sem sentido, um truque sem graça, que está me segurando mais que me inspirando; sem prejuízo da nossa querida amizade, é claro.

SE A COLUNA FOSSE MINHA
Queria propor um outro formato. O que você acha de manter ‘Outras Palavras’, enquanto eu não estiver fazendo coro para o mainstream, mas acabar com o ‘Caro Paulo’. Criar mais interatividade com os leitores de um jeito que você, caro leitor ou cara leitora, possa me sugerir temas ou encaminhar questões que me provoquem uma reflexão. Não precisa ser um tema só por coluna. Podem ser vários, se couberem.
Quer dizer, eu continuo com a liberdade de fazer o que bem entendo e o formato está mais livre também. O que você acha? E você, Giuliano? Luna? Talvez até fique mais dinâmico. E mais fácil para mim, já que fica mais próximo da realidade que vivo com toda essa situação.
Se esta coluna for publicada, é sinal de que vocês concordam comigo e, nesse caso, os leitores estão convocados a contribuir pelo e-mail abaixo. Vamos ver o que acontece. Na pior das hipóteses, consegui fazer mais uma coluna dentro do espírito que sempre norteou meu compromisso com você, caro Paulo.
Fica com o abraço do amigo,
Ricardo.

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