Outras Palavras: Deseja-me e te devoro
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Caro Paulo,
Estou em Itamambuca, com muita dor nas costas porque estourei a musculatura jogando raquetinha. Passei do limite. Joguei mais tempo do que devia e, ainda por cima, a praia estava muito inclinada, complicando a postura do corpo. Eu sabia que depois doeria, mas continuei assim mesmo. Por que a gente faz isso, Paulo? Quer dizer, sei que na hora eu optei pelo prazer, pelo tesão do jogo. Mas por que continuei mesmo sabendo que o castigo vinha depois?
Estou olhando aqui os jornais com notícias de desastres de helicópteros, desastres de automóveis, desastres ecológicos; estou vendo até os EUA proibindo a clonagem humana, talvez para prevenir outro tipo de desastre. Razões? Excesso de confiança, excesso de ignorância, excesso de poder. Se isso explica, não justifica. Afinal, o que nos faz ir além?
Tem um ponto que separa o certo do errado, o seguro do inseguro, o prazer da dor, a vida da morte – e a gente não vê. Ou vê e acha que vale o risco. Por quê? Ir além ou passar do ponto não é problema novo. Na antigüidade, os gregos chamavam esse desejo de ir além de híbris (arrogância), que era punido por Nêmesis (deusa da justiça).
Aprendi isso em A História da Arrogância, livro de Emilio Zoja que analisa a nossa história sob o aspecto do desenvolvimento humano e da negação dos limites. Fui atrás desse estudo para tentar entender melhor absurdos como a Carla Perez na capa da Time e esse recorde do Brasil em cirurgia plástica.
SATISFAÇÃO NÃO É FELICIDADE
A ciência e a tecnologia estão nos dando poderes de deuses – que eu, pessoalmente, festejo. Mudamos o nariz, a bunda, o peito, trocamos a cor e o sexo, negamos o tempo, pousamos na Lua, teletransportamos a matéria, eliminamos a distância, clonamos o que quisermos, interferimos nos ciclos naturais. Maravilha. No more limits. Podemos tudo.
Nunca tivemos tanto poder e tanta liberdade. Para quê? Para ter mais poder e liberdade? Não acredito. O poder – ou a vida, se quiser ser mais abrangente – não nos foi dado de graça. Acredito numa constante negociação em todos os níveis da vida que determina as diferenças entre nós. Por que alguns são pilotos, outros co-pilotos, uns passageiros e outros tripulação nessa viagem que só tem um destino? Claro que a diferença tem um propósito, já que o destino é um só.
A vida não é um tale told by an idiot, como dizia Shakespeare. E nós precisamos deixar de lado essa ingenuidade de Midas de achar que a satisfação de nossos desejos nos levará à felicidade. Não sei de onde tirei isso, mas, em algum lugar, li algo como ‘Senhor, me proteja dos meus desejos’. Será que foi no mito de Midas? Lembra dele? Ele desejou ter o poder de transformar em ouro tudo que tocasse – e foi atendido! Sua comida virou ouro, sua mulher virou ouro, não lembro como termina, mas não é um final feliz, com certeza.
A pergunta, então, é: se não estou aqui para satisfazer meus desejos, estou aqui para quê? Essa pergunta parece meio básica, reconheço, mas diante da dor nas minhas costas e de tanto desastre, só me resta perguntar sobre a força dos nossos desejos. Ou seria a força de nossa arrogância?
QUERER É UMA PRISÃO
A Bíblia não deixa dúvida: o pecado original foi mesmo o desejo de ter tanto poder quanto Deus e, assim, dominar seu reino. Deu no que deu: todo mundo estudando, procurando emprego, comprando plano de saúde, pagando mico e fazendo perguntas difíceis de se responder.
Numa cultura mais pop, lembro do mago David Bowie no filme Labirinto, dominando a cena e a garota, enquanto ela continuasse desejando que seu irmãozinho pentelho desaparecesse. Ela só se liberta quando desiste do desejo e, aí, o labirinto se dissolve. Nosso desejo é nossa prisão. E quanto mais eu o satisfaço mais poder sobre a vida eu provo e menos respeito pela vida eu tenho. Quanta dor vamos precisar para aprender a achar graça nos limites que nos definem como únicos, vivendo momentos únicos, com algum propósito? O poder da ciência e da tecnologia, que nos faz dominar a vida, está nos fazendo mais felizes ou mais arrogantes?
Está doendo muito, Paulo. Às vezes até perco o pensamento. Desculpe, mas vou parar. Aliás, não seria má idéia parar de pensar e sentir a fragilidade da vida que corre em nós. Vou ficar quieto um tempo e deixar que ela cuide de mim. A vida sabe mais que eu.
O abraço, não muito apertado, do amigo,
Ricardo.
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