Outras Palavras – Cidade-Aeroporto
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Caro Paulo,
Hoje é meu aniversário. São 19h30 e é segunda-feira. Estou no Aeroporto de Miami voltando para São Paulo depois de passar o fim de semana com a minha Helena – eu me dei de presente matar a saudade da filhota querida. Até agora não entendi porque ela escolheu esta cidade para estudar/morar. É verdade que a escola dela é quentíssima na área: nos últimos três anos emplacou os cinco primeiros lugares no Concours International des Createurs de Mode, em Paris. Tudo bem, mas Miami, a cidade, eu não entendo. Não vejo magnetismo nenhum. Parece que todo mundo está de passagem por aqui. E quem está para ficar parece que acabou de chegar. Meu amigo Luiz Seabra, infalível na missão de conectar os amigos no aniversário onde quer que eles, ou ele, estejam, brincou comigo hoje ao telefone quando eu lamentava essa cidade-passageira: ‘Miami é uma cidade-aeroporto!’ Eu não podia concordar mais. Mas, em seguida, ele acrescentou com toda sagacidade de quem não veio nesta vida a passeio: ‘Quem sabe, Ricardo, não temos algo a aprender com essa coisa transitória de ser passageiro…’
É isso mesmo. Algo que me incomoda em Miami é essa falta de história, essa coisa recente sem raízes, essa ausência de estilo, de identidade. Será que os furacões têm a ver com essa precariedade, essa provisoriedade de tudo? Nestes três dias em que fiquei aqui só se falava do furacão que vinha e não veio e que precisa evacuar a cidade, principalmente Key Biscaine, que é onde a Leca mora e o primeiro lugar a ser abandonado! O povo aqui está sempre pronto para largar tudo! Que desapego! Talvez eu tenha mesmo uma lição a aprender com este meu desconforto e desconsolo de ter uma filha estudando nesta cidade-cenário chamada Miami.
MIAMI E DEIXE-A
Agora já estou no avião e antes de retomar a coluna passo o olho na Time, na Newsweek e o que vejo? As matérias de capa são a propósito desta conversa: Newsweek, ‘Redefining race in America’, a raça americana em transição, o que é ser americano? Time pega mais pesado e fala de redefinir a Morte ‘Dying in our own terms’. É impressionante, Paulo, a gente dá voltas, vira, viaja e o tema não muda: transição. A época é de redefinir tudo. E a principal redefinição é que tudo é passageiro, inclusive eu neste MD11 da Varig. Nada é permanente. Daí a lição de desapego dos miamenses ser oportuna: como a cidade pode ser destruída, eles constroem de um jeito que possa ser reconstruída. Isso é sábio ou só conveniente? Será que estou vendo coisas demais? Gosto de história, gosto da tradição quando ela garante a transmissão do conhecimento essencial da raça. Eu me pergunto se essa história de desapego miamense não tinha que ser um capítulo dois na evolução. Capítulo um: apego; dois: desapego. Um bom caso para estudo é um amigo querido que mora aqui faz tempo, embora não seja de Miami – quem é de Miami? O Christian está sempre correndo, viajando muito e morando cada vez num lugar menor, mais prático, acumulando cada vez menos coisas. Confesso que não sei se ele está chegando no máximo do desapego ou se está fugindo do apego. Ele é muito jovem para isso. Como Miami. Não dá para desconstruir o que não foi construído. Não dá para subir ao Céu o que não desceu à Terra. Não dá para desapegar quem não se apegou. Ou dá?
O TEMPLO É PASSAGEIRO
Para compensar essas reflexões adolescentes de um ocidente recente, lembrei de uma ilha no velho oriente, no país do sol nascente, a Ilha de Isé, onde fica o templo mais sagrado e antigo do Japão. Esse templo xintoísta dedicado à Deusa Amaterasu tem mais de dois mil anos e é destruído e reconstruído igual, no mesmo lugar a cada vinte anos. Calma! A contradição entre o antigo de dois mil anos e o recente de vinte só existe na nossa compreensão. A explicação japonesa é boa, simples e bela: vinte anos é o tempo de uma geração e para eles cada geração tem que aprender a verdade fundamental da vida, que é a não-permanência de tudo. Assim, ao destruir o que há de mais sagrado eles ensinam a maior verdade. E ao destruir o templo físico eles preservam o seu significado. Ao contrário de nós ocidentais que preservamos os templos mas deixamos ir o seu significado. Mais belo ainda é entender que o templo de Isé não se resume ao prédio pronto, mas num processo que começa em regiões distantes do país com o corte das árvores e a coleta das pedras que construirão o templo. Troncos e pedras serão preparados e transportados por rios e carroças movidas por força humana ou animal durante vinte anos, motivando festas e ritos em cada cidade ou aldeia por que passam até chegar à ilha-santuário. É um processo permanente para lembrar a não-permanência.
Eu era muito jovem quando ouvi essa história pela primeira vez da minha amiga Junko Fujita. Nunca tinha visto uma construção tão simples, despojada e ao mesmo tempo tão rica em tradição e significado. Muitíssimo diferente da ilha e da cidade onde mora minha filha querida. A única vantagem de Miami é que fica a sete horas e meia de São Paulo. Dá para voar à noite e pegar cedo no batente para garantir essas viagens e as contas da Leca nos States. Isto é, desde que não se passe a noite toda escrevendo para o meu caro Paulo. Deu sono. Nos vemos amanhã à tarde, como combinado. Abraço do amigo. Ricardo.
E.T.: Que legal que o Patrick, o AC e o Luna vêm para a reunião.
RICARDO GUIMARÃES é presidente da Thymus Branding e Guimarães Profissionals de Comunicação e Marketing. Seu e-mail é ricardo@guimaraes.com.br
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