Outras Palavras: Change is good
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Caro Paulo,
Se não der certo por falta de espaço, vou arriscar uma coluna normal com um tema relacionado. Aí vai:
Gostei da idéia da edição de aniversário. Só que não consegui escolher uma matéria nem fazer uma
colagem das matérias que mais me tocaram nos últimos tempos. Talvez porque todas elas tinham
beleza, informação e opinião, os três ingredientes fortíssimos, de tal forma equilibrados que a
reprodução de parte deles não passaria para o leitor o mérito da escolha. Então resolvi fazer a
exaltação da opinião como o ingrediente vital para uma sobrevivência minimamente digna nesta
Sociedade do Conhecimento, conectada e interdependente que, inexoravelmente, se instala entre nós.
Para um jornalista ou para um cidadão comum opinião é ganha-pão.
Foi o fundador da Time,…., quem disse que a matéria mais isenta é aquela em que o jornalista diz o
que sabe e expressa sua opinião. Eu concordo com ele. Vamos admitir então que a verdade existe sim,
que ela deve ser encontrada e divulgada, mas que ninguém é dono dela. Ao contrário, cada um tem
uma parte que é exatamente aquela que o indivíduo consegue ver a partir do lugar que, geográfica,
histórica, biológica e biograficamente, ele ocupa. Isto é, é o seu ponto de vista que pode ser
visto apenas por você e mais ninguém.
Antigamente ninguém se importava com a sua opinião porque o mundo era muito organizado,
controlado e previsível. Não adiantava pensar diferente porque era a lei do mais forte que vigorava. O
pai, o patrão, o governo, o padre, o professor falava o que era verdade, o que era certo, o que era belo
e justo – e todo o mundo, a grandessíssima maioria, concordava, ou pelo menos fazia de conta porque
era assim que se brincava de ser ‘maduro e responsável’. Daí a necessidade de grandes revoluções e
de grandes heróis. Hoje em dia, na ‘sociedade da informação’, com a Net se instalando cada vez mais
rápido no mundo dos átomos, relativizando o poder do mais forte e aumentando o poder do mais
ágil, as pessoas – cada uma das pessoas – se tornam importantes, indispensáveis mesmo.
É que ao se liberar do padrão imposto e controlado pelo mais forte a nova sociedade precisa que cada
um dos indivíduos participe para definir ou até construir a verdade. Assim, a opinião, o ponto de vista
de cada pessoa, torna-se vital porque a verdade será mais bem conhecida, ou mais justa, ou mais bela
quanto mais pontos de vista conseguirmos reunir em torno do mesmo fato. E qual a opinião mais
importante? Depende, depende, depende.
Depende do assunto, da hora, da circunstância. Como não existe o dono da verdade, o poder deve ficar
com quem está no ponto de vista mais adequado para ver o que interessa naquela hora, naquela
circunstância. É uma dança. Quem manda é a música, o processo, o espetáculo. E se alguém se omite
‘Não, eu não tenho opinião sobre esse assunto!!!’ é como um instrumento desafinado no meio da
orquestra. Ele não está em silêncio! Sem opinião ele está tocando qualquer coisa. E, mesmo que ele
consiga acompanhar os colegas, ele está tocando sem alma, sem convicção. Ele pode contribuir com o
volume, mas com certeza não com o brilho. Para ensinar meus filhos a terem opinião eu sempre disse
a eles, desde pequenininhos: ‘Ouça seu coração.’ Esta providência não falha.
Eu acredito que este coração a que me refiro é o órgão mais inteligente do nosso corpo.
Ele não é lógico nem intuitivo. É mais que isso. Como é comprometido com a nossa felicidade suas
respostas são sempre corretas. O problema é acatar a resposta e agir segundo ela. Aí precisa de
coragem. Gosto de brincar assim: a origem da palavra coragem é ‘agir com o coração’ – cor + agire, em
alguma língua antiga. De qualquer forma, coragem existe para ajudar a gente a se expor como único, a
não ser apenas mais um, a assumir uma opinião, uma posição.
Infelizmente ou felizmente, a coragem que se exige hoje não é para fazer grandes revoluções. Todas
as grandes revoluções já foram feitas. Os candidatos a herói podem mudar de planos. A única grande
revolução que restou não precisa de grandes heróis porque ela é feita de pequenos gestos, no
dia-a-dia, no trabalho, em casa, na rua. É uma revolução individual, profunda e definitiva porque ela
ocorre na consciência. Essa consciência nos dá noção de identidade, de auto-estima, de propósito, de
rumo, de eixo – nos dá opinião. Já imaginou uma sociedade em que cada indivíduo tem sua opinião
que é expressa e considerada? Não sei se isso é possível. Mas, se for, precisa da opinião de todo
mundo. Então, é melhor começar.
Esta é a minha opinião: os trabalhos de reportagem que mais me impactaram nos últimos tempos
tinham a opinião de alguém que viveu uma experiência com suas emoções, suas convicções e ideais e
conseguiu compartilhar esta experiência comigo. Em todas essas vezes eu tive a sensação que estava
fazendo alguma coisa importante junto com alguém. A sensação de que eu tinha por perto alguém
vendo coisas por mim e me trazendo notícias e visões. E isso é a segunda melhor coisa do mundo: não
sentir-se só num mundo tão cheio de beleza e mistério.
Ricardo Guimarães
PS. A melhor coisa do mundo é estar só num mundo tão cheio de gente.
Nov.99
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