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Ouro Negro

O maestro pernambucano Moacir Santos, radicado há 40 anos nos EUA, conversa com a Trip durante sua passagem pelos trópicos

Ouro Negro

Por Redação

em 23 de novembro de 2005

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Por Filipe Luna  Foto Marcelo Naddeo

Moacir Santos gravou apenas um disco enquanto vivia no Brasil. Mas foi o bastante para realizar uma alquimia que poucos instrumentistas conseguem completar durante carreiras completas. Transformou vinil em ouro. Seu LP Coisas, de 1965, foi, durante muitos anos, uma das bolachas mais caras no mercado dos colecionadores de boa música, ultrapassando várias vezes a casa dos 1000 reais. O relançamento recente em CD desse trabalho, que fundiu jazz e ritmos afro-brasileiros, diminuiu a cotação das velhas rodelas de vinil. Mas veio junto com a tardia valorização no Brasil dele, um dos principais arranjadores de nossa música. O próximo passo do renascimento de Santos deverá ser o relançamento por aqui dos discos que ele produziu para o mítico selo de jazz Blue Note. O pacote deve aportar no Brasil em 2006, aniversário de 80 anos do maestro.

Os discos só haviam saído nos EUA, onde ele vive há quatro décadas. Moacir se mandou para a "terra da liberdade" não porque estava insatisfeito no Brasil, mas porque é "parte de sua natureza". Desde pequeno, o filho da cidade de Flores, Pernambuco, foi um nômade. "Nunca passei mais de um mês em nenhuma cidade no Nordeste", lembra. Vivia se mudando. Nessas, foi ao Rio para aprender música com o maestro Radamés Gnattali e chegou a ter aula com cinco professores diferentes, um para cada dia da semana. Já nos EUA, para onde seguiu em 1967, Moacir chegou até a trabalhar como ghost-writer de compositores de renome, como Henry Mancini e Lalo Schiffrin.

Em 1997, o compositor de "Nanã" sofreu um derrame e hoje está impossibilitado de compor e de tocar. Mas não parou. Continua produzindo e agora lança Choros e Alegria, seu segundo CD com Zé Nogueira e Mário Adnet – o primeiro foi Ouro Negro, de 2001. Neste novo trabalho, estão composições inéditas, feitas na década de 40, que ele recuperou recentemente, do fundo de sua memória. Trip conversou com o maestro sobre sua trajetória, durante passagem dele pelo Brasil. Leia trechos da entrevista.

Como é para o senhor só agora ter seu talento reconhecido no Brasil?
Penso que as coisas, especialmente as controladas por forças sobrenaturais, só vêm na hora. Penso que foi cabível, o tempo foi exatamente o que tinha que ser. O que está acontecendo hoje já vale por tudo. Porque hoje estou bem para receber.

Que tipo de sentimento o senhor tenta passar na música?
É uma mistura de tudo. Não é nem minha vida, é uma mistura. Chorei muito, agora aprendi a me controlar. Porque tudo é energia. Antes eu assoava o nariz, as lágrimas escorriam, mas agora aprendi a me controlar.

Por que o sr. mudou-se de mala e cuia para os EUA?
Quando ainda era jovem, ouvi falar que [o grande pianista de jazz] Horace Silver havia estado no Rio, na casa do [músico] Sérgio Mendes, e lá teria se encantado com minha composição "Nanã". Eita, eu até me arrepio… E Sérgio disse: "É de um professor nosso". Quando estava em Los Angeles, fui encontrá-lo. Durante um show, depois do intervalo, ele disse: "Senhoras e senhores, quero apresentar um nome, um músico brasileiro que vocês não conhecem, mas vão conhecer". Isso foi uma premonição. Silver era da Blue Note, para a qual acabei trabalhando.

O senhor ainda toca?
Não, por causa do derrame deixei de tocar.

Sente muita falta?
Sim, o piano é o companheiro ideal. Nele tem tudo. Eu sinto falta de tocar, mas no fim é um relaxamento, não posso fazer tudo porque o derrame me acabou…

A Trip deste mês está discutindo liberdade de expressão, respeito aos demais, ética. O senhor já sofreu preconceito?
Felizmente não tenho passado por essas coisas. Só algumas vezes. Em uma delas, encontrei em Recife um rapaz conhecido. Ele estava hospedado no mesmo hotel que eu. Eu não estava fazendo nada, musicalmente. Sugeri de irmos a um clube rico de lá, o Internacional. Ele respondeu: "Você não! Você não, porque é preto!". Pronto, olhei para uma pedra que estava escorando a porta do quarto do hotel e olhei para ele. Tive vontade de quebrar a cabeça dele todinha por causa dessa resposta.

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