por Juliana Cunha
Trip #239

Recomeçar a vida, sob um teto, num famoso hotel dos anos 50, em São Paulo

Um quarto de hotel é o lar mais fixo que Damiana Gregório, 40 anos, teve nos últimos dez anos. Há dois anos, Damiana mora com o marido e dois fi lhos em uma suíte do Lord Palace, hotel inaugurado em 1958, no centro de São Paulo. O cômodo, feito para ser impessoal e transitório, recebeu reforma para incluir uma pia, cozinha improvisada e um armário que faz as vezes de divisória, separando a cama do casal do espaço dos fi lhos. 

O hotel, no número 78 da rua das Palmeiras, foi um dos mais célebres da cidade. Nos anos 60, o quatro estrelas era vizinho da TV Globo, o que lhe rendeu a fama de “hotel dos artistas”, por hospedar muitos atores e atrizes que vinham gravar na emissora. Fechou as portas em 2004, ainda inteiro, as paredes intactas, balcão de recepção, poltronas, lustres, camas feitas, frigobares. Foi nesse ambiente que Damiana se instalou em 2012.

Da arte de recomeçar, a ex-auxiliar de cozinha entende bem. Em 2008, a família morava em um quarto menor que a suíte do Lord em Alta Alegre, uma das mais de 1500 favelas de São Paulo. O aluguel custava R$ 400, um terço da renda da família. Um dia, Damiana viu um terreno ocupado com barracas de lona próximo à escola dos fi lhos e foi perguntar do que se tratava. Quem a recebeu foi Maria do Planalto, ex-diarista e dirigente da FLM (Frente Nacional de Luta por Moradia).

No dia seguinte, Damiana e o marido montaram sua barraca. Moraram ali por nove meses, até sair o pedido de reintegração do terreno. Foram atendidos pela Cohab (Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo), que ofereceu auxílio aluguel de R$ 300 por dois meses e cadastrou as famílias no programa de habitação popular. Quatro meses depois, a moradia não chegava e Damiana seguiu Maria em uma nova ocupação, em um prédio da avenida Ipiranga onde permaneceu por oito meses, até sofrer uma reintegração de posse com intervenção policial. 

De um lado para o outro, e sem conseguir o apartamento popular da Cohab, Damiana juntou-se novamente ao grupo de Maria. Com outras 270 famílias, ocupou o Lord Palace, há dois anos. “O hotel estava lacrado, com um guardinha na frente. Chegamos, a Maria explicou para ele o que era, que erámos muitos, que ninguém ia machucá-lo. Ele abriu a porta para a gente e foi embora”, conta. 

Esses dois anos no Lord são relatados como a época de ouro da família. Hoje, o marido trabalha como estoquista enquanto ela ganha R$ 800 para fazer trabalhos dentro da própria ocupação. Com a contribuição de R$ 150 feita por cada um dos 320 quartos do hotel, os organizadores da ocupação pagam nove moradores para cuidarem dos elevadores, portaria e limpeza das áreas comuns. 

O hotel, que hoje pertence à prefeitura, é alvo de uma disputa judicial que talvez resulte em mais um despejo (e recomeço) para Damiana. A FLM estima que isso possa acontecer por volta de março de 2015. Por enquanto, Damiana vive num hotel. Um prédio que, ele mesmo, se transformou e vem recomeçando.

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