ORÉLIO
Em primeira mão, alguns dos verbetes do 'Dicionário Brasileiro de Quandos', que vai evitar que estrangeiros fiquem pegando no nosso pé quando prometemos algo e não cumprimos
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Por conta do artigo que publiquei há duas semanas sob o título ‘Posso falar?’, vários e-mails bateram em minha caixa, a grande maioria solidária na revolta. O alvo: o insuportável movimento coletivo de adoção de expressões odiosas como ferramentas de linguagem. Um em especial, porém, chamou-me a atenção, pois se pegava numa frase menor do texto, na qual, de passagem, mencionei que expressões como essas visam, mais que tudo, disfarçar ignorância e procrastinação em maior ou menor dose.
De Curitiba, Hélio Silveira Filho encaminha o auto-proclamado (e de autoria não revelada) ‘Dicionário Brasileiro de Quandos’:
Para evitar que estrangeiros fiquem pegando injustamente no nosso pé porque prometemos e não cumprimos, o ‘Dicionário Brasileiro de Quandos’ está sendo minuciosamente compilado (já deveria estar pronto, mas atrasou…).
A seguir, em primeira mão, alguns verbetes:
DEPENDE – Envolve a conjunção de várias incógnitas, todas desfavoráveis. Em situações anormais, pode até significar ‘sim’, embora até hoje tal fenômeno só tenha sido registrado em testes teóricos de laboratório. O mais comum é que signifique diversos pretextos para dizer ‘não’.
JÁ-JÁ – Aos incautos, pode dar a impressão de ser duas vezes mais rápido que ‘já’. Ledo engano, é muito mais lento. ‘Faço já’ significa ‘Passou a ser minha primeira prioridade’, enquanto ‘Faço já-já’ quer dizer apenas: ‘Assim que eu terminar de ler meu jornal, prometo que vou pensar a respeito’.
LOGO – ‘Logo’ é bem mais tempo que ‘dentro em breve’ e muito mais que ‘daqui a pouco’. É tão indeterminado que pode até levar séculos. ‘Logo chegaremos a outras galáxias’. É preciso também tomar cuidado com a frase ‘Mas logo eu?’, que quer dizer ‘Tô fora’.
MÊS QUE VEM – Parece coisa de Primeiro Grau, mas ainda tem estrangeiro que não entendeu. Existem só três tipos de meses: aquele em que estamos agora, os que já passaram e os que ainda estão por vir. Portanto, todos os meses, do próximo até o Apocalipse, são meses ‘que vem’!!!
NO MÁXIMO – Essa é fácil: quer dizer ‘no mínimo’. Exemplo: ‘Entrego em meia hora, no máximo’. Significa que a única certeza é de que a coisa não será entregue antes de meia hora.
PODE DEIXAR – Traduz-se como ‘nunca’.
POR VOLTA – Similar a ‘no máximo’. É uma medida de tempo dilatada, em que o limite inferior é claro, mas o superior é totalmente indefinido. ‘Por volta das 5 horas’ quer dizer ‘a partir das 5 horas’.
SEM FALTA – É uma expressão que só se usa depois do terceiro atraso. Porque, depois do primeiro, deve-se dizer: ‘Fique tranqüilo, que amanhã eu entrego’. E depois do segundo: ‘Relaxa, amanhã estará em sua mesa’. Só aí é que vem o ‘Amanhã, sem falta.’
UM MINUTINHO – É um período de tempo incerto e não sabido,que nada tem a ver com um intervalo de 60 segundos e raramente dura menos que cinco minutos.
VEJA BEM – É o day after do ‘depende’. Significa ‘Viu como pressionar não adianta?’. É utilizado da seguinte maneira:’Mas você não prometeu os cálculos para hoje?’. Resposta: ‘Veja bem…’.
XIIII…. – Se dito neste tom, após a frase: ‘Não vou mais tolerar atrasos, ok?’, exprime dó e piedade por tamanha ignorância sobre nossa cultura.
ZÁS-TRÁS – Palavra em moda até uns 30 anos atrás e que significava ‘ligeireza no cumprimento de uma tarefa, com total eficiência e sem nenhuma desculpa’. Por isso mesmo, caiu em desuso e foi abolida do dicionário.
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