Onde está o Waly?

por Ronaldo Bressane
Trip #170

Na hora de falar de liberdade, poucas pessoas fazem tanta falta quanto Wally Salomão

Cinco anos depois de sua morte, a Trip resgata suas palavras e pensamentos em uma entrevista imaginária, montada a partir do remix de seus melhores depoimentos.

Waly exorbita: “Por aqui tem feito D dias lindos/ Procurar um outro AR/ ALTERAR/ E o meu ser se esgota na procura patológica/ Do que nem sei o que é/ E esse é/ Não há nunca/ Em parte alguma/ Prazer algum/ Mantra mito nenhum/ Que me/ Baste./ ALTERAR”. Mesmo cinco anos após seu desaparecimento – faria 65 agora em setembro –, sua presença verborrágica se revolta e altera a paisagem. Na exposição Babilaques, até 5 de outubro no Sesc Pinheiros/SP, e na cinebiografia sentimental Pan cinema permanente, de Carlos Nader, sua voz reaparece exagerada, incômoda, solar e múltipla. Em breve, poderá ser ouvida/lida em toda a sua polifonia no livro que a editora Azougue prepara reunindo suas entrevistas. Antes disso, e uma vez que, como propõe seu verso famoso, “a memória é uma ilha de edição”, Trip lembra Waly em um cut-up de algumas de suas melhores conversas*. Filho de pai sírio muçulmano e mãe beata sertaneja, Waly nasceu em Jequié (BA), em 1943. Me segura qu’eu vou dar um troço, primeiro livro de poemas, foi lançado em 1971, tornando-o um dos nomes mais conhecidos da contracultura, associado aos tropicalistas Hélio Oiticica e Torquato Neto. Com este, Waly criou a revista Navilouca, marco da poesia de vanguarda. Foi musicado por Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto, Barão Vermelho, entre outros – “Vapor barato”, letra dele e música de Jards Macalé, consagrou-se com Gal Costa e voltou a fazer sucesso nos anos 90 no filme Terra estrangeira e no cover d’O Rappa. Viveu sempre na berlinda dos movimentos culturais dos anos 70, transtornando irreversivelmente, para o bem ou o mal, qualquer lugar por onde passava. Liberdade para ele era desconhecer diferença entre espaços público e privado, entre o que sentia no íntimo e sua curiosidade voraz pelo mundo: “O Waly encarnado em poesia era uma pedra intensamente lapidada para continuar bruta, uma seiva repetidamente filtrada para continuar impura”, explica Nader, que levou 15 anos para concluir o documentário sobre o amigo. Poeta em tempo integral, nas “horas vagas” Waly produzia shows, eventos, escrevia releases, foi diretor de comunicação do AfroReggae, trabalhava no departamento cultural da Mangueira... mas nunca exerceu o direito, sua formação. Embora aparentemente indisciplinado e doido varrido, sua poesia apresenta rara erudição, rigor severo e coerência absoluta com seu projeto de arte=vida. Em 2003, nomeado secretário do Livro por Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura, morreria apenas quatro meses depois, de câncer intestinal. Morreu nada, ou como Waly mesmo escreveu: “O passado pode estar abarrotado de chateações/ mas daqui pra frente ótimas fotos e melhores fi lmes/ e amor e gravidez no bojo do macho/ e horas infi ndas deitado nas areias/ especulando nuvens/ que se esgarçam ao sabor e ao deslize das fi guras [...] O que amas de verdade permanece, o resto é escória [...] Não cortejar a morte [...] mas por enquanto gargalhar da irrealidade da morte./ Gozar, gozar e gozar/ a exuberância órfi ca das coisas/ em riba da terra/ debaixo do céu”.

Como surgiu o poeta Waly Salomão? Sempre tive esse sonho. Na escola primária, pedi à minha mãe um bolo de aniversário em forma de livro. Na adolescência, ia diariamente à biblioteca de Jequié. Tenho cadernos do tempo de adolescente em que fazia pequenas resenhas de filmes e livros. Minha mãe sempre leu muito — ela diz que é uma espécie de ética. Conversava sobre Guerra e paz de Tolstói com os filhos mais velhos, uma irmã e um irmão, como se discute novela de TV, com paixão.

E a música, quando começou a fazer parte de sua vida? Sempre gostei de música; quando viajava para Coroa Azul, além de ler, ouvia a Rádio Nacional. Sei tudo de Lupicínio, de Herivelto Martins, Noel Rosa. Mas produzir foi bastante de supetão. Até hoje não entendo como “Vapor barato” virou sucesso e teve uma espécie de perenidade... Ninguém vai acreditar se eu disser que foi por falta de dinheiro que não impedi Gal Costa de gravar a música pela primeira vez, em um compacto duplo, juntamente com “Sua estupidez”, de Roberto Carlos. Não podia me dar ao luxo de recusar: mas achava a letra subliterata...

Qual a diferença entre ser poeta e letrista? Não equiparo letra de música e poesia. Aliás, sempre tentava um ardil: a letra anteceder à música, numa espécie de altivez do poeta. A afi rmação do escrito, para que alguém – João Bosco, Caetano Veloso, Lulu Santos, Gilberto Gil, Jards Macalé, Moraes Moreira, Adriana Calcanhotto – rebolasse para transformar em música o que eu havia escrito. Sou amigo de Adriana, mas, se faço um D Wg n mdJ r c e G“g b poema e ela me pede e lhe mando, depois prossigo o poema. Em “Fábrica do poema”, de Algaravias, me dizem: “Adriana não musicou esse trecho”. E eu: “Ela musicou o que mandei”. O poema é meu, então prossigo. A música popular tem uma hegemonia grande demais na cultura brasileira.

Mas “toda arte aspira à condição de música”, como disse o ensaísta Walter Pater... Essa frase é insuperável. Supera as aporias e os críticos menores brasileiros, aqueles professorinhos que estabelecem diferenças entre letra e poema. Combati essa idéia no poema “Exterior”, de Lábia. Querem que a poesia escrita seja superior à falada ou cantada, quando a tradição da língua começa com cantar de amigo, cantar de amores... O poeta tem que acreditar que a linguagem que usa é a dona das leis: é a senhora do mundo, das montanhas, das cidades e das matas, não pode se submeter a postulados de professorinhos. O poeta tem que ser o manda-chuva da linguagem. Para isso, tem que trabalhar o triplo de qualquer professor, que só olha horários e a aposentadoria. Não tenho possibilidade de aposentadoria: sou um homem sem profi ssão! Me formei em direito para tornar-me torto daí pra frente. Não tenho onde cair morto...

 

Não dá pra viver de poesia? A maioria das pessoas sente como ofensa comprar livro de poesia. Têm este vício: querem tudo de graça. Parece que o poeta vive de brisa! Um diretor de uma poderosa estatal queria me conhecer porque gostava de minha poesia. Esse engenheiro, simpático e interessante, ficou espantadíssimo em saber que eu tinha dificuldades financeiras... me mandou um e-mail satirizando o fato de o poeta ter que pagar dentista, colégio de filhos... No dia seguinte me ligou e defendi minhas posições num tom bem forte, mantendo a cordialidade: você tem emprego regular, fundo de garantia, tem toda essa rede para se salvar. Eu me formei em direito e, quando minha família pensava abrir escritório, me dar carro, vi que aquilo era uma armadilha para a acomodação. Temi tudo isso e saí da Bahia para o sul, chutando o balde da formação de direito. Eu rompi com isso. Escolhi. Não estou me lamentando, apesar das dificuldades materiais. Não me sinto realizado – mas realizando-me.

Quanto se paga para escrever um livro? O corpo vira cinza para que o fogo habite as páginas do livro.

Como era politicamente nos anos 60? Conhecia os baianos que iam arrasar depois no Rio e em SP? Convivia com eles todos. O Gil eu conheci ainda no Colégio Central, no clássico. Uma colega de classe, Vânia Bastos, fez uma reunião na casa dela e apareceu um garoto gorducho, tocando violão. Era o Gilberto Gil. Isso era em 1961, 62. Éramos uma esquerda marxista-existencialista, porque líamos Marx, Camus, Sartre e Merleau-Ponty, quer dizer, essa encruzilhada de paradoxos. Assisti aos primeiros shows deles, da Bethânia, do Tom Zé...

E a militância? Participei do CPC baiano, com Geraldo Sarno, Capinan, Tom Zé. A gente levava as peças ou na concha acústica do teatro Castro Alves de Salvador ou nas favelas nascentes da cidade, como no Nordeste de Amaralina. Dava aula sobre Marx, organizei também um centro de estudos chamado Antônio Gramsci.

E depois de 1964? O corte foi o mais abrupto possível. Mas foi também quando li Tremor e temor, de Kiekergaard, genial protestante existencialista que contava de repetidos ângulos a história de Abrahão, incumbido por Deus de matar Isaac. Em volta, as pessoas andavam amedrontadas, perdidas. Comecei a olhar outros caminhos. Na vida, se a via fica estreita, você tem de descobrir como seguir.

Que vereda abriu? Decidi vir para o Rio de Janeiro. Era a época em que Caetano já estava explodindo com Alegria, alegria e a gente ficava conversando sobre Clarice Lispector, Guimarães Rosa, cinema novo. Depois Dedé e Caetano me convidaram para ir a São Paulo e acabei indo morar com eles na rua São Luiz. Era o auge do tropicalismo, e vivi lá até eles serem presos. Depois ficava entre Rio e SP. Escrevia coisas que mostrava a todo mundo, mas ninguém lia.

Como foi conviver com os tropicalistas? Uma vez fui carregado daqui do Rio pela Dedé, mulher do Caetano, e Sandra, esposa do Gil, pra uma festa de aniversário do Caetano em São Paulo. Parecia uma cena beat do meu querido Kerouac – que só li em inglês, nunca em traduções. Entramos numa Mercedes que os Veloso tinham, lotada de garrafas de vinho que íamos consumindo pela via Dutra... Passei a noite então no apartamento que Caetano e Dedé tinham em São Paulo em 68, auge da tropicália. E fui testemunha ocular do debate interno da grande riqueza de contradições que o tropicalismo desencadeou. Virávamos a noite discutindo McLuhan, poesia concreta, ayahuasca, Jacobson. Isso num momento quente, em que os acontecimentos importantes espoucavam: tanto os de rua, o 68 paulista dos estudantes, José Dirceu, quanto os programas de TV que a tropicália incendiava, como o antológico Divino maravilhoso da TV Tupi. Atestei a prisão de Caetano no apartamento da São Luiz, a de Gil, do outro lado da praça Caetano de Campos... Também conversava com Torquato Neto, íamos ao cinema na avenida Ipiranga...

E sua experiência em Nova York? Nova York não é a cidade americana típica. Nem pode ser chamada de americana: ela é o summit, o ápice do mundo. E pra mim foi extremamente complexo o aprendizado que fiz por lá. Desde o mais quadrado laboratório da língua na Columbia University às mais abertas experiências sensório-eróticas, das suas ruas e becos... O Hélio já morava lá. Fiquei um ano e meio e tive contato com Allen Ginsberg... pintei o apartamento dele... Conversávamos sobre Cuba, Xangô, Chuang-Tzuo, o poeta chileno Vicente Huidoboro, Kerouac, a CIA, a ditadura brasileira, a vontade dele de vir ao Brasil, mas impossibilidade por conta da ditadura... Tenho vontade de voltar. É enriquecedor, porque quebra a tendência de nossa cultura ibérica ao ensimesmamento.

Bem, 40 anos depois de uma história enviesada, essa mesma geração toma o poder... No dia da posse de Lula, senti que era a primeira vez no Brasil que acontecia um tipo de posse tão alegre e diversificada. Nunca acreditei em “The dream is over”. Sinto-me mais próximo de Shakespeare: “Somos feitos do mesmo material de que são feitos os sonhos”.

O sonho é metodologia desejável para o bom administrador? Eu sou de Virgem. Então muitas vezes a cabeça está nas nuvens e os pés no chão. Quando fui nomeado diretor da Fundação Gregório de Matos, de Salvador, trabalhei pesado. E em algum tempo fui coordenar o Carnaval da Bahia. Minha luta foi defender o Carnaval não como fato turístico e pitoresco, mas cultural. Briguei muito para dar valor aos blocos afros que nasciam: o Olodum, o Ilê Ayê. Sabia que estava ajudando a representação da maior cidade negra fora da África, Salvador. O Carnaval demandava 7 mil pessoas trabalhando sob meu comando, e eu chegava mais cedo que todo mundo, enfrentando os pelegos que me chamavam de estrangeiro...

O seu livro Armarinho de miudezas tem uma visão não edênica da Bahia... Nas minhas tentativas de voltar à Bahia, o paradisíaco se tornou paralisíaco! Sou diferente de outros baianos, que “dulcificam”, enquanto eu cultuo a crueldade de visão de mundo. A axé music enche o saco! Estela de Oxóssi me disse que um dos significados da palavra axé é segredo. E as mães-de-santo, antigamente, falavam essa palavra baixinho, no ouvido da outra. Agora, ela virou uma espécie de símbolo de abre-pernas, da bordelização da Bahia!

Como vê o panorama da poesia brasileira? Sou e sempre fui contra o beletrismo. Você quer uma relação com a tradição que não seja classicizante, que você sinta a tradição próxima: que Bandeira, Drummond, Murilo sejam você, desçam em você como um cavalo desce no candomblé. Se não for assim, é uma forma distanciada, reverencial. Vejo nas interpretações de críticos bacharelescos, nas invencionices de fim de semana dos jornais culturais, tentativas de imposição de dicções poéticas. Minha poesia nasce na contramão! Tento fazer com que a cabeça, o coração e as vísceras não se comprimam numa visão dogmática, pretendo ser o homem dos múltiplos caminhos. Eu amo o que eu não sou: “Tenho fome de me tornar tudo o que não sou”.

E a contracultura, você que foi elemento-chave, como a percebe hoje? Não me considero elemento da contracultura no Brasil, me considero um dos inventores dela. Era uma experiência genuína, mas ao mesmo tempo uma máscara para a gente se movimentar. O que resta daquilo tudo é o sentido da experimentalidade – e é ela que me faz abandonar essa trip. É um capítulo belamente encerrado.

Que leitura você faz hoje do tropicalismo? Eu não me incluo. Reconheço que foi um movimento fecundo, só comparável à Semana de Arte Moderna. Foi como um prato quente, que a gente come e queima a língua. Foi Hélio Oiticica, junto com Rogério Duarte, quem inventou a tropicália. Para Hélio, eu era pós-tropicalista. Pautei minha busca por não gostar de receituários. Nunca me senti dentro da moldura do construtivismo ou da marginália. Sou uma pessoa sem lugar! Gosto de atravessar movimentos. Como absorvedor de Guimarães Rosa, gosto da idéia de travessia.

Como se deu sua estréia, com Me segura qu’eu vou dar um troço? Eu sempre me achei inadequado como escritor. Precisou no início dos anos 70 uma descida do poeta ao inferno. Numa blitz na avenida São Luiz, fui apanhado com uma porção de fumo e nessa casa de detenção, o famigerado Carandiru, eu escrevi o texto “Apontamentos do Pav 2”. O fato de eu ver o sol quadrado foi uma concentração espacial do meu desejo e eu consegui fazer o meu primeiro texto. A prisão virou liberação de forças. Hélio foi o primeiro leitor que tive: deixei com ele essa camada de textos, que parecia mais um rap hip hop, e sumi, porque não tinha pouso certo. Quando liguei depois para ele, me deu um esporro pelo telefone: estava sentado já diagramando aquele texto. Para mim foi algo inusitado, e poucos dias depois levava outros textos para ele. Ele chegou a fazer uma diagramação inteira do Me segura... que, desastrosamente, desapareceu na ditadura. O exército invadiu o apartamento do irmão de Rogério Duarte e levou o projeto gráfico com material subversivo. Hélio fazia uma diagramação geométrica cuboconstrutivista e aquilo para os militares imbecis era como uma linguagem cifrada. Sumiu definitivamente. Isso foi um desastre de proporções incalculáveis. Não há lembrança física disso, a não ser o que produziu em mim de propulsão. Foi uma injeção de energia num ponto de desespero da minha viagem ao fundo da noite. Aí pensei naquele poema do Drummond que diz que “de tudo resta um pouco”.A entropia é maior do que a saudade. De muitas coisas não resta nada, nem pó de traque.

E como foi sua relação com o experimentalismo mais racionalista? Na época dos “Apontamentos do Pav 2”, vivia nas hippielândias da vida, e, no nível de porra-louquice daquelas pessoas, ninguém conseguia ler o que eu produzia no meu caderno. E a Lygia Clark me disse que poucas vezes ela tinha visto no Brasil um texto tão denso. Nossas relações de troca começaram assim. Isso me vacinou contra qualquer retorno ao construtivismo mais ortodoxo. Se houvesse um Soyuz ou outro satélite que pudesse detectar no Brasil sinais de poesia, iria captar Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari. Eu nunca caí na doença infantil dos meninos cariocas que foram de uma extrema agressividade contra o concretismo.

A que você atribui essa imagem de expoente da tropicália, alguém que agitou na década de 70 com versos fragmentados, enquanto na verdade é um sujeito erudito? Essa questão só perderá a obscuridade com a minha morte. Enquanto eu estiver vivo, desencadearei competições. Sou uma pessoa muito viva. Eu incomodo de vida o que está parado! Por exemplo, eu rompi com o desbunde. Não aceitava esse tipo de gramática, para que seja reconhecido meu lado prospectivo, uma pessoa que está sempre curiosa. Agora, se isso não é visto por setores outros, não é tarefa minha. No dia em que eu estiver morto serão muito fáceis as louvações... É um componente muito forte da cultura brasileira, permanente e invariavelmente necrófi la. Aliás, tem uma música genial de Nelson Cavaquinho que diz “Quem quiser fazer por mim que faça agora”. Essa música tem o título sintomático de “Quando eu me chamar saudade”, texto daquelas lápides de cemitério. Quem está vivo, rebolando, difícil de captar em esquemas enferrujados, tem que agüentar a barra que escolheu. Se você, no Brasil, não tiver fôlego, que saia logo da raia!

“Waly foi um dos maiores amigos que já tive. Durante muitos anos, falávamo-nos diariamente, sobre todos os assuntos. Falávamos de tudo: poesia, política, amigos, fait divers. Quando um de nós terminava de escrever um poema, ligava para o outro, para mostrá-lo. Waly tinha um senso de humor ímpar. Ríamos muito. Conheci-o quando regressei de Londres, onde morei três anos, entre 1969 e 1972. Acho que foi em 1973. Antes de conhecê-lo pessoalmente, eu já o admirava, pois gostava muito do disco Fatal, do show de Gal Costa que ele havia dirigido e das canções dele e de Macalé que Gal cantava nesse show.

Vi-o pela primeira vez no apartamento da Gal, não me lembro mais em que ocasião. Lembro que estávamos na sala eu, Caetano, Dedé, Duda Machado, Susana Moraes, dona Mariah – mãe de Gal – e várias outras pessoas. Súbito apareceu Waly, vindo de outro aposento, ou talvez do banheiro, e, sem cumprimentar ninguém, declarou, muito sério, com sua voz megafônica, que iria recitar sua última produção poética. Todos nós nos calamos para ouvi-lo. Começou então a dizer um poema nada típico dele: pois Waly era um poeta agressivo, um poeta entre a vanguarda e a marginalidade, e o poema que estava recitando era um soneto que falava de temas bucólicos, de flores etc. Era engraçado, pois não combinava com ele nem com o tom em que recitava, mas ninguém ousava rir. Lembro-me de que Caetano e eu nos entreolhamos, sem saber o que pensar. De repente, dona Mariah, que era uma senhora muito distinta, que mais tarde veio a escrever um livro de memórias muito bonito, e que tinha uma voz grave e forte, partiu para cima dele, vermelha, com o dedo em riste: ‘Plagiador! Ladrão! Esse poema é meu, você o roubou!’. O Waly tinha se trancado no banheiro com um caderno de poemas de dona Mariah e decorado um poema, apenas para fazer aquela cena teatral.” (Antonio Cicero, poeta e filósofo)

“Susana Moraes me levou ao apartamento dele. Foi ótimo, mas na verdade lembro bem mais do meu deslumbramento com a biblioteca de estantes de ferro vermelhas e livros e mais livros inacreditáveis, todos ao alcance da mão, do que dele. Ele não parecia naquele primeiro encontro ser o mesmo dos poemas e das canções que eu conhecia. Comentou que tinha assistido a um show onde eu, em dado momento, toureava o guitarrista. Ele falou que havia achado engraçado, que as cantoras em geral não se predispõem muito a esse tipo de macaquice... mas meu olho estava varrendo as lombadas... Ele tinha uma doçura violenta. Acho, e cada vez mais, que ele sabia, ou havia determinado, não sei, que não viveria muito, que não ficaria velhinho. Então, tinha pressa. Não acreditava muito na sabedoria em termos de acúmulo de tempo, queria a sabedoria do instante-já, de que falava tanto Clarice quanto Lygia Clark, para falar de dois de seus amores. Foi estúpido, injusto e cruel comigo tanto quanto foi amoroso, generoso e protetor. E tudo numa mesma tarde. Ou numa sessão de estúdio. Num jantar em minha casa, num telefonema, num camarim, onde quer que fosse. Desligava o telefone na minha cara, me vendeu para um motorista de táxi paquistanês em Nova York, fazia coisas que só podia fazer porque era ele, coisas que eu jamais admitiria, vindas de qualquer outra pessoa, mesmo muito amada. Vivemos momentos incríveis, difíceis de descrever...” (Adriana Calcanhotto, cantora e compositora)

“Em 1965, quando conheci [o poeta] Torquato [Neto], Waly já era amigo dele e dos baianos, então não foi difícil virar tudo a mesma turma. A primeira música que fizemos foi justamente ‘Vapor barato’. Era 1968, ele trouxe a letra, eu musiquei. Waly tinha sido preso no Carandiru, essa foi uma inspiração... usávamos aquelas roupas, éramos hippies, malvistos pelas pessoas – Waly pegou aquele sentimento, aquela vontade de partir, ‘estou tão cansado’, e colocou na letra. Lembro que ele sempre chegava em casa aos berros. Morou um tempo aqui – eu tinha uma casa que centralizava o povo, em Ipanema, Bethânia fi cou em casa, Gal, Waly, Caetano, Duda, Torquato, todos com 20 pra 25 anos. A gente trabalhava muito, era uma compulsão: desse dinheiro ou não porque Deus não rima com dinheiro. Se eu fosse defi nir o Waly? Difícil... Ah, pra um extraterrestre? Diria ‘Olhaí o seu irmão!’” (Jards Macalé, cantor e compositor)

“Éramos sete. Como minha diferença com ele eram dois anos, a gente era inseparável. Nossa casa sempre foi muito aberta, havia muitos sírio-libaneses na região de Ilhéus, onde ficava nossa cidade, Jequié. Me lembro sempre de muita gente em casa, que era de frente pro mar. Waly e eu brincávamos de teatro em casa, era um ambiente de extrema liberdade, de muito deboche e anarquia. Líamos muito, com 10 anos já tínhamos lido todo o romanceiro nordestino, e gostávamos de sair na rua com um livro à mostra, como se fosse um outdoor. Com a morte do pai, que tinha uma loja de tecidos, ficou um buraco, mas nossa mãe segurou a pemba. Depois, com uns 14 anos, fomos para Salvador – Waly partiu antes. Quando cheguei, ele já era amigo de Caetano. Coincidência, fui morar na casa da mãe do Glauber Rocha, então você vê que tudo estava fadado a acontecer entre nós. Fomos companheiros solidários na avença e na desavença, se eu estava bravo ele acabava me matando de rir, dava trote em casa, imitando vozes de amigos... Tínhamos uma unidade enjoada, muitas vezes não nos falávamos, brigávamos... Foi uma paixão dolorida entre os irmãos, minha mãe sempre era o fiel da balança. Ele tinha um jeito fantástico de mudar os ambientes, era cheio de invenções rápidas. Em seguida veio o Verão do Píer, 1972, um ano mágico que se passou por um buraco da agulha guiando outros sóis – foi Waly quem deu o nome de Dunas do Barato ao lugar onde ficávamos, no Posto 9. Era uma coisa psicodélica, muito ácido, muita maconha... Nos anos 70, vivíamos de casa em casa, nômades. Até que ele fez o show da Gal, Todo vapor, e eu o primeiro show do Gonzaguinha, e nos estabelecemos. Mesmo assim, em 1974 ele foi preso, aí eu fui tirá-lo, e, quando o preso fui eu, ele é quem veio em meu socorro. Eu ainda não acredito que Waly morreu. Só fui chorá-lo quatro meses depois de sua morte, saiu uma lágrima assim do tamanho de uma laranja.” (Jorge Salomão, irmão de Waly, poeta e agitador cultural)

*Esta edição tomou como base entrevistas a Matinas Suzuki Jr. (Folha de S.Paulo), Heloísa Buarque de Hollanda (Jornal do Brasil), Sandra Medeiros (Ímã), Leda Miranda Hühne (Poesia Viva em Revista), Adolfo Montejo Navas (Cult), entre inúmeros outros depoimentos do poeta. Agradecimentos: Marta Braga e Omar Salomão

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