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Olivetto e o leão

Ainda mais forte

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Faço parte da multidão que torcia diariamente, ainda que meio desnorteada pela falta de notícias, pela libertação de Washington Olivetto.
À parte a solidariedade humana que se manifesta entre as pessoas, sempre que um semelhante é submetido a privações insuportáveis, foi curioso ver como as pessoas se comportaram diante desse seqüestro. Seja pelas lembranças da Democracia Corinthiana , pelas mulheres que até hoje se sentem homenageadas pelo ‘primeiro sutiã’, ou pela celebração à imperfeição e à humildade retratada ao longo de anos pela série de anúncios de Bom Bril, aparentemente materializou-se e tomou contornos o carinho que habitava meio confuso e deformado o inconsciente coletivo dos paulistanos.
Washington vai gostar de saber disso. Muito mais que as dezenas de cartas e bilhetes de gente famosa que decoram algumas paredes de sua casa, ou os prêmios que empilha numa espécie de vitrine depósito em sua agência, Olivetto descobriu que coleciona em muito maior quantidade e intensidade o amor de seus concidadãos. Não há em Cannes, em Nova Iorque ou Mallorca, algo que sequer se pareça com essa sensação de fazer falta a uma comunidade.

No dia em que Olivetto foi seqüestrado, por volta de uma da tarde, recebi um telefonema dele. Reclamava da agenda cheia de compromissos profissionais, reuniões, jantares de negócios, etc… , que ameaçava suas chances de comparecer à festa de quinze anos da TRIP. Me disse que mesmo assim, tentaria dar uma escapada, e aparecer por lá.
Soube do seqüestro em plena festa, através de um de seus sócios.

O Corpo

Desde o começo, me tomou o pensamento, a certeza de que Washington havia passado a vida desenvolvendo sua educação intelectual, deixando aparentemente meio de lado, desde os longínquos tempos em que jogou basquete, a educação física.
Temia que sua vida dedicada cem por cento a imagens, livros, filmes, reuniões, debates, fosse cobrar um preço alto, quando a resistência do corpo se tornasse o ativo mais necessário.

Gigantes acostumados à dureza dos tatames de jiu jitsu ou a séries intermináveis de esforços musculares em academias, foram vistos pela televisão, chorando como bebês, em função da ‘solidão’ do ‘confinamento’ em uma mansão com piscina, refeições variadas e ricas, edredons fofos, aparelhos de ginástica, milk shakes, banhos de sol, e a companhia de uma dezena de semelhantes, inclusive do sexo oposto.

Preso num cubículo de compensado, também forrado de câmeras, comendo restos, privado de luz solar, ouvindo música à revelia 24 horas por dia, ameaçado por revólveres, imaginando que cada hora poderia ser sua última, e , o que dizem , é o pior, privado dos cigarros, o que todo dependente químico sabe, gera crises de abstinência insuportáveis, Washington ganhou outro prêmio que jamais receberia em uma cerimônia do Clio: a descoberta de uma outra forma de talento que provavelmente nunca sonhou ter. Uma força descomunal.
Para conhecê-la, teve , provavelmente, de descobrir partes de seu corpo, e muito especialmente de sua cabeça, entrando em contato, decodificando e administrando sentimentos de dor, de amor, de fé, e tantos outros que talvez nem imaginasse existirem, e que a maioria de nós nem venha a conhecer.

Washington , agora sim, mostrou o que é ser um Leão da propaganda.

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