A ONG Mestres da Obra transforma operários em artistas e canteiros de obra em ateliês

Transformar operários da construção civil em artistas e canteiros de obra em ateliês é o trabalho da ONG Mestres da Obra, que já atendeu 1.200 trabalhadores

 


O capacete branco de operário da construção civil pode ganhar o adorno de uma coroa de espinhos. A luva de proteção se torna uma mão invisível, que manipula os trabalhadores. A bota pode ser de concreto maciço, remetendo aos pés exaustos ao fim de uma jornada. Todas essas obras foram resultado da passagem da organização não governamental Mestres da Obra pela vida do paraibano Antonio Hermínio do Nascimento, que passou a ver canteiros como ateliês. Na paleta de cores, o predomínio do cinza e do marrom, mas as tintas são substituídas pelo pó dos tijolos e os materiais são os mesmos que erguem prédios.

 

A ONG foi criada há oito anos por um administrador e um arquiteto preocupados em melhorar o ambiente de trabalho desse pessoal. A ideia é promover ações de saúde, educação e cultura no trabalho. E é aí que aparece o Ateliê Escola, ação da qual Hermínio fez parte. A ideia é simples: instalar oficinas de arte dentro de grandes obras, tentando dar aos operários uma nova visão de seu trabalho. “A iniciativa diminui o estresse e melhora o convívio entre eles”, diz Angela da Pugliese, diretora da Mestres da Obra. “Ainda aumenta a autoestima e é uma válvula de escape. O lápis de cor dos filhos passa a ser visto de outra maneira. E, do ônibus, ele vê o grafite de outra forma.”

TUDO É ARTE
Depois de fechar um acordo com a construtora responsável pela obra, a entidade instala os ateliês, que ficam um ano no canteiro. Cada rodada de oficinas dura de dois a três meses, com turmas de cerca de dez trabalhadores – 1.200 operários já participaram. As obras, expostas na galeria da ONG, no centro de São Paulo, já fizeram parte de diversas exposições, inclusive fora do Brasil.

Gildavi Pereira dos Santos, de 28 anos, é outro beneficiado. Antes de imigrar para São Paulo, Davi, como é conhecido, fazia artesanato de madeira em sua cidade natal, Planalto, na Bahia. Logo que chegou à metrópole, trabalhou como funileiro, mas logo entrou na construção civil. No canteiro reencontrou o artesanato, via oficinas do ateliê. Para ele, arte e construção têm muito em comum. Tanto que sua peça preferida mistura ambas: é uma maquete da casa de seu pai, na Bahia.

O alagoano Luís Alves da Silva, colega de Davi, é outro com olhar calibrado para o potencial criativo dos resíduos. “Tudo pode ser arte. Dá pra aproveitar muito material que tá perdido por aí.” Carpinteiro de ofício, Silva opera a serra num grande canteiro paulistano. Diariamente, recolhe restos de madeira da construção para produzir banquinhos e brinquedos. A partir deles, criou também um abajur, trabalho de que mais se orgulha, por ter sido marceneiro, carpinteiro, eletricista e artista em uma só obra. O potiguar Rodrigo Gonçalves da Silva, há apenas três anos na construção civil paulistana, já ajudou a construir dez prédios. Aos 26 anos, resume o espírito da coisa: “A cidade é nossa maior obra de arte”.

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