Oasis Seco
Um olhar curto, grosso e sem nada de álcool sobre o show dos irmãos Gallagher na Argentina
Por Redação
em 15 de março de 2006
Texto e fotos por Endrigo Chiri Braz
Faltam 12 minutos para as 21 horas, horário local de Buenos Aires. Entro num táxi e falo: “Toca pro Uemura!” Quer dizer: “Me voy al Campo Argentino de Pólo. Apurate, por favor”. Em seguida me explico: “Lo que pasa es que los británicos son puntuales”. “Los alemanes también”, completa o motorista. “Nosotros latinos que vivemos atrasados”. Tenho que concordar.
O convite marca o recital para as 21h. “Os irmãos chatinhos não vão dar brecha”, penso comigo. Nove em ponto eu salto da barca amarela e preta e me deparo com uma fila dupla que fecha o quarteirão inteiro. “Puta Madre”.
Faço cara de poucos amigos (estava sem nenhum mesmo) e furo sem problemas. Ante ao segurança já fui sacando a mochila para a revista. O sujeito não esboça nenhuma reação. Sequer olha se eu tinha um berro debaixo do boné ou uma garrafa de 51 nas costas.
“Que raro no”. Entro liso. Todavia, estou limpo.
Primeira surpresa: ninguém no palco e já eram 21h15. Segunda surpresa – esta bem desagradável: nada de álcool nas geladeiras. “¿Cómo?”, indago estupefato. “No hay alcohol para vender acá.” “¿En serio?”, retruco, tenso. “No. Nada. En parte alguna”.
Graças a Jah que eu tomei uma dose de uísque na janta. O oásis está seco. Fico pensando se o Liam Gallagher sabe que sua audiência vai ficar só na brisa…
Como um bom beberrão inglês – vide que, mais tarde, ele dedica a música “Cigarettes & Alcohol” ao Maradona –, creio que ele se recusaria a subir no palco. Eu não subiria.
Nove e meia e nada. Um gordo empunha o microfone: “Cómo hay mucha gente en la cola, afuera, el recital se va a empezar a las 21:45 hs. Gracias”.
Mesmo quando perdem a hora, os britânicos dão um jeito de serem pontuais.
Sem Suporte Técnico
Sem porro, sem amigos e sem drinks. Trato de me coçar. A multidão de jovens seca ainda mais suas gargantas numa fumantita desenfreada. Isso que dá. Sem bebida e sem revista. Cerveja não, mas maconha… dale. Vai entender.
Soam os primeiros acordes de “Turn Up The Sun”. Que alegria. Que ovação. Euforia sem limites. A massa se comporta como num show de punk, com direito a neguinho nadando no mar de 45 mil cabeças. Eu não sou exatamente um discípulo dos Gallagher, não tenho nenhum disco, mas sempre que os ouvi foi em momentos especiais, o que faz com que eles ganhem um peso extra.
Ao fim da segunda música, “Lyla”, o gordo volta ao palco, dá um chega para lá no magrela do Liam e emenda: “Por favor, se quedan más tranquilos pibes, para no haber molestias, por favor”.
É o Efeito Cromañon, depois da tragédia do dia 30 de dezembro de 2004, na qual 194 jovens morreram asfixiados devido a um incêndio durante um show da banda Callejeros. Porque as saídas de emergência da balada Cromañon estavam trancadas… Desde então, se divertir em Buenos Aires é cada vez menos divertido…
Enfim. Voltemos ao recital.
Brokeback Mountain
É indiscutível que a banda é boa pra caralho. Soa impecable no palco, tão bem que parece o disco, o que nem sempre é vantagem. O show foi completo. Tocaram músicas de todos os discos (imagino eu), com direito aos hits que já devem estar de pelotas llenas de tocar.
“This is for the lovely ladies”, diz Noel, antes de entoar “Wonderwall”,
que vem seguida de “Champagne Supernova”. Para mim, faltam umas pirações, uns improvisos, umas inovações. Interação mesmo. Enquanto Noel tem um humor inglês que cativa – um tênis voa para o palco, ele pega e diz: “Oh, It’s Adidas. I prefer Nike. Shit!” –, o frontman Liam é aquele tipo de cara que já nasceu chato. Para piorar, ele acha legal ser chato.
Até dou um desconto. Ele sofre da Síndrome do Irmão Caçula. O mais novo quer ter razão, dar ordem, fazer exigências. Não consegue. O mais velho sempre tem razão. Esse conflito é comum em toda família. No caso deles, integrantes da maior banda de britpop da última década, isso ganha proporção. E Noel é o compositor e comandante da barca desde sempre. A saída de Liam é ser o pentelho.
Parece que, nas poucas vezes em que ele fala com o público, faz questão de usar o inglês mais encardido possível. A massa não entende nada e não se manifesta. Para completar, as poucas músicas que Noel canta são as que mais fazem a cabeça da rapaziada. Dos ejemplos: “Wonderwall” e “Mucky Fingers”. O jeito é ser chatinho, rebelde – e atrair marketing.
Mas dá gosto de ver Zak Starkey à bateria, acompanhado de toda a carga rítmica de um DNA da estirpe de Ringo Starr. É verdade, o nariz deixa a desejar, mas a concisão, o bate-seco e a precisão fazem jus ao pai de todos os bateristas.
Depois de uma saída rápida e estratégica para a galera pedir una más, o Oasis volta ao escenario, toca “Rock and Roll Star”, primeira música do primeiro disco, e finaliza com a pertinente “My Generation”, do The Who.
É aí que Liam resolve interagir de verdade. Durante as distorções de guitarra, viradas de bateria e chapações em geral, que põem um ponto final em todo show de rock que se preze, Liam sai de trás do microfone com seu terninho branco, vai à beira do palco, se posta como um cowboy, segura a fivela do cinto com as duas mãos, faz cara de “vem-cá-meu-puto” e fica encarando a audiência por minutos a fio.
O mulheril juvenil deita os cabelos. Eu continuo achando ele um penderro, apesar dos belos dotes como cantante.
(O Oasis toca hoje, quarta, em São Paulo, no estacionamento do Credcard Hall. O convite marca 21 horas. Mas pode chegar um pouco atrasado.)
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