por Marcello Roichman
Trip #206

Com as pernas amputadas, Ítalo Romano enfrentou a megarrampa de Bob Burnquist

Com duas pernas amputadas e determinação de sobra, Ítalo Romano enfrentou (e venceu) os 27 metros de altura da megarrampa de Bob Burnquist, provando que limites foram feitos para serem quebrados

 

“Será que ele vai mesmo?” Não deu nem tempo de repetir a pergunta e, quando eu vi, ele já tinha ido. Nessa primeira tentativa, Ítalo acabou hesitando e colocou as mãos na pista, tentando frear. O gesto acabou por arremessá-lo direto no vão central entre as duas enormes estruturas da megarrampa. A rede de proteção funcionou, e Ítalo ficou lá pendurado, para alegria de Bob Burnquist – ninguém nunca tinha caído ali, foi o primeiro teste prático do equipamento de segurança. Ítalo queria tentar de novo. Na segunda vez ele não freou e passou voando pelo vão, deixando todo mundo enlouquecido. Mas na hora do pouso largou o skate e desceu deslizando, se apoiando com as mãos. Aquilo já tinha sido incrível, afinal o cara desceu de uma montanha, saltou, voou três carros na nossa frente e ainda estava vivo! Mas Ítalo queria completar o salto em cima do skate. Terceira tentativa e mais uma queda na rede do vão. Na quarta descida, aconteceu. Ítalo voou e pousou perfeito no skate, causando uma histeria coletiva.
A reação não era pra menos. Estamos falando de um rapaz com as duas pernas amputadas que tinha acabado de encarar e vencer bem na nossa frente um dos maiores desafios mundiais do universo do skate. Muito skatista veterano já desistiu na hora em que chegou no alto dos 27 metros e viu pela frente o descidão da megarrampa construída no quintal da casa de Burnquist em San Diego, na Califórnia.

COMO TUDO COMEÇOU
Faz alguns anos estamos atrás de uma boa pauta de skate para o Caldeirão do Huck, afinal, dois dos maiores ícones mundiais são brasileiros: Burnquist e Sandro Dias, o Mineirinho. Luciano Huck e Burnquist se falaram algumas vezes em busca dessa história, até que um dia o Esporte espetacular revelou a história de Ítalo Romano, skatista sem pernas que conseguiu a façanha de se tornar campeão paranaense amador competindo com atletas que têm as pernas. Alguém da nossa equipe mandou: “Vamos levar esse cara pra saltar na megarrampa da casa do Bob lá na Califórnia!”. “Ah, tá! A gente vai matar o moleque e depois vai todo mundo preso!”, pensei. Mas quem teve a ideia foi Palito, diretor-geral do Caldeirão, e Huck se empolgou. Seguimos em frente com a pauta.

Ligamos para o Bob para perguntar se isso era possível. Ele disse que fisicamente era, já que dropar a megarrampa depende muito da atitude do skatista. Ele contou que muitos profissionais calejados já chegaram lá e amarelaram, falaram que estavam com dor de barriga, que esqueceram algum compromisso... Mas, segundo ele avisou naquele momento, se Ítalo tivesse coragem e soubesse controlar bem a velocidade, chegaria do outro lado.
Partimos então para Curitiba, em busca do atleta. O rapaz de 21 anos mora numa pequena casa na Vila Jacira com duas irmãs – Isadora e Isabela – e com a mãe, dona Neli. Perdeu as pernas aos 11 anos, quando foi acampar com uns amigos e, durante a viagem, teve a ideia de pegar carona na rabeira de um trem. Se desequilibrou e foi parar debaixo do vagão, que esmagou suas duas pernas, não deixando outra opção senão amputá-las. O acidente terrível, segundo o próprio, teve pelo menos uma espécie de lado bom: naquele momento, ainda um pré-adolescente, já estava “se envolvendo com marginais”, e em sua avaliação poderia facilmente ter virado mão de obra do tráfico de drogas.

Aos 12 anos o esporte entrou na sua vida. Começou no skate após ler uma matéria em uma revista sobre o skatista profissional sem pernas Og de Souza. Foi a inspiração que faltava. Abandonou a cadeira de rodas e decidiu que a pranchinha o levaria para todos os lugares. Treinou dia e noite, começou a competir e a ganhar campeonatos. Tornou-se o orgulho do bairro, os vizinhos pintaram até um retrato dele na rampa que fica perto de sua casa.
HERÓI DE RODINHAS
Durante nossa pesquisa para a matéria encontramos Íris, uma menina de 7 anos que também não pode andar, mas que aprendeu a encarar a dificuldade da forma mais natural possível. Íris nasceu com amiotrofia espinhal, doença genética sem cura que atrofia a musculatura, prejudicando reflexos e causando perda de força muscular. Ricardo “Porva”, pai da Íris, é skatista profissional, já ganhou uma etapa do circuito mundial na República Tcheca e patrocinava Ítalo na época em que descobriu a doença da filha. Não deu outra: nosso atleta acabou se transformando num herói para a garota e lhe deu força para superar limites. E não foram poucos. Uma médica chegou a falar para os pais que a menina não chegaria aos 5 anos. Hoje, aos 7, Íris tem energia, disposição e uma alegria que deixaram claro que tínhamos que levá-la à Califórnia para testemunhar o desafio.

NADA DE DISNEY
Ao receber de Luciano Huck o convite para ir aos Estados Unidos dropar a megarrampa na casa de Bob Burnquist, Ítalo aceitou na hora. Durante a viagem ele se virava sozinho pra tudo, dispensava assistência e até ficava ofendido se alguém oferecia ajuda. Lida com sua situação de uma forma leve, bem-humorada até. “Essa é uma matéria sem pé nem cabeça”, brincava. Chegamos a San Diego três dias antes da data marcada para o salto e fui com nosso produtor e também skatista Akira Matsui na casa do Bob ver de perto a tal megarrampa. Na minha cabeça seria alguma coisa tipo Disney, equipada, com manual de instruções, cheia de itens de segurança... Quando cheguei lá vi que era uma rampa de madeira gigantesca no quintal da casa do cara, no meio do mato, com um vão central em que cabiam uns três carros. E nosso personagem sem pernas ia ter que saltar aquilo e pousar do outro lado numa outra rampa menor – mas também enorme. A única palavra que vinha na minha cabeça era: “FODEU!” (maiúscula, assim mesmo!).
Acertamos todos os detalhes com o Bob – mais um maluco pro time. Combinamos de colocar um colchão inflável no fim da rampa e providenciamos uma equipe médica com ambulância para ficar lá de plantão. De volta ao hotel, encontramos com o Ítalo, que não tinha ido, e ele perguntou: “Como foi lá?”. E eu: “Tranquilo!”. No dia do salto, Bob recebeu nosso personagem em casa e mostrou suas rampas e a coleção de troféus. O moleque pirou ao ver de perto tudo aquilo que devorava nos vídeos de skate. Agora é que ele não ia amarelar mesmo! Com o skate novo que ganhou de Bob e cheio de proteções, Ítalo foi ao encontro de seu desafio. Era o menino sem pernas contra a rampa tamanho montanha. No fim da pista uma motivação extra, a fofíssima Íris com um cartaz de apoio que ela mesma fez com os dizeres: “Ítalo, você é o meu herói!”. O resultado não podia ser outro a não ser o lindo momento que abriu este texto.
*Marcello Roichman é autor-roteirista do Caldeirão do Huck

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