por Mauricio Stycer
Trip #222

A análise do jornalista que, mesmo levando pedradas on-line, mantém a curiosidade de dialogar com os leitores

Parece haver consenso entre quem reflete sobre mídia de que o baixo nível dos comentários em blogs e sites de notícias constitui um obstáculo sério ao estabelecimento da internet como um espaço com credibilidade comparada à dos jornais e revistas. Na tentativa de atenuar o problema, diferentes esforços têm sido feitos, desde o cadastramento de usuários até, simplesmente, o fechamento da caixa de comentários.

Há quase cinco anos escrevo em grandes portais. Depois de um choque inicial, aprendi algumas coisas. Primeiro: o leitor que me ofende está escrevendo sobre uma imagem projetada que faz de mim. Não me conhece, assim como eu não o conheço. Esse entendimento faz com que eu não sinta nada, absolutamente, com palavras agressivas dirigidas a mim. Aprovo todas, com exceção das que a minha mãe não gostaria de ouvir.

Segundo: em respeito a quem está interessado em discutir o que eu escrevo, mesmo que seja para me ofender, não autorizo comentários que tenham o objetivo consciente de alterar o rumo das discussões. Chamo esse leitor de O Contrabandista, sempre interessado em introduzir algum veneno e levar a discussão para outro assunto.

No esforço de entender quem se dá ao trabalho de comentar em blogs, desenvolvi uma série, chamada “Tipos de leitor”. Já escrevi quase duas dezenas de pequenos perfis sobre O Especialista, O Talifã, O Íntimo, entre outros, cujos títulos já são eloquentes o suficiente para quem acompanha o assunto.

Apesar da ironia de alguns perfis, meu foco é, de fato, tentar entender esse mundo. Vejo algum preconceito em tachar a confusão reinante na caixa de comentários de blogs como “chorume”. Chamar de lixo tóxico o que se produz nesses ambientes não ajuda a compreender o que se passa.

Certa vez, leitores enxergaram uma (inexistente) ofensa ao espiritismo numa crítica que fiz ao filme Nosso Lar e deram início, dentro da caixa de comentários, a um movimento pela minha demissão do UOL. Se eu tivesse bloqueado esses comentários, creio, teria encoberto uma visão sobre a intolerância.

Protegido pelo anonimato ou por um nome falso, o leitor entende que o seu comentário tem a força de fazer justiça. É chocante? É. É vulgar? É. Mas o que isso significa? Há quem entenda que essa gritaria em blogs é sinal de uma decadência irreversível. Não sou tão pessimista.

Ainda que me assuste com a reação violenta que, às vezes, uma simples crítica de televisão produz, não perdi a curiosidade de dialogar com o leitor. E não vejo outro jeito de fazer isso do que deixá-lo falar o que quiser.

*Mauricio Stycer é repórter e crítico do portal UOL
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