por Kátia Lessa
Trip #186

Conheça a história de quatro músicos que quase fizeram parte de grandes bandas nacionais

Eles saltaram fora um passo antes de tocar para multidões. Conheça a história de quatro músicos que quase fizeram parte de grandes bandas nacionais e deixaram de viver o sonho do sexo, drogas e rock ’n’ roll. Mas não se arrependeram

“Velho... Eu vou sair da banda.” Foi com essa frase, em uma tarde do fim de 1988, que Jairo Guedez revelou o motivo da convocação da trupe com a qual tocava para uma reunião em seu quarto, em Belo Horizonte. Não teve bate-boca, não teve gritaria. Mas os cabeludos não seguraram as lágrimas. “Eu chorei, o Paulo chorou, o Max dizia que eu tinha que pensar mais”, conta. Nunca voltou atrás. Jairo era guitarrista da formação inicial do Sepultura. Na época, a banda finalizava seu terceiro CD, Schizophrenia. “Eu era um pouquinho mais velho que os caras. Casei com 16 anos, e eles eram mais moleques. Queria mais tempo para minha vida, e eles precisavam de alguém focado na banda. O timing estava errado, mas nossa relação sempre foi tranquila”, conta. “Não tínhamos um puto no bolso, o Igor me pedia moeda pra comprar pirulito. Uma vez, tocamos em Americana, e o produtor sumiu com a grana. Voltamos escondidos entre vagões do trem. Era divertido, mas não era fácil.”

Jairo não estava lá quando o Sepultura tocou com Ozzy, Kiss, AC/DC, Metallica. Não recebeu atrizes pornôs em seu camarim, não vendeu 100 milhões de discos, mas seguiu em frente. Montou uma banda de covers com o irmão, depois participou das bandas The Mist, Eminence e Overdose. “A grande dor não é ter perdido grana, festas, mulheres, fama. Sinto saudade dos caras, de viajar com eles, de jogar conversa fora no camarim, de cruzar o João Gordo contando piada em um festival”, lamenta.

Bloco do eu sozinho

“Foi uma saída conturbada. Rolou bate-boca mesmo”, lembra Patrick Laplan. Apesar de fazer um som bem diferente do estilo que os consagrou (eram hardcore), o Los Hermanos já tinha o hábito de se refugiar em um sítio para compor. E foi durante a pré-produção do segundo CD que o grupo enquadrou o baixista. “Já existia algum atrito, mas a decisão final foi deles. No começo tocávamos para 30 pessoas e, do nada, fazíamos 26 shows por mês, uma loucura. O tipo de trabalho e a forma como eles trabalham não era a minha”, analisa. “Batemos boca, eu vi que estava fora, peguei minhas coisas e viajei de volta para o Rio. Vinte dias depois já tocava no Biquíni Cavadão, onde fiquei por sete anos, antes de integrar o Rodox e, hoje minha nova banda, o Skimo”.

Patrick não levou a amizade com os integrantes adiante, mas também não carrega mágoas: “De peito aberto, afirmo que nunca me arrependi. Acho que minha passagem pela banda acrescentou psicodelia ao som deles. Marcelo escutava Pearl Jam, Bon Jovi. Musicalmente éramos diferentes, mas quando o filho é adotado fica mais bonito, né? Ao entrar pra banda comprei a ideia”, ironiza. “Não sofri com o sucesso deles. Uma vez uma mulher me disse uma coisa que ilustra bem essa situação. Ela jogou na minha cara que eu não tenho medo de perder as coisas, e estava certa.”

Caranguejo com cérebro

Ele deixou o mangue, mas continuou sendo um caranguejo. Aos 44 anos, longe de sua Recife, o atual especialista em sites de busca trabalha com tecnologia em São Paulo. Quem olha Carlos Freitas sentado diariamente em frente ao computador do escritório não imagina que ele esteve enlameado até o pescoço em um samba esquema noise que agitou a música brasileira. O crustáceo geek foi guitarrista nos primórdios da banda pernambucana Mundo Livre S/A. “Eu tocava numa banda chamada Câmbio Negro, era época pré-manguebeat. E foi veraneando em Candeias, onde o Fred Zero Quatro morava, que começamos a fazer um som juntos. Entrei pra banda em 1987, mas a cena era fraca. As mudanças começaram quando eu, Fred e Ricardo L montamos um programa de rádio underground. Conhecemos bandas novas, e isso serviu de catalizador para um novo cenário”, recorda. Eles gravaram duas demos, mas nunca um CD.

Dois anos depois, o programa parou, a cena perdeu força, e a banda resolveu dar um tempo. Fred foi para São Paulo, Carlos passou na faculdade de jornalismo, casou, teve filho e abriu uma loja de discos, a Discossauro. Foi então que Fred voltou, tentou juntar a banda de novo, mas Carlos não embarcou. “Tive medo de assumir shows. Eu tinha negócio e família. Foi depois do manifesto Caranguejos com Cérebro, do Chico Science, em 1992, que tudo começou a acontecer. O meu sentimento em relação ao sucesso deles era muito mais de satisfação que de frustração. Ver aquilo tudo acontecer na nossa música era maravilhoso.”

Mesmo resolvido com o fato de não ter estourado com banda, Carlos assume que teve recaídas: “Durante o Abril Pro Rock, quando Raimundos, Skank, Nação Zumbi, Mundo Livre e Pato Fu subiram ao palco juntos, eu estava na plateia. Olhava tudo de fora e pensava que poderia estar ali”. O músico, que ainda toca todos os dias, é amigo dos velhos companheiros de banda e chegou a acompanhar a turma em uma viagem de ônibus até Santos. “No meu tempo de Mundo Livre não havia esse universo de farra, de camarim. Era dureza. No show de volta do Nação Zumbi depois da morte de Science, eles me chamaram para ir junto, mas o clima não era de festa. Quando voltei para o hotel, e o Marcelo D2 ficava falando pelos cotovelos enquanto eu tentava dormir, vi que essa não era vida pra mim.”

Revoluções por minuto

Claudio Julio Tognolli , 46 anos, não vendeu mais de 3 milhões de discos em sua carreira. Não fez parte da banda mais popular do país nos anos 80, não tocou em todos os programas de televisão, não foi objeto de descabelamento de milhares de mulheres nem inveja de milhares de homens no Brasil. Ele escreveu sete livros, trabalha hoje na biografia do músico Lobão e é professor, além de um dos maiores jornalistas investigativos do país.

Mas, antes de tudo isso, o Tognolli estudante do curso de Comunicações e Artes da USP fez parte de um grupo candidato ao diretório acadêmico da faculdade, no ano em que o Brasil passava pela primeira eleição direta pós-ditadura. A chapa anarquista, chamada Os Picaretas, reuniu gente como o cantor Paulo Ricardo, o jornalista William Bonner, o escritor Marcelo Rubens Paiva e o fotógrafo Rui Mendes. Eleições ganhas, o grupo passou a organizar festas, como a emblemática Festa do Gato Morto com apresentações ao vivo. “Eu já tocava guitarra, estudava muito, todos os dias. O Paulo me chamou para tocar com ele e montamos uma banda chamada Pif Paf. Nesse evento tocavam também As Mercenárias, o João Gordo... Começamos a chamar atenção”, observa o jornalista.

No mesmo período o líder da banda, Paulo Ricardo, foi morar em Londres por seis meses como correspondente internacional da revista Som 3, e Tognolli passou a trabalhar como estagiário de diagramação na revista Veja. “Quando ele voltou, carregado pelas influências punk inglesas, resolveu montar o RPM, e eu fiquei com meu emprego de pesquisador no arquivo da editora Abril. Logo eles estouraram”, lembra. O sucesso do RPM não foi fácil de esquecer. O guitarrista conta que toda vez que a música tocava na rádio ou em alguma festa, os amigos não perdoavam. “Fui muito cobrado até pela família. Me chamavam de Pete Best brasileiro (em referência ao baterista dos Beatles que dançou antes do sucesso da banda). Uma vez um tio chamou o meu pai e disse: ‘Meu filho é engenheiro, e o seu perdeu a grande chance da vida e vai ter que tocar na noite para se sustentar’.”, lamenta o jornalista que tem 37 guitarras em casa.

Depois que o sucesso da banda passou, tudo ficou mais fácil. Hoje, Tognolli se diz certo de que teria trilhado um caminho errado. “Não sinto falta do sexo, drogas e rock’ n’ roll porque sou nerd. Gosto de ficar sozinho. Não gostaria de ter tido essa vida de palco, de atenção em cima de mim. Meu único lamento é não ter tido mais tempo para me dedicar ao estudo da guitarra”, encerra o quase RPM.

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