por Vinicius Felix

Depois das mixtapes, rapper lança seu primeiro álbum, ” O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui”


Emicida já foi capa da Trip, capa dos principais cadernos de cultura, apareceu muito na televisão e só agora está lançando o seu primeiro disco? É isso mesmo. Há uma semana o rapper paulista soltou seu primeiro álbum, O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui.

Produzido por Felipe Vassão, o álbum levou seis meses para ser produzido e mostra a liberdade e conforto do rapper em transitar do rap mais tradiconal até boas misturas do estilo com o samba, funk e rock. Também conta com as participações de nomes bem diferentes entre si. Enquanto Tulipa Ruiz participa da delicada "Sol de Giz de Cera", que Emicida escreveu para a filha, MC Guimê aparece em "Gueto", um verdadeiro encontro do rap com o funk paulista. Pitty, Juçara Marçal, Rael, Wilson das Neves e Quinteto em Branco e Preto são outros nomes na lista de convidados, pessoas que Emicida diz "ter ido buscar" por inspirarem sua música. 

E por que essa demora para um álbum? "Não me considerava pronto, dei uma segurada e fui pesquisando, fiquei quase um ano sem escrever desde o último lançamento", explica. 

Para divulgar o álbum, o rapper deu uma coletiva onde falou das diferenças entre o novo trabalho e os anteriores, a ampliação do seu público, música independente, a polêmica na música “Trepadeira" e também sobre sua relação com o Fora do Eixo.

Qual a principal diferença entre o álbum e os primeiros discos? Acho que a primeira coisa que norteou foi a possibilidade de ter uma finalização mais romântica, a parte técnica principalmente. Pela primeira vez a gente conseguiu dar o tapa que a gente queria. Eu queria muito fazer um disco que fizesse justiça ao caldeirão de músicas que eu escuto, mas sem ficar com cara de coletânea ou que parecesse que eu tivesse atirando para tudo quanto é lado. A linha de raciocínio é dada pelo rap, pela música falada, uma coisa que pesquisei muito nos últimos anos, mas em termos de arranjo a gente era totalmente livre. A gente queria fazer um disco de música brasileira contemporânea.

E todas as composições são novas ou você guardou alguma? A música “Nóiz” é de 2007. É a única velha que entrou. “O samba do fim do mundo” o primeiro verso eu declamei ele no VMB quando ganhei de artista do ano, mas não tinha lapidado ela. O resto pode ser novo para o público, mas não é novo para mim. “Levanta e Anda” quase saiu no Doozicabraba e a Revolução Silenciosa, assim com “Nóiz” quase saiu na primeira mixtape. Era uma forte candidata, mas no fim das contas não achei uma batida que casasse com ela.

 

"Eu tenho uma preocupação de perder os fãs de verdade. Eu tenho um apreço muito grande por essas pessoas. Elas estavam no Saravejo comigo quando iam 30 pessoas me ver."


Pela primeira vez um disco seu vai ter uma distribuição mais tradicional, estará nas lojas. Ao mesmo tempo em que chegam novas pessoas, você se preocupa em perder fãs do início? Eu tenho uma preocupação de perder os fãs de verdade. Eu tenho um apreço muito grande por essas pessoas. Elas estavam no Saravejo [bar/balada de São Paulo] comigo quando iam 30 pessoas me ver. Tem dois pontos: quando você cresce muitas pessoas começam a julgar você pelos que elas acreditam que você passou a fazer e não pelo que você tem realmente feito. E elas podem se desligar do acompanhamento da sua carreira. Mas essas pessoas não eram fãs de verdade da sua música. Elas eram fãs de um símbolo que era mais cômodo ver no underground. Só que o underground só é cômodo pro espectador, sacou? E tem o fã que é apaixonado por música. E eu quero um público apaixonado por música, que tenha sensibilidade para entender o que estou fazendo, poeticamente falando. Creio que essas pessoas eu tenho. Nos dois últimos que a gente fez em São Paulo eu reencontrei 60% das pessoas que vão aos meus shows há mais de cinco anos. A parada mais da hora que tem é você apresentar um música legal para as pessoas. As pessoas podem não ser fã de rap tradicional, que compram vários CDs no ano, mas é do caralho você ser o cara que tipo: “Escuta essa parada aí” e a pessoa compra na curiosidade e acha foda. Não fico medindo quem escuta minha música. Se eu fizer isso aí vou dar direito dos caras cercarem o outro lado da cidade para nós. Meu critério é ser sincero, que as pessoas se prendam pela música, pela sinceridade. CD é feito para vender e música é para entrar nas vidas das pessoas e trazer algo de positivo para elas. 

 

"Meu critério é ser sincero, que as pessoas se prendam pela música, pela sinceridade. CD é feito para vender e música é para entrar nas vidas das pessoas e trazer algo de positivo para elas" 


E quanto a questão da música “Trepadeira”, que levantou uma polêmica. Você escreveu a respeito, mas o que acha da questão. O rap não pode escrever uma crônica como outros artistas fazem? É um flerte com a ficção, mas... 'nóis é o rap'. Vai doer em nós. Tem esse negócio, tudo que não for pautado na realidade dura das ruas é tido como um amolecimento na postura, na ideologia, quando minha luta é por liberdade acima de qualquer outra coisa. Não quero virar refém dos temas que já cantei e nem das pessoas que me escutam. Tenho que me manter livre para criar música que eu considere relevante. E sou muito feliz de ter composto essa música e demorou, viu? Porque é nome de planta até umas horas e ninguém ajudou. Só o Tom Zé, mas sem saber. Porque eu fui lá e ele tava cuidando das plantas, ele ficava falando os nomes de cada uma e eu só aqui “Hummmmm”. O Tom Zé foi o primeiro que eu mostrei essa música e ele chapou. Ele falou um bagulho… falou que eu era o cão do segundo livro. Elogio do Tom Zé [risos].

 

 

"Tenho que me manter livre para criar música que eu considere relevante. Sou muito feliz de ter composto essa música ['Trepadeira'] e demorou, viu? Porque é nome de planta até umas horas e ninguém ajudou. Só o Tom Zé, mas sem saber. Fui lá e ele tava cuidando das plantas, ele ficava falando os nomes de cada uma e eu só aqui 'Hummmm'."


No dia em que o Mídia Ninja estava no Roda Viva, o Pablo Capilé falou que o Fora do Eixo "ajudou a lançar o Emicida". Afinal, qual o papel que eles tiveram nessa história? Ajudaram? Atrapalharam? Eu não entendi isso não. Várias pessoas entenderam isso, mas eu não entendi isso. Ele falou como se nós tivéssemos utilizado da plataforma e realmente nós utilizamos da plataforma do fora do eixo.  E para mim foi bom, foi do caralho. Acho que eu cheguei no Fora do Eixo com um tamanho que eu tinha condição de negociar algumas coisas.  Eu não posso falar de proposta indecente com cubocard porque eu nunca recebi uma proposta do tipo: “Venha tocar para ganhar 8 mil cubocards”. Isso não aconteceu comigo. E dúvido que eles tenham colocado arma na cabeça de alguém e falado “você vai tocar por causa disso”.

 

"Acho que eu cheguei no Fora do Eixo com um tamanho que eu tinha condição de negociar algumas coisas.  Eu não posso falar de proposta indecente com cubocard porque eu nunca recebi uma proposta do tipo: 'Venha tocar para ganhar 8 mil cubocards'. Isso não aconteceu comigo."

 

Fazendo um comparação, quando a gente lançou “Dedo na ferida” teve o lance da prisão em Belo Horizonte e muito se falou de liberdade expressão e perseguição do rap. E o que a gente queria que as pessoas vissem - a situação de Pinheirinho, de Eliana Silva, das ocupações em São Paulo, dos incêndios na favela, isso foi pouco falado. Queria levar luz para esse questionamento, mas as pessoas só centraram que eu fui preso. A conversa tem que ser como a música independente se encontra. A gente tem que sair do mundinho de que a música independente do Brasil é meia dúzia de banda de rock e o Fora do eixo. A gente tem um panorama cultural imenso e enquanto a gente não ver isso como um todo vai ficar nessa discussão aí. Porque se quando você pensa na música independente brasileira vem na sua cabeça edital, Fora do Eixo e banda de rock, você não sai na rua, você não vive a rua. O que esses três pontos movimentam anualmente não chega a trinta por cento do que se se você pegar o forró, o tecnobrega, o pagode, o funk. Acho que conversa tá indo pro lado errado, como se o Fora do Eixo fosse a única opção na vida de todas as pessoas. A conversa deve ser como a música independente se encontra.

 

"Os caras tomaram tiro na Paulista, tiro de borracha e foi capa de jornal. Aí, porra, os policiais invadem a favela, matam as pessoas e nóis vira nota? Isso mostra que tem alguma coisa muito mais séria que a gente precisa atentar." 

Como você viu os protestos dos últimos meses? Eu fiquei feliz pra caralho porque tem esse negócio do exercício da democracia, das pessoas irem para rua. Mas eu também fiquei refletindo. Tipo, os caras tomaram tiro na Paulista, tiro de borracha e foi capa de jornal. Aí, porra, os policiais invadem a favela, matam as pessoas e nóis vira nota? Isso mostra que tem alguma coisa muito mais séria que a gente precisa atentar. Achei do caralho, vi várias pessoas que eu acredito indo para as manifestações e acho que o Brasil inteiro deve exercer a democracia, principalmente nas favelas. Porque é lá que a bomba estoura.

Ouça a íntegra de “O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui”: 

Os shows de lançamento do álbum acontecem no SESC Pinheiros nos dias 10 e 11 de setembro. As datas contarão com as participações especiais que estão no disco: Pitty, Juçara Marçal, Rael, Wilson das Neves, Tulipa Ruiz e Quinteto em Branco e Preto. Os ingressos estarão à venda pela Rede INGRESSOSESC a partir desta sexta-feira, às 14h.

“Vai ser pancada”, ele promete. “Dia 10 e 11 vão ser muito especiais para mim, para a música independente e para o rap.”

Vai lá: Emicida - Lançamento do disco O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui
Sesc Pinheiros, dias 10 e 11 de setembro
Rua Paes Leme, 195 - Pinheiros
Ingressos: R$ 32 (inteira), R$ 16 (meia)

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