Vape de maconha mata?

por Fabricio Pamplona

O que já se sabe a respeito das mortes associadas ao uso dos populares vaporizadores, moda no consumo de Cannabis e tabaco

Há poucos meses houve uma enxurrada nos noticiários americanos, com informações que transbordaram uma polêmica bem atual: os acidentes letais com cigarros eletrônicos, ou vaporizadores, que têm sido tratados como uma epidemia, por conta dos seguidos casos de pessoas acometidas por uma doença pulmonar terrível e, em muitos casos, fatal. Esses casos alimentaram discussões a partir dos Estados Unidos e, no Brasil, o assunto ganhou mais força recentemente com os três casos registrados, conforme relatado no congresso da Sociedade Brasileira de Pneumonologia e Tisiologia (SBPT) e relatado em matéria da Folha de S.Paulo. Até que demorou. Embora proibidos, os vaporizadores também estão na moda aqui. 

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Os sintomas são realmente graves. Uma série de artigos publicados na revista científica do Journal of American Medical Association alerta para uma crise respiratória aguda, com fadiga, tosse, febre, respiração curta, podendo chegar à falha respiratória. O efeito é semelhante à pneumonia, com vários pontos de inflamação distribuídos ao longo do tecido pulmonar. Aparentemente tem sido possível reduzir a inflamação na maioria dos casos, mas em alguns deles não, e os pacientes morrem, deixando os médicos de mãos atadas, frustrados. No total foram mais de 2 mil casos semelhantes e 39 mortes ligadas diretamente ao uso deste tipo de produto somente este ano nos EUA. 

Aparentemente, uma parcela importante dos casos, embora não todos, tem sido associada ao uso de vaporizadores contendo canabinoides — os princípios ativos oriundos da maconha. Dado o estigma natural que já se tem com o THC, ele se tornou o principal alvo da suspeita, estampando várias manchetes com frases como “Vaporizadores contendo THC são letais, vários casos relatados”, e coisas do tipo. 

“No total foram mais de 2 mil casos semelhantes e 39 mortes ligadas diretamente ao uso deste tipo de produto somente este ano nos EUA”
Fabricio Pamplona

Como isso aconteceu? Ninguém sabe de verdade, nem quando, nem onde tudo isso começou. O primeiro caso oficialmente relatado foi possivelmente este na Inglaterra, descrito ano passado na publicação The British Medical Journal. Mas este ano o uso de cigarros eletrônicos já está amplamente disseminado, particularmente nos EUA, o que fez a relevância do número de casos aumentar bastante.

Números de 2016 mostravam que já eram mais de 10 milhões de vapers; essa é uma grande aposta para a modernização do mercado de fumígenos pela própria indústria do tabaco. Alguns fazem uso destes dispositivos na esperança de parar de fumar cigarros, ou pelo menos reduzir a frequência. Nos Estados Unidos, o grande campeão de vendas é o Juul, que caiu no gosto dos adolescentes. Para os realmente inveterados, existem até kits “faça você mesmo” seu próprio líquido de nicotina, com mistura de sabores e aromas, e uma enorme coleção de produtos falsificados, de menor preço e qualidade duvidos,a geralmente vindos da China e vendidos em sites de comércio eletrônico. No Brasil, estes produtos ainda são proibidos, mas você facilmente consegue trazer do exterior, ou comprar no Mercado Livre, e todo mundo já viu ou tem pelo menos algum amigo que usa frequentemente.

No caso dos vaporizadores de canabinoides, no princípio, falava-se muito nos vaporizadores de “erva”, com um reservatório para você colocar a planta triturada —  como o "volcano" ou o mais portátil "Mighty", da Storz & Bickel, e depois o “PAX”, que popularizou essa modalidade de uso. Depois destes, a nova geração de vaporizadores utilizava extratos líquidos contendo altos níveis de THC e foi iniciada pelo produtos conhecidos como “G PEN”, seguido de várias outras marcas e produtos genéricos. Os lançamentos mais modernos permitem inclusive dosar a quantidade ingerida — como no Humboldt (agora Dosist) e o Airgraft — e você escolhe o produto baseado na sensação que quer ter, ao invés de escolher pela composição do produto. É uma tendência de mercado conhecida como “mood modulation”. Nos Estados Unidos, há uma facilidade incrível de se conseguir produtos como esse para sua marca e há empresas que te entregam tudo prontinho como “white-label”, você só precisa rotular, embalar e vender com seu logo impresso. O uso é realmente muito disseminado e há literalmente milhões de unidades sendo vendidas há vários anos. 

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Lógico que os vaporizadores não são desprovidos de risco, assim como não são o tabaco e maconha, mas podem ser ferramentas interessantes de redução de danos, se comparado às alternativas tradicionais. Se você pensar puramente na nicotina (ou no THC), o uso dessas substâncias puras, sem aditivos tóxicos, sem queimas e a  temperaturas proporcionalmente mais baixas é teoricamente menos pior do que o aspirar fumaça da queima de uma planta. Do ponto de vista do potencial “viciante” , eu diria que dá na mesma, talvez sejam um pouco pior no caso dos vaporizadores de canabinoides, porque a concentração de THC destes produtos é muito mais alta do que se consegue atingir com plantas. Portanto, sim, a tendência é se absorver mais THC, ou seja, é preciso ter disciplina e mais experiência para não passar do ponto. Isso se estivermos comparando “pau a pau” a nicotina vaporizada com o tabaco fumado e o THC vaporizado versus a maconha fumada, o que não é exatamente o caso. Nos vaporizadores, é muito comum a adição de ingredientes artificiais para mudar a cor, o sabor, a viscosidade, o aspecto do vapor, e alterar de alguma forma a experiência para aumentar a agradabilidade. E é aí que entra a questão mais polêmica. E aparentemente são exatamente estes aditivos os verdadeiros vilões da história. Calma que eu explico.

Primeiro porque ao adicionar sabor em um produto potencialmente perigoso, você mascara parte desse risco e estimula o consumo. Lembram da polêmica com os cigarros de menta? É muito semelhante. Quando você banaliza o consumo desse produto ao fazê-lo parecer uma leve fumacinha doce de morango ou caramelo, que aliás, deixa um gostinho bom na boca, você acaba atraindo um público muito mais amplo, expondo ao risco uma parcela da população que não encararia o sabor e cheiro péssimos da fumaça de cigarro. Ótimo para os negócios, mas péssimo para a saúde pública. Por outro lado, proibir essa estratégia seria o equivalente a dizer que “só pode vender drogas que forem ruins”, quando o interesse do consumidor destas substâncias é justamente o contrário: obter o prazer. Reflita por um minuto e imagine o paralelo com as bebidas: só pode vender cerveja se for choca, ou vinho que já azedou. 

“Os vaporizadores não são desprovidos de risco, assim como não são o tabaco e maconha, e podem ser interessantes para a redução de danos”
Fabricio Pamplona

Mas, de volta aos vaporizadores, apesar do extenso uso, como já havia comentado, os casos de doença pulmonar aguda começaram a acontecer só muito recentemente, e se multiplicaram como fogo em palha seca. Posso não ser um especialista em doenças respiratórias, e nem mesmo em dependência, mas uma coisa é bastante lógica: se muitas pessoas usavam algo sem qualquer relato parecido e subitamente começam a aparecer mais e mais relatos, a conclusão é uma só: algo mudou. Para suportar essa visão, existe registro de que uma parcela significante dos casos ocorreu com a mesma marca de vaporizadores (conhecida como "dank vape", segundo artigo doJournal of American Medical Association). Números recentes indicavam pouco mais de 600 casos. Faça a matemática: se já foram vendidas cerca de 10 milhões de unidades, significa algo próximo de 0.06% (teoricamente). Nada impressionante. Mas, se todos esses casos estão ligados a uma mesma remessa de produto, ou aditivo adicionado em um novo lançamento, aí sim temos uma casuística que permite inferir sobre causa.

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Há uma suspeita nessa linha de pensamento em relação à vitamina E, que foi adicionada particularmente nas formulações contendo THC, para evitar sua degradação (esse composto é bastante sensível à luz e calor). Na teoria, a vitamina E seria carregada aos pulmões do usuário e lá sofreria uma sublimação, depositando gotículas de óleo nos pulmões, o que em última análise seria responsável pelo processo inflamatório local e insuficiência respiratória. Plausível.

Outra suspeita recai sobre o uso de novos corantes, flavorizantes e espessantes (ou um pouco de tudo isso), afinal, os casos não são 100% associados a um tipo de produto ou outro. Como regra geral, fala-se em pneuomonia lipóide, e no primeiro caso descrito foi associada diretamente à glicerina vegetal. Vitamina E iria na mesma direção. No caso dos canabinoides, um outro complicador pode ser o uso de solventes hidrocarbonetos — como o butano —, que algumas vezes são usadas para extração dos ativos da planta, particularmente nos produtos mais baratos, de dispensários de fundo de quintal, ou mesmo caseiros. Alternativamente, ainda podem ter sido adicionados canabinoides sintéticos, com efeitos mais imprevisíveis do que o THC. Tivemos casos letais associados ao uso de maconha sintética, que, diga-se, de maconha não tinha nada? Pois é.

Parece que estamos diante de mais um caso semelhante ao "maconha mata os neurônios", em que os suspeitos usuais são responsabilizados pela simples razão de que essa parece ser a resposta mais fácil e justificável perante a opinião pública. Na prática, o uso de vaporizadores está sendo desaconselhado e sei de fonte local que a venda de vaporizadores líquidos já caiu mais de 60% em alguns estados americanos. Impressionante o poder de um rumor. Se tiver que escolher entre os riscos reais de longo prazo da combustão e os potenciais de curto prazo descritos dos vaporizadores líquidos, a alternativa proporcionalmente mais segura seria a vaporização das plantas. 

“Estamos diante de um caso semelhante ao "maconha mata os neurônios". Os suspeitos usuais são responsabilizados por serem mais justificáveis”
Fabricio Pamplona

Não há absolutamente nenhum caso semelhante descrito com um belo exemplar de maconha vaporizado (ou mesmo fumado). Muito difícil conseguir em sã consciência associar esses efeitos descritos acima aos canabinoides ou à composição natural. Pelo que tudo indica, os suspeitos mais prováveis são os aditivos.

É também importante mencionar que há líquidos de vaporização de alta qualidade, que não usam solventes em sua preparação, e que são essencialmente somente o blend natural dos componentes naturais da planta. Eles são mais caros, melhores e provavelmente mais seguros.

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Quando a histeria passar, podemos falar melhor sobre isso, mas agora. Tomara que encontrem a causa real e protejam as pessoas desses efeitos terríveis., pois ninguém merece passar por esse sofrimento. Mas é necessário ser assertivo na abordagem. A propósito, no Colorado, já tivemos a notícia de uma proibição derivada dessa situação. Dos vapes? Não, dos aditivos (acetato de vitamina E, lipídios de cadeia média extraídos do óleo de coco conhecidos como "MCT" e do polietilenoglicol (PEG), todos aditivos comumente usados em produtos cosméticos e de "wellness", mas que nunca foram testados para vaporização). É assim que se faz.

Curiosamente, com a publicação da regulamentação para registro de produtos à base de Cannabis hoje no Brasil, identifica-se que será possível o uso da via nasal para administração destes produtos. Esta via é normalmente usada para sprays, mas diria que é uma possibilidade interessante e de rápida administração para dispositivos médicos inalatórios usando veículos mais seguros. Oportunidade para os inovadores.

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Imagem principal: Creative Commons

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