O MENIR DO CEARÁ
Por aí vê-se que a moçadinha do Ceará não brinca no batente nem deixa o paletó na cadeira enquanto vai ao cafezinho.
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
A interação com o leitor, com quem está do outro lado do papel, faz a grande satisfação de quem escreve em jornal. De certo muito mais atraídos pela qualidade do JT do que pelo que escrevo neste espaço, chegam semanalmente mensagens de pessoas interessantíssimas, com observações, críticas e opiniões do mais alto nível. A Sra. Regiane Zanatta, por exemplo, escreveu sugerindo que a comemoração dos 445 anos de São Paulo fosse diferente. Em vez dos fogos de artifício, shows de música baiana ou decorações urbanas de gosto sempre duvidoso, a leitora sugere que sejam dados presentes reais, concretos à aniversariante. A reurbanização de um determinado trecho da marginal de Pinheiros, a eliminação total dos buracos de determinada avenida, a limpeza definitiva do lago do Ibirapuera, a despoluição visual de um grande corredor como a Avenida Giovanni Gronchi extirpando placas e luminosos irregulares e anti-estéticos. Algo que seja efetivamente benéfico aos milhões de indivíduos que compõe como células este grande e belo organismo social.
Infelizmente, no Brasil, de forma geral o que se vê quando se coloca ao poder público a missão de explorar as possibilidades de uma data ou situação propícia seja ao turismo, seja ao saneamento de uma cidade, é uma cena um pouco diferente. Vejamos por exemplo o relato do leitor Max Krichanã, um atento observador que tem seu posto avançado na bela Fortaleza:
OBELIX
Bem, a BIG e louca novidade do momento é que Fortaleza vai construir, através da Secretaria de Turismo do Ceará, Prefeitura de Fortaleza e iniciativa privada (CDL – Câmara dos Diretores Lojistas de Fortaleza), um monumento turístico, na praia Mansa, ao lado do surf point Titãnzinho (onde começaram surfriders como Tita Tavares). Numa cidade hoje com 2,6 milhões de almas, num Estado que há 3 anos sofre as agruras da seca, o lance deverá ser um enorme Obelisco com mais de 180 (cento e oitenta) metros de altura (duas vezes maior que a estátua da Liberdade e quase cinco vezes maior que o Cristo Redentor). Na torre haverá uma superantena, embasada 173,9 metros sob o nível do mar, dois elevadores panorâmicos, um restaurante para 250 pessoas a 112 metros de altura e um farol náutico no topo.
O diabo do obelisco foi escolhido ontem para ser o ícone de Fortaleza, no concurso promovido pela Fundação Fortaleza Atlântica. O projeto é de autoria do grupo liderado pela Nasser Hissa Arquitetos Associados e o monumento deve estar pronto até 31 de dezembro deste ano. O valor total do projeto, um complexo turístico que inclui ainda outras atrações, está estimado em R$ 127,9 milhões. Projetada para concreto de alto desempenho, a torre estará voltada para o Oeste e poderá ser vista de toda a orla Leste da cidade. De lá será possível curtir o pôr-do-sol mais incrível do Nordeste, sem dúvida. A proposta do ícone surgiu nas comemorações dos 70 anos do jornal O Povo. Como para o acesso à torre deverá ser cobrado ingresso (valor estimado entre R$ 7 e R$ 8), para a população em geral haverá a ‘Praça do Sol’, no formato de uma rosa dos ventos, que deverá ser construída na ponta da Praia Mansa, na base do monumento. Na praça haverá o Museu do Mar e o parque temático Mundo das Descobertas do Mar, com um aquário submarino no qual os visitantes poderão conhecer várias espécies de animais de água salgada.
Além do núcleo estruturado em torno do ícone (the Obelisk), o projeto Ícone de Fortaleza também prevê um complexo turístico-cultural para a área da Praia Mansa, equivalente ao tamanho da Praia Mansa. Ou seja, bye-bye natureza.
Nos 25 hectares da região, está prevista a construção de restaurantes, casa de espetáculos, bares, teatro, anfiteatro, cinemas, uma marina, piers para veleiros de passeio, um hotel e um terminal de passageiros para navios.
Uma das principais diferenças desse projeto para com a área da Praia de Iracema, por exemplo, já totalmente tomada por bares e restaurantes, e de onde a maioria dos residentes já se mudou por não suportar a zoada e o trânsito de carros e gente, é que o acesso de automóveis deve ser regulamentado. ‘A partir de determinado ponto, os visitantes terão que estacionar seus carros e aí poderão ou seguir a pé ou pegar algum transporte coletivo, como topics, que ficarão rodeando o local’, diz Hissa.
Assim, o delírio-aspiração da galera por notoriedade foi buscar inspiração mundo afora. Tudo muito justo, porque não?:
Por aí vê-se que a moçadinha do Ceará não brinca no batente nem deixa o paletó na cadeira enquanto vai ao cafezinho. Por enquanto, vamos aguardar dezembro pra ver como é que fica – e ver também como é que vai ficar o point dos surfistas que há lá, bem como a vida do povo que habita o Serviluz, bairro humilde vizinho ao Mucuripe onde ficam os cabarés que vivem dos marinheiros que desembarcam na city. O Serviluz não consta dos guias turísticos, assim como o Pirambu, outro aglomerado de mais de 250 mil pessoas que reúne as mais agressivas gangues adolescentes, drug trafficking points e agitos de música de periferia, o litoral Oeste da cidade. O Pirambu fica próximo à Barra do Ceará.
Feliz Aniversário, São Paulo.
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