Voto no Monsieur Homais, o farmacêutico de Madame Bovary, de Flaubert. Não é um vilão clássico: não é bandido, não mata ninguém, não assusta criancinhas. É um típico burguês em ascensão, que passa a vida tentando parecer o que não é – passa os outros para trás e acaba tomando o lugar do pobre Charles Bovary como (falso) médico da cidade. Enquanto Emma Bovary, que também pretendia ser uma burguesa em ascensão, fracassa e se suicida, M. Homais trapaceia, publica artigos de pseudoconhecimento científico e se projeta na comunidade. A última frase do livro, depois que Charles Bovary morre na miséria e sua filha é obrigada a trabalhar como lavadeira, é: Ele acaba de receber a Cruz de Honra. Não é um vilão familiar?
Maria Rita Kehl é poeta e psicanalista
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