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O JUSTO E O INJUSTO

A entrevista com rapper Mano Brown publicada na Trip gerou repercussão barulhenta dentro e fora do país

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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A esta altura, é possível que pouca gente se lembre, mas em 1999, uma entrevista com o rapper Mano Brown publicada na Trip gerou repercussão barulhenta dentro e fora do País. Na ocasião, Brown dava voz veemente à revolta do povo pobre do Brasil, cansado de se deparar com um contraste que não encontra paralelo em outra parte do planeta.

O epicentro da polêmica, que fez a festa de observadores desocupados em busca de autopromoção, políticos, advogados e jornalistas de menor expressão, foi o parágrafo em que Brown expressava seu inconformismo com a ostentação perpetrada por jogadores de futebol, que faziam questão de exibir a riqueza conquistada de súbito, esfregando-a na cara daqueles que continuavam na miséria, em muitos casos seus antigos vizinhos e companheiros de infância.

Foi solicitada (por entidade cujo nome não citarei) abertura de inquérito policial, baseado na alegação de que Brown e, pasmem, a revista Trip estariam incitando à violência, de forma criminosa. Há algum tempo, esse inquérito foi definitivamente arquivado já que, tanto no entendimento do órgão do Ministério Público como no do juiz do feito, não se configurou qualquer indício de intenção criminosa em nenhum dos atos denunciados.

E aí? É importante, sem entrar no mérito do que foi dito na entrevista, não só comemorar a demonstração de inteligência e justiça do sistema encarregado de avaliar o episódio, mas, fundamentalmente, lamentar alguns outros fatos que vieram e vêm à tona a partir daquela reportagem.
1. Ainda se confunde, no Brasil, o direito de prestar e de ter acesso à informação com o conteúdo da notícia e suas eventuais conseqüências civis e criminais. Confusão que se dá inclusive entre os próprios profissionais da informação menos capazes e preparados.

2. A pior violência que o sistema vigente pode cometer contra si próprio é se recusar a ouvir a voz daqueles que, intencionalmente ou não, excluiu. Não fosse pela afronta a um direito humano básico, da livre expressão e do livre pensar, pelo simples fato de que ignorar sua existência física não serve, como gostariam, para eliminar, calar ou impedir que as vítimas dessa exclusão externem sua indignação.

3. A revolta a que Mano Brown se referia toma formas infinitamente mais temíveis do que a de palavras duras, diariamente. Rajadas de metralhadoras disparadas contra um bar de esquina como se viu em março no bairro classe média paulistano do Butantã, é só uma delas.

4. Em vez de tomar o tempo útil de autoridades com inquéritos inócuos, os que se sentiram atingidos pelas palavras de Brown deveriam se juntar ao exército silencioso e humilde dos ativistas e voluntários que doam dinheiro e, principalmente, tempo e talento para cuidar de reparar o insuportável quadro de injustiça na distribuição das riquezas deste País, sobre o qual se fala muito e se faz pouco.

5. O futebol brasileiro necessita cada vez mais de gente com coragem que aponte e torne públicas suas mazelas, sejam elas da ordem que forem.

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