O herói esquecido
A quem a imprensa deveria reconhecer o mérito da captura dos criminosos e a libertação de Washington Ollivetto
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Estou chegando da coletiva do Washington. A presença da imprensa era absurda, superesquema. Lá estavam, na mesa dos entrevistados, o seqüestrado, o delegado e o amigo do seqüestrado. Não estava lá o cidadão que avisou que o sítio de Serra Negra, no interior paulista, tinha um movimento estranho e denunciou à polícia.
Eu estava muito emocionado em ver o amigo e sócio W vivo e bem como sempre, mas não consegui inibir meu senso crítico a ponto de não me perguntar o tempo todo: a quem devemos a vida do W? Quem é o herói dessa história? A quem a imprensa deveria reconhecer o mérito da captura dos criminosos e a libertação do W?
Não era o seqüestrado que, como vítima, tinha obrigação de sobreviver nem era o delegado que, como policial, estava cumprindo sua obrigação de salvar a vítima e prender os marginais. Não vem ao caso o quão bem eles cumpriram seus papéis de vítima e de policial. Afinal, suas performances teriam sido em vão ou impossíveis se não houvesse uma pessoa que foi além de suas obrigações e olhou para além das fronteiras de seu pequeno mundo. Esse é o herói!
VIDAS ANÔNIMAS
Esse é o elo indispensável da corrente que garantiu a vida do meu amigo. Então, por que essa pessoa não estava lá para ser entrevistada? Quem é ele? Como pensa? Por que ele se deu ao trabalho de olhar, vigiar e ligar para a polícia? Qual é a formação desse cara? No que ele acredita?
A mídia com toda a cobertura absurda que deu ao seqüestro não mostrou esse herói, exceto como detalhe no meio de alguma reportagem. Esse cara tinha que ser festejado e prestigiado, seu perfil tinha que ser tornado público e sua atitude valorizada como exemplar. O Maluf percebeu e, rapidinho, produziu um comercial puxando o saco da população tentando posar ao lado do herói – o homem comum, o cidadão anônimo – para roubar seu mérito. Uma pena, porque é o elogio certo na boca da pessoa errada.
Uma pena porque precisamos desesperadamente que as pessoas comuns acreditem que suas anônimas vidas, feitas de pequenos gestos, são indispensáveis para viabilizar a vida nessa sociedade. É uma providência urgente porque estamos vendo o mundo caminhar para uma encruzilhada em que o nosso estilo de vida vai ser definido por meio de uma escolha simples: ou confiamos nas pessoas ou nas instituições. E, por descrença nas pessoas, corremos o risco de apostar nas instituições.
Como as instituições são conduzidas por pessoas, esse caminho é um beco sem saída. Se foi aí que nossa história caminhou até hoje. Não é por aí que chegaremos no nosso futuro. A instituição é inoperante na sociedade do conhecimento. Precisamos parar de nos iludir e investir de fato na melhoria das pessoas. Nada de novo, só pior.
ENRON E ACERTOS
O caso Enron, nos Estados Unidos, sintetiza a situação crítica a que chegamos: de um lado pessoas e instituições – o poderoso chairman da empresa com seus cúmplices, que é amigo e financiador de políticos que dirigem o Estado; e do outro lado só pessoas, os funcionários mais os cidadãos americanos investidores e a diretora que fez o memo denunciando as falcatruas e mentiras dos ‘poderosos manipuladores’. Poderosos? Quem são os poderosos? Ou melhor, quem foram? A queda da Enron é sinal de saneamento.
O que sobra como força maior desta sociedade que estamos instalando? Pessoas, indivíduos. Um por um. Cada um na sua vez, o tempo todo. Paulo, se não contarmos com a consciência e a ação comprometida de cada um, a sociedade baseada em paz, prazer e arte, como imaginamos, não vai acontecer. E o que teremos será a violência, o medo e a deterioração.
Apocalíptico? Não sei. Pergunte ao Washington, que nunca se imaginou seqüestrável. Mas dê um tempo a ele. Segundo o meu motorista Jorginho, que ouviu a entrevista inteira no rádio enquanto me esperava: ‘A ficha ainda não caiu para o seu Washington, não é, seu Ricardo?’
Meu abraço saudoso,
Ricardo.
P.S.: Atendendo a vários pedidos, inclusive da Dona Marlene, mãe do Paulo, o formato Caro Paulo voltou!
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