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O DIA 26

Mais uma história de Natal? Leia esta crônica enviada por uma leitora

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Sempre evitei temas relacionados a datas, se não por outros motivos, pelo simples fato de que é impossível concorrer com as matérias publicadas no corpo do jornal, sobre os mesmos assuntos.
Neste dia seguinte ao natal porém, abro exceção, em nome dos leitores que , surpreendentemente inspirados por estas linhas, enviam suas cronicas para meu email, e ainda, em nome da preguiça pós-natalina deste que vos fala, há mais de seis anos, preenchendo este espaço, sem qualquer trégua. Segue portanto a cronica de uma leitora , cuja modéstia roga que deixemos seu nome encoberto:

‘Era uma vez um casal de velhinhos que queria ser dono do tempo. Todos nós quando chegarmos num certo momento da vida vamos querer ser donos do tempo, seja para ter de volta as juntas fortes e os músculos ágeis, seja para acabar de vez com a solidão lúcida e sem corpo. Mas esse era um casal especial. O desejo secreto de seu Antônio e de dona Lúcia era o de congelar a semana que antecedia o Natal.

Os dois moravam num sobradinho geminado numa avenida no Cambuci, com grades na janela, portão de bundinha e três trancas na porta principal. A casa era úmida e tinha o cheiro da naftalina que dona Lúcia metodicamente colocava nos pontos-chave já conhecidos. A parede da sala tinha uma infiltração e o mofo começava a aparecer por detrás da televisão. Na outra parede, uma folhinha da Romanatto peças, uma samambaia e a foto dos netos, Jéssica e Junior, 3 e 7 anos.

A vida não tinha muita novidade. Como todos os velhos, acordavam cedo, 6:30. Dona Lúcia ia comprar o pão na padaria; geralmente era a única hora em que saia de casa. Tomavam o café da manhã e esperavam o dia acabar. Às quartas seu Antônio ia à feira e aos domingos ambos iam à igreja.

Essa rotina só se alterava na semana que antecedia o Natal. Marisa, mulher de Felipe, filho único e pai de Jéssica,3 e Júnior, 7, ia de Cherokee branca buscar o casal de velhos com cheiro de naftalina e os levava para casa na Granja Viana. Marisa era contra, algumas manias de seu Antônio a irritavam profundamente mas dona Lúcia sabia fazer um peru sensacional e o arroz com passas era conhecido no condomínio todo. Vá lá, seu Antônio ajudava a olhar as crianças de férias do semi internato.

O casal sentia que não era bem vindo mas a alegria de estar numa casa viva, cheia de espaço, verde, crianças e movimento fazia sumir qualquer orgulho de velho e eles absorviam aquela alegria como quem toma água depois de se perder no deserto.

Seu Antônio tentava contar histórias de uma São Paulo antiga para as crianças que não tiravam os olhos do Nintendo. Dona Lúcia fazia questão de cuidar das roupas de Felipe o que costumava deixar Marisa num constante estado de nervos. Mas, com o passar da semana, a felicidade dos velhos ia murchando. É que, fatidicamente, na manhã do dia 26 Marisa ia buzinar seu jipe branco avisando que era a hora de levá-los de volta à casinha úmida, escura e cinza de onde vieram.

O dia 24 amanhecia para eles com uma coceira de melancolia que ia crescendo, crescendo, até se apoderar da alma do casal e ter seu ponto máximo à meia noite do dia 24. Junto com o estouro da champagne lágrimas rolavam daqueles quatro olhinhos gastos, mas eram entendidos por todos como uma emocão cristã, dessas difíceis de encontrar hoje em dia. Dia 25 era tentar comer o almoço de Natal, ajudar na cozinha -para dona Lúcia- e esperar a buzina da manhã do dia 26.

É isso o que vai acontecer amanhã’.

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