por Ramiro Zwetsch

Otto celebra 20 anos de seu primeiro disco, Samba pra Burro, que uniu a MPB à eletrônica, com lançamento em vinil e shows

A música conspirou a favor de Otto. Até 1998, quando ele lançou seu primeiro disco Samba pra burro, ele era conhecido como um percussionista que havia integrado as duas bandas mais importantes do mangue beat, Nação Zumbi (durante alguns meses, nos anos 90) e Mundo Livre S/A. Seu trabalho como compositor e cantor, no entanto, ainda não havia despertado e pouco se sabia desse seu potencial.

Mas as portas foram se abrindo, uma sequência de empurrãozinhos dos amigos o encorajou e o álbum tornou-se um sucesso de crítica e público – ganhou, inclusive, o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) de melhor disco do ano. Em 2018, o disco completa 20 anos e o pernambucano celebra com o lançamento em vinil e show neste fim de semana em São Paulo, no sábado 22 e no domingo 23, no Sesc Pinheiros.

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O primeiro empurrão foi do jornalista e DJ Camilo Rocha, um dos mais ativos da cena eletrônica que se construía no Brasil naquele momento. Ele viu o músico tocando percussão e teve o insight. “Ele me deu uma fita de jungle e falou: ‘Vai fazer a música eletrônica brasileira’. Eu disse: ‘Vou mesmo, vou misturar pandeiro com batidas eletrônicas’. Segui o conselho dele e deu no que deu”, lembra Otto.

Depois, foi o produtor Carlos Eduardo Miranda (morto neste ano), como diretor da gravadora Trama, que apostou no artista. “Ele botou muita pilha em colocar o Otto como peça central, se lançar em carreira-solo, como compositor”, lembra o músico e produtor Daniel Ganjaman, que participou como tecladista e guitarrista da banda que saiu em turnê depois do lançamento do disco.

A banda, aliás, foi outra peça fundamental. Embora o trabalho fosse baseado nas programações eletrônicas do produtor Apollo 9, Otto achou importante levar o som para o palco com instrumentistas. “Era difícil pra mim, precisava aprender a cantar melhor e não era um DJ que ia me colocar nesse lugar. Eram os músicos. Precisava entender qual nota que tinha que sair em determinada hora, não a nota programada. Era um disco eletrônico de um cantor que nunca tinha sido cantor”, diz Otto. Ele cercou-se, então, de um time com integrantes que, assim como ele, cresceram profissionalmente nesses 20 anos.

Ganjaman é um produtor requisitado que trabalha com o Criolo desde o elogiado Nó na orelha (2011). Além dele, integravam a banda o percussionista Marcos Axé (que seguiu com o Otto até o ano passado, quando morreu vítima de uma parada cardíaca), o baixista Daniel Bozio (hoje também um produtor muito ativo na cena), o baterista Sapotone (que lançou um disco solo em 2005) e os DJs Nuts e Zé Gonzalez (reconhecidos como dois dos melhores do Brasil).

“Foi muito bacana porque em pouquíssimo tempo de lançamento, a gente já conseguiu ter uma projeção até internacional. O disco foi muito bem aceito na época. A gente tocou no Central Park Summerstage, em Nova York, depois fez turnê na Europa. Foi muito interessante ver a boa absorção daquele formato que flertava com música eletrônica, os estrangeiros viam e faziam um link com a Tropicália”, lembra Ganja.

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Passadas duas décadas, Otto hoje acumula outros cincos discos lançados, prepara o lançamento de mais um para 2019 e, aos 50 anos, pode se enxergar como um artista que deixou uma marca. “Hoje sou uma pessoa da música brasileira. Esses discos construíram minha carreira, estou integrado”, observa. “Otto se tornou um artista fundamental e compositor incrível, uma pessoa que tem uma identidade artística única e teve um papel fundamental para abrir caminhos para toda uma geração que hoje em dia acaba formando essa cena autoral no Brasil e que dialoga com a música do mundo inteiro”, completa Ganja.

Esta é a primeira vez que Samba pra Burro sai em vinil. O LP traz uma capa diferente, que é uma releitura da original, com uma foto em close do pernambucano (clicada por sua esposa, a francesa Kenza Said). Otto faz o show acompanhado dos músicos Junior Boca (guitarra), Bactéria (teclados), Carranca (bateria), Meno Del Picchia (baixo) e Buguinha (programações).

Vai lá
Otto – 20 anos de Samba Pra Burro
22 e 23 de setembro (sábado, às 21h; domingo, às 18h)
Teatro Paulo Autran, Sesc Pinheiros, R. Paes Leme, 195
R$ 40 

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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