Otto: o homem que as
mulheres amam

por Nina Lemos
Tpm #128

Aos 44 anos, o compositor pernambucano divide com a Tpm seu corpo e sua alma

Otto Maximiliano, 44 anos, é um homem apaixonado. Apaixonado pela vida, pelas mulheres, pela música, pelo candomblé, pelos amigos, pela filha, Betina, 7 anos. Como todo apaixonado, Otto é um homem que chora. Muito. É capaz de cair em lágrimas no meio de suas músicas no palco e fazer a plateia chorar junto.

Esse Otto é também um homem que se considera sereno no momento, depois de um período turbulento na vida amorosa. E é neste momento que decide tirar a roupa para a Tpm (que honra a nossa), uma revista “que fala para mulheres fortes”. Além da roupa, tira as máscaras. O cantor e compositor está muito feliz, obrigado. Vive uma história de amor, que faz questão de declarar, com a atriz Amanda Lira, consegue sobreviver de sua música e acaba de lançar o disco The Moon 1111 – após o elogiado Certa manhã acordei de sonhos intranquilos.

“Ele tem essa coisa de raízes, que acho importante. Reconheço o Otto em qualquer pedacinho de música ou som que eu ouço. Fora isso, ele é de uma generosidade difícil de encontrar” Costanza Pascolato

Uma das inspirações do novo álbum é o cineasta francês François Truffaut. O filme não poderia ser outro: O homem que amava as mulheres. “Todas as mulheres no filme trabalham, são independentes, como as mulheres que gosto. E quis falar sobre isso porque acho que as coisas mais difíceis de hoje são os relacionamentos.”

O maior motivo? Otto acredita que os homens ainda são machistas e que gays e mulheres ocuparam seus lugares, mas deixaram o homem hétero mais careta. “Eles não se empenham nem em fazer uma mulher gozar por machismo”, dispara. Isso faz com que Otto se sinta banido do clube do Bolinha, coisa que não o incomoda, já que seus assuntos prediletos passam longe de futebol e pairam mais no universo feminino. Talvez por isso boa parte de suas amizades seja com mulheres e sua vida gire em torno delas (das amigas e das amantes).

Flores de um longo inverno

Por quatro anos, após se separar da mãe de sua filha, a atriz Alessandra Negrini, Otto viveu entre um namoro e outro, como bicho solto. Agora, fala em dar tudo para a mulher que ama. “Eu divido contigo minha angústia e meu pão”, canta no novo disco.

Otto parece mesmo um homem que ama as mulheres. Um personagem nouvelle vague do sertão. Um Jean-Paul Belmondo selvagem. Em uma mesa do tradicional bar carioca Lamas, ele continua a falar das mulheres e conta que já apanhou – e muito – em momentos de fúria. “Elas batem sem dó. Tem umas que dão tapa, e outras que adoram arrancar camisa”, ele ri, entre um gole de chope e outro. Otto é um homem acostumado a conviver com DR e TPM. E vê beleza nisso. Para lidar com uma mulher na TPM, já aprendeu a palavra mágica. “Ponstan”, diz, citando o remédio mais tradicional para cólicas menstruais. Homem que conhece o universo feminino sabe o que é Ponstan. E Otto se orgulha em dizer que entende de mulher.

“Otto é macho, mas não é insensível. Cidadão engajado, amigo atento. É vaidoso, mas não é metrossexual. Selvagem e doce. Sentimental e bárbaro. Otto – o doce bárbaro” Lorena Calábria

Só tem um fenômeno que ele associa à TPM que o assusta. “Tem mulher que corre. Ela está no bar com você, você fala alguma coisa de que não gosta e ela sai correndo. O pior de lidar é o abandono”, diz, rindo, o homem que se considera um “romântico sensível”.

Foram muitas as gargalhadas nessa tarde do Lamas com Otto, o homem que se recusa a ter uma barriga tanquinho. Otto não entende os homens que passam tantas horas na academia. O cantor prefere se exercitar de outras formas. “Faço sexo e show. Sexo é um esporte de baixo impacto”, ele diz. E aproveita o tema para explicar por que sua lista de amantes só aumenta. “Não faço malabarismo, eu amo as mulheres. E não tem nada que eu goste mais do que ver uma mulher gozar. O gozo da mulher é uma coisa diferente, especial.”

Otto fala de seus shows com o mesmo gosto que fala sobre sexo. Quem já viu um show dele sabe que ele deve mesmo queimar calorias ali. Ele se entrega de alma, dança, rebola, chora, conversa com os amigos que estão na plateia, um ritual de catarse. “Eu faço sexo com o público nos shows. Por isso tiro a camisa, não é uma coisa pensada. É como sexo. Eu seduzo e sou seduzido.” E garante ter outro tipo de orgasmo neles, apesar de nunca ter ficado de pau duro no palco.

O homem das mulheres

A ligação com as mulheres é de família. Seu avô paterno foi assassinado por ter um caso com uma mulher casada, em Belo Jardim, sertão de Pernambuco. O pai de Otto também deu suas escapulidas e teve um filho fora do casamento, então Otto cresceu sabendo da fama da família. “Éramos três homens e uma mulher. Meu pai me levava no cabaré desde criança e eu adorava dançar lá. Deve vir daí meu gosto pela dança. E perdi a minha virgindade ali, com a filha da dona do cabaré, uma menina meio fria.” 

"Não tem nada que eu goste mais do que ver uma mulher gozar. O gozo da mulher é uma coisa diferente, especial."

Apesar da infância em cidade pequena, o garoto que dançava no bordel é hoje um cara moderno, que distribui selinhos nos amigos e não se acanha em dizer que os ama. “Aprendi a beijar amigo gay com o Cazuza. Encontrei o Ney Matogrosso e dei um beijo na boca dele. Iria perder essa oportunidade?” Só não transa com homens porque não gosta. “Eu sou o máximo da minha homossexualidade.”

“Mas você já ficou com homem?”, arrisco, porque a conversa está quente e o Rio também e o calor só aumenta. “Não. Só quando era criança, aquela coisa de bater punheta junto. O único homem em quem eu dou beijo na boca mesmo é no Matheus Nachtergaele. O cara é talentoso demais, vou negar? É beijo em nome do talento.”

O carinho se estende, claro, à filha, Betina. “Minha relação com a minha filha é a coisa mais linda do mundo. Sei tudo dela.” E faz questão de manter a mente da menina aberta. Otto quer que ela seja livre, assim como são as mulheres com quem ele se relaciona. “Gosto de mulheres artistas, sensíveis e loucas. Eu sofro muito com a miséria que vejo no mundo, com tudo isso. Preciso de uma mulher que entenda essa dor.” Também aprendeu com os diversos amores outra lição, daquelas para usar de mantra: ele só gosta de quem gosta dele.

E Otto gosta da Tpm porque a gente gosta dele. E por isso dividiu com a revista seu pão, sua angústia e seu corpo. E vibrou com o resultado. “Fiz isso como artista e, olha, estou com 44 anos e não estou tão mal... Adorei as fotos.” Foi bom para a gente também, Otto. 

 

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