O BRASIL MALA
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
O Aeroporto Internacional de Guarulhos transformou-se na noite da última quinta-feira na prova cabal de que não estamos preparados nem fomos construídos para enfrentar as mudanças do mundo. Talvez não valha a pena enumerar os problemas de domínio público.
Mesmo assim, a localização considerada pelos especialistas em fenômenos climáticos como uma das piores possíveis para um aeroporto, a distância do centro da cidade a que serve, a arquitetura interior e exterior feia, pobre e desinteressante, a falta de bons serviços, um restaurante minimamente decente, uma lanchonete onde o prato principal não seja sanduíche de colesterol, guarda-volumes, de transporte coletivo de boa qualidade, de banheiros amplos e preços tahitianos cobrados pela máfia dos taxis e pelo estacionamento, cujas taxas de permanência por 24 horas superam o valor das diárias de muitos hotéis, entre outras coisas, são tão gritantes e óbvias que se torna vital apontar.
Por essas e outras, mesmo em condições normais de pressão e temperatura, a epopéia de Cumbica costuma ser suficientemente desagradável. Quinta-feira não era feriado, nem véspera, não era dia de nada, não havia greve nem sinal de operação tartaruga. Tratava-se portanto do mais normal dos dias. Nem chuva caiu. Ocorre que essa quinta-feira fazia parte integrante do que outro dia chamávamos futuro. Não é que vivíamos sonhando com um tempo em que a inflação fosse dominada, tempo em que os preços das coisas voltassem à realidade?
O tal tempo chegou e o sistema travou. Com crediários e a livre iniciativa, realmente livres, leves e completamente soltos, viagens de avião (como comentamos aqui mesmo semana passada), tornaram-se de um ano para outro algo mais que acessível. Ótimo, dinheiro e cultura circulando de forma mais democrática.
Há hoje no mercado dezenas de opções de pacotes turísticos para o exterior com os quais o cliente se esbalda nos mais diversos cantos do mundo por menos de mil dólares incluídos hotel e translados.
Quinta-feira, os clientes estavam todos lá, com suas valises, malas e sacolas de mão prontos para deitar e rolar em Buenos Aires, Nova Iorque, Lisboa, Paris, Dallas, mergulhar em Cazumel ou simplesmente brincar no Disneyworld.
Cumbica, porém, foi projetado para o Brasil tirado de onde os marajós tiravam o pé, pouco importando o monopólio corsário do estacionamento, os táxis com preços de Tokyo ou bilhetes extorsivos.
Assim, pela primeira vez em muitos anos havia filas para cruzar os guichês da policia federal, que chegavam a mais de duzentos metros. Os estrangeiros demoravam mais de meia hora para ter seus passaportes checados. Antes disso, todos já haviam sofrido nos balões de check-in.
Ao que parece, as companhias também demoram a se adaptar à mudança dos tempos. Na American Airlines por exemplo, uma única fila atende a todos os passageiros, não importando se a partida do vôo de um é dali a uma hora e do outro dali a três. Poucos guichês abertos faziam com que se gastasse pelo menos 40 minutos do começo da fila até o balcão. Para completar o stress, o cidadão que pretende deixar o país tem de, algum tempo para cá, responder a um questionário estúpido supostamente criado para incrementar o sistema de segurança dos vôos e interceptar seqüestradores, traficantes e outros vilões.
O questionário fatídico é recitado por um funcionário invariavelmente besuntado de gel nos cabelos, com olhar vazio de peixe de aquário, daqueles que se conformaram em nadar de um lado para o outro por toda a eternidade. ‘Há quantos anos o senhor possui essa mala? Quando e onde arrumou sua bagagem? Alguém o ajudou? Suas malas estiveram no conserto recentemente? Recebeu algum objeto de estranhos no aeroporto?
Assistiu Vila Sésamo quando era pequeno? Prefere sonho de valsa ou diamante negro? Pega-vareta ou passa e repassa? Silvio Santos ou Faustão? Ratinho ou Márcia? Aceitava doces de estranhos na porta da escola? Já cheirou maconha? Fumou LSD? Na lanchonete pede maionese à parte?
Ora, por favor … Será que alguém que pretende seqüestrar uma aeronave ou que esteja transportando drogas ou armas dirá que mandou a mala para o conserto ou que recebeu um pacote de um quilo de café do motorista de táxi na porta do aeroporto? Será que ainda existem na era da cibernética boçais que aceitam uma caixa em forma de violino com uma metralhadora dentro para entregar do outro lado do mundo sem verificar o conteúdo?
Tudo o que os ‘agentes de segurança’ conseguem é atrasar o processo de embarque em mais quinze minutinhos, produzir caras amarradas e respostas negativas secas e automáticas nos viajantes freqüentes ou, o que é pior, assustar e confundir os novatos, que se põem a contar o dia em que compraram suas malas Primicio numa oferta do Jumbo em Araraquara ou como foi que junto com os filhos e a patroa passaram a tarde arrumando as malas em Jundiaí enquanto assistiam ao ‘Supermarket’ na televisão do hotel. É mais uma clássica ‘coisa de americano’, criação do povo que se especializou em liberdade vigiada e que talvez por isso assista em média uma vez por mês a dois pequenos boitatás que vão à escola pela manhã e dão cabo da metade da turminha com suas espingardas de caça ou a fulanos barbados de capús e óculos ambervision que se divertem mandando bombas pelo correio ou pelo DHL quando estão com pressa.
O fato é que a bossalidade e o despreparo brasileiro aliados à tonteira americana, à grosseria francesa e outras mazelas internacionais fizeram, nessa quinta-feira, muita gente boa que chegou duas horas antes à Cumbica perder seus vôos e voltar para casa ou passar uma agradável noite no
convidativo e acolhedor hotel De Ville com vista para Guarulhos.
Talvez isso seja de menor importância frente aos problemas que esperam José Serra ou Paulo Renato. Depende de como se encara o fato. Se olharmos como um pequeno exemplo de como estamos projetados para sermos um país que não dá certo e que não se preparou para receber o tão anunciado futuro da era da ‘internê’, o panorama pode ser tão sombrio que nem pajelança forte resolve.
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