por Rodrigo V. Cunha

John Fullerton quer mudar a lógica do mercado financeiro: ”Precisamos ir contra uma inércia institucional muito arraigada da economia global”

John Fullerton cresceu numa família típica americana, com educação tradicional. Era popular na escola, além de bom atleta. Fez carreira no mercado financeiro até chegar a uma posição de liderança global no setor de derivativos —  que ele ajudou a desenvolver. Certo dia, embarcado em primeira classe na Singapore Airlines, lendo o New York Times de domingo com uma champagne na mão, teve uma sensação estranha.

Era dia dos pais e ele estava se afastando da família enquanto lia uma matéria de um magnata filantropo que estava doando toda sua fortuna. A partir dali, John começou a ouvir uma voz que não o deixaria em paz até sair do mercado financeiro. Aconteceu oito anos depois, quando ele desmaiou no elevador ao sair de uma reunião com o líder da área de capitais do banco.

Começava ali uma longa busca que o fez atravessar mais de 100 livros em busca de respostas e de propósito até finalmente criar o Regenerative Capital Institute —  para aplicar princípios regenerativos no mercado financeiro. Segundo ele, precisamos parar de pensar na lógica reducionista do mercado financeiro —  que transforma tudo em taxa de retorno sobre o capital —  e pensar no todo para encontrar as soluções para a transição que iremos passar nas próximas décadas da aventura humana. "Infelizmente, vivemos em um momento em que o mundo vai ficar mais difícil antes que fique mais fácil. Minha esperança vem de potencial dos sistemas regenerativos", diz. "É uma nova fonte de prosperidade para substituir a atual —   essencialmente um crescimento inconsequente e exponencial que sabemos que não podemos continuar alimentando."

Você teve uma carreira meteórica em um dos maiores bancos do mundo, o JP Morgan. Se considera bem-sucedido? O CEO do JP Morgan na minha época era um sujeito chamado Luke Preston. Depois de dois anos em que eu estava no banco, ele se aposentou e passou a dirigir o Banco Mundial. Minha ideia de sucesso era construir uma carreira no Morgan e depois trabalhar no Banco Mundial e salvar o mundo. Era um tanto ingênuo, mas segui em frente e tive um grande desempenho. Nos anos 80, quando os derivativos foram criados, eu entendi muito bem seu funcionamento e passei temporadas em Tóquio e Londres, envolvido em todos os tipos de diferentes mercados de capitais, derivativos, renda fixa, ações e commodities. Os derivativos estavam revolucionando as finanças e ainda não não haviam se tornado armas de destruição em massa. Depois de 12 anos fazendo isso, cansei e fui trabalhar no LabMorgan, fazendo investimentos nas chamadas fintechs de hoje. Em 2001, o banco se fundiu com o Chase e prevaleceu a cultura deste último, muito mais competitiva. A realidade é que projetos novos foram adiando minha saída. Mas havia uma espécie de voz dizendo que eu precisava fazer algo diferente.

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O que essa voz te dizia? Eu não estava feliz com o tipo de pessoa que eu estava me tornando. A primeira vez que ouvi a voz foi em uma viagem, em 1995, quando havia sido promovido a chefe do departamento global de derivativos e commodities. Eu tinha 35 anos e havia chegado à mesa dos big boys, como se dizia. Era minha primeira viagem para a Ásia como chefe deste departamento. Era Dia dos Pais e deixei meus dois filhos pequenos —  um com dois anos e outro com dois meses de idade —  em casa. Lá estava eu na primeira classe da Singapore Airlines com champagne numa mão e o New York Times de domingo no colo —  um luxo para quem tem filhos pequenos. Olhei para baixo e vi o artigo sobre um cara chamado Walter Annenberg, líder da indústria da mídia na época. Ele havia virado notícia porque escolheu doar 365 milhões de dólares quatro instituições de ensino (hoje equivalente a 630 milhões de dólares). Certamente, havia trabalhado incessantemente por 70 anos, sacrificando muitas coisas —  inclusive o tempo com a família —  para se tornar o herói filantropo americano clássico. Em muitos aspectos, admiro o que ele fez, toda a generosidade, mas não era inspirador para mim. Qual é o propósito de trabalhar assim toda a sua vida? Só para você poder doar seu dinheiro? Foi quando decidi que viver o sonho americano de sucesso e depois ser um filantropo não seria minha história. E este foi o dia em que deixei o banco. Apenas levei cinco anos a mais para ter coragem de sair pela porta.

E como você conviveu com esta voz por mais cinco anos na sua cabeça? No sistema de valores de um gerente de negócios em um banco, você é medido e valorizado com base em quanto dinheiro faz. Seu senso de identidade própria e autoestima torna-se muito associado a um balanço de lucros e perdas. Todo ano que passava começava tudo de novo. Cansei. Achei que seria diferente no LabMorgan, e de novo parecia muito mais uma luta do que algo que eu realmente queria fazer. Teve um episódio em uma reunião com o presidente do Chase Capital Partners, onde estava alocado o LabMorgan. Durante a reunião, eu me senti quente e com sintomas de gripe forte. Quando o elevador chegou no andar térreo, eu estava desmaiado. Entendi que era mais uma mensagem me dizendo que era hora de sair. E assim foi —  um pouco assustador, mas libertador, depois de 18 anos de carreira no banco.

E o que você fez depois? Lembro do primeiro dia em que voltei a Manhattan depois de sair do banco. Fazia um lindo dia de sol. Eu tinha uma reunião às 9h30, em downtown. Era dia 11 de setembro de 2001. Eu estava no metrô quando o primeiro avião acertou as torres gêmeas. Saí do metrô no momento em que o segundo avião atingiu a outra torre. Eu estava na região do City Hall —  longe o suficiente para estar seguro, mas perto o suficiente para ver de maneira visceral tudo o que estava acontecendo. Acabei levando o dia inteiro para chegar em casa. Eu já tinha tido o terceiro filho e lembro como se fosse ontem de abraçar toda a família tentando imaginar em que mundo eles iriam crescer. Tudo me empurrou para um processo de exploração profunda para tentar entender o que estava acontecendo comigo e com o mundo. Eu não sabia nada sobre a crise ambiental na época ou sobre sistemas complexos. Afinal, nada disso se ensina em Wall Street.

 

Você fundou o Regenerative Capital Institute para repensar os fluxos do sistema financeiro, sair de uma perspectiva predatória (como é o mercado financeiro em geral) para uma perspectiva regenerativa. Entre o que você fazia em Wall Street e o que faz hoje há uma distância enorme. O que aconteceu no meio? Eu diria algumas coisas. A primeira é que tive motivação para a pesquisa e ia para livrarias buscar conhecimento e os livros literalmente me encontravam. Vou falar de três livros que foram chave neste processo: "Os Limites do Crescimento", "Small is Beautiful" (O negócio é ser pequeno, em português), de E.F. Schumacher e o trabalho completo de Herman Daly e toda a estrutura de economia ecológica. Lembro de estar às 3h da manhã de um certo dia lendo um livro de Daly em que ele cita a distinção entre economia real (Oikonomia, do grego) e a economia especulativa (Chremastistics), pensada por Aristóteles. O filósofo grego entendeu que havia uma diferença fundamental e considerava a segunda uma atividade antinatural. Eu pensava que era justamente isso que eu fazia e não vemos nada errado em ganhar dinheiro com dinheiro... Foi como uma flecha no peito no momento certo. Ainda teve um episódio que foi o livro "Synchronicity: the inner path of leadership", de Joseph Jaworksi,  ter chegado até mim. De repente, eu era um ex-banqueiro acreditando em sincronicidades na busca por sentido, aos 40 anos de idade. Eu não sabia o que queria fazer e não conseguia descobrir o que fazer. Eu provavelmente li cerca de 100 livros em um período de oito anos. Foi uma época muito difícil. Eu estava lutando com a chamada noite escura da alma, tentando descobrir quem eu era e qual era o meu propósito. Foi quando a sincronicidade começou a agir.

Como? Um dia a Sociedade Schumacher de Massachussets me pediu para escrever um texto sobre economia regenerativa e a importância de Schumacher para o século 21. Era um artigo de umas 20 páginas que foi parar na mesa do biólogo Allan Savory. Ele estava desenvolvendo na época a ideia do manejo holístico do pasto para gados dentro do conceito de agricultura regenerativa, juntando biomimética e pecuária. Eu conhecia o conceito e perguntava: se podemos aplicar na agricultura, por que não poderíamos aplicar a este outro sistema chamado economia? Acabei fazendo negócios com Allan, que foi quem me apresentou a Jan Smuts e a teoria do holismo. Uma grande sincronicidade que acontece além do que meu intelecto podia sequer pensar.

O que você quiser dizer quando fala que precisamos passar do pensamento reducionista para uma visão holística? Holismo foi uma palavra cunhada por Jan Smuts, um general sul-africano na Segunda Guerra Mundial que se tornou primeiro ministro ao final da guerra. Ele escreveu um livro chamado "Holism and Evolution" (sem tradução para o português) em 1926 e trocava correspondências com Albert Einstein, em que  falavam sobre como holismo e a teoria da relatividade seriam importantes para o futuro da civilização. Smuts definiu o holismo como o princípio universal que explica a matéria, a vida e o espírito. Não há nada de errado com o reducionismo. É importante quebrar as partes pequenas para entender o todo. Porém, é importante não confundir o método com o modo como o mundo realmente funciona. Por exemplo, queimamos combustíveis fósseis e por muito tempo não percebemos que colocar gás na atmosfera poderia criar outros problemas. Ou mesmo quando projetamos títulos hipotecários que exploram pessoas pobres e no fim das contas podem levar um país à falência. Então, muitos dos grandes problemas do mundo, alguns hoje intratáveis, são sintomas de um projeto de sistema falho que não tem um entendimento holístico. Mas isso está mudando.

 

Está? É isso que está acontecendo com a saúde. Temos especialistas reducionistas em torno das diferentes partes do corpo. Assim, deixamos de enxergar o todo. Como resposta, agora temos a medicina integrativa e o crescimento da medicina oriental no ocidente. Está cada vez mais claro que não podemos simplesmente ser saudáveis se tivermos partes que não são. Certamente está acontecendo na educação, com a ideia de educação transdisciplinar, a nova grande aposta. Eu acho que isso está acontecendo também nos negócios. Porém, é realmente difícil fazer essa mudança porque ela faz parte de nosso DNA pensar de forma reducionista. E eu acho que é particularmente difícil em finanças.

Por quê? Porque definimos valor e sucesso com base na otimização da taxa de retorno sobre o capital. Colocamos todos os outros fatores qualitativos de lado no momento em que sabemos que um retorno de 17% é melhor do que um retorno de 15%, independentemente das consequências para chegar neste resultado. Portanto, aplicar esta visão à algo tão complexo quanto a economia não é trivial. Uma maneira de tornar isso possível é pela conexão à escala biorregional, começar a fazer isso de baixo para cima em vez de cima para baixo. Eu acho que estamos abrindo uma investigação totalmente nova sobre como pensar em construir economias saudáveis. No momento, a economia global é como se fosse uma chuva de granizo. Nada vai florescer no jardim da economia regenerativa enquanto estiver caindo granizo.

 E como devemos fazer para parar esta chuva de granizo com os níveis de temperatura do planeta subindo e tantos novos problemas surgindo? Como você se sente sobre isso? (Longa pausa.) Eu tento nunca ser otimista ou pessimista. Eu tenho esperança, mas infelizmente vivemos em um momento em que o mundo vai ficar mais difícil antes que fique mais fácil. Minha esperança vem da  experiência e dos projetos em que estou envolvido. Sei que não vão resolver os problemas do mundo agora, mas o potencial regenerativo é real. Se pensarmos filosoficamente, tudo está em uma relação simbiótica. É assim que os sistemas vivos funcionam. Isso é verdade até em nível celular ou molecular. Dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio no relacionamento correto criam água. Pense no potencial que a água possibilita. Tenho fé que se pudermos alinhar nossa economia humana com os princípios dos sistemas regenerativos descobriremos um imenso potencial. É uma nova fonte de prosperidade para deslocar e substituir a atual —   essencialmente um crescimento inconsequente e exponencial que sabemos que não podemos continuar alimentando. Então é daí que vem minha esperança.

E qual a sua preocupação? Meu desespero vem de entender a real dificuldade de mudar a mentalidade e as visões de mundo que vão nos permitir fazer essas mudanças. Precisamos ir contra uma inércia institucional muito arraigada da economia global que está bloqueada em um caminho insustentável. Acredito que meu trabalho e de muitos outros é ser um exemplo de alguém que está mudando visões de mundo e elevando a consciência. Não acho que as pessoas que estão trabalhando nessa frente estejam fazendo isso sem ter tido alguma mudança em sua própria consciência pessoal. Minha esperança está apoiada também em uma crescente mudança na consciência. E acredito apaixonadamente que, se alinharmos nossos sistemas com o modo como os sistemas vivos funcionam, vamos liberar o potencial que atualmente não vemos. Porém, eu seria dissimulado em dizer que sou otimista. Não sou pessimista também. Eu sou apenas realista. Meu professor de ciências me dizia que a única maneira de os sistemas mudarem é quando estão sob pressão. É assim com um terremoto, com a queda do muro de Berlim. A água só ferve e muda de estado quando você aumenta o calor —  o que temos de sobra agora.

Créditos

Imagem principal: Ilustração Vitoria Bas

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