O ATAQUE DAS LÂMPADAS-FURÚNCULO
Essas lâmpadas vêm invadindo, dominando e transformando lugares pitorescos em drugstores americanas
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Foram milhares de manifestações pelo aniversário da cidade. Declarações de amor inesperadas, presentes sem pé nem cabeça, bolos de quilômetros devorados em segundos, e mais que tudo, infinitas ‘matérias especiais’ em que jornalistas fazem uma espécie de happy hour profissional, deixando de lado as pautas quentes e chatas, as peripécias da nova prefeita, os últimos capítulos da novela, as chacinas do dia, e partem à procura da poesia que se supõe perdida entre os carros e as pessoas apressadas passando de lá pra cá.
Assim, produziram-se centenas de matérias parecidas, especialmente na TV, abusando das cenas em câmera lenta com, por exemplo, um garrafeiro puxando sua carroça, e o apresentador do telejornal trocando seu tom grave de praxe , pela voz cotelê de bom cunhado, tentando injetar doçura no quiabo, ou como prefere Toscani, encharcando de perfume francês, o defunto em decomposição.
Que a cidade é um doente terminal com poucas chances, há um quase consenso ao qual é dada uma trégua rápida em ocasiões especiais, como o natal, ou o aniversário, que, por acaso ou não, coincide com as férias escolares, período em que os sintomas da doença também são menos dolorosos, ainda que por tempo curto.
Entre todas as comemorações, com e sem sentido, achei particularmente interessante a restauração de 44 lampiões a gás no pátio do colégio, com direito à volta dos vaga-lumes, os funcionários encarregados de acendê-los.
Não fui até lá conferir o resultado. O pátio do colégio como de resto, quase todo o centro velho da cidade ,tornou-se um ponto distante e pouquíssimo convidativo a visitas, em que pesem iniciativas brilhantes para reativá-lo como a sala São Pedro.
Mesmo sem ter estado lá porém, dei valor à iniciativa, pelo simples fato de se tratar de algo que convida a refletir sobre coisas sutis como a luz.
Já escrevi neste espaço sobre a falta que fazem bons arquitetos e urbanistas neste país. Mais uma vez, a terra de contrastes que deu à luz, nomes como Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha e acolheu Lina Bo Bardi, convive conformada, com a falta de bom senso e lógica em forma de edificações, ruas , muros e monumentos estarrecedores.
É por isso que acho louvável a preocupação de restaurar os lampiões. O povo que passar à noite pelo marco zero da cidade , talvez não se dê conta do motivo, mas seguramente sentirá um prazer sutil despertando sua alma endurecida.
Não é por acaso , que a luz é uma das prioridades de um bom projeto arquitetônico. Na mesma medida, saber lidar com a presença e a ausência dela , são habilidades básicas para tornar uma casa, um prédio, uma rua, uma praça ou qualquer outro ambiente agradável.
Neste departamento estamos com o perdão da infâmia, na mais profunda escuridão. Nossas casas, ainda abusam das fontes de luz únicas presas ao centro do teto, herança do tempo em que as velas , escassas fontes de claridade tinham de ser posicionadas no alto para fazer render o brilho das chamas. Hoje , vemos em residências e ambientes de trabalho, horrores como luminárias com seis lâmpadas frias colocadas no centro dos tetos, retirando qualquer chance de conforto visual e aconchego do ambiente, e colocando em troca , uma luz que vibra e incomoda, além de deixar o mais belo exemplar da raça, assustador como um paciente de U.T.I.
GLOBALIZAÇÃO SILENCIOSA
Ultimamente, em minhas andanças pelos mocós do Brasil, tenho ficado estarrecido com uma alteração da paisagem quase tão triste como as focas lambuzadas de óleo rolando nas areias de Galápagos.
Falo dos lugarejos escondidos e preservados do país. Das cidadezinhas do interior de São Paulo, à distante Vila dos Remédios em Fernando de Noronha.
Tão diferentes entre si, há uma praga que vai aos poucos e silenciosamente se alastrando e tomando conta de todos eles. São umas certas lâmpadas que as gigantescas multinacionais da luz tem desovado nos mercados, e que segundo a propaganda, gastam menos energia e duram mais que as pobres lâmpadas incandescentes com sua luz amarelada e agradável.
Estes artefatos, geralmente em forma de três tubinhos de vidro retorcidos, além de não caberem nos soquetes normais , ficando para fora, como furúnculos high tech, vem sorrateiramente, transformando varandas, botequins, barracas de água de coco, barracos de favela, pequenos restaurantes caseiros,
quiosques da praia de Boa Viagem, armazéns da Guarda do Embaú e pousadas do Maranhão, em infinitas filiais de redes de farmácias e drugstores americanas, daquelas em que, independente da hora em que se entre, parece ser sempre meio-dia.
É claro que é preciso pensar na necessidade de poupar energia elétrica, mas é no mínimo engraçado que em lugares como Fernando de Noronha., onde vento e sol sobram em medidas incontáveis, seja preferível transformar todas as pousadas e residências em pequenas salas de espera de U.T.I. , a investir algum recurso na captação desta energia que há séculos passa batida pela ilha , como a ondulação do mar, mais que uma figura de retórica, outra forma de energia que em diversas paragens não é aproveitada apenas pelos surfistas.
Que São Paulo e o resto do país sejam iluminados, mas que tenham a luz que merecem.
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